Edição 1943 . 15 de fevereiro de 2006

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Arte
Uma reparação dolorosa

O governo holandês devolve 200 quadros aos herdeiros de um colecionador roubado pelos nazistas. E abre vazios nas paredes de museus

 
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VELHOS MESTRES
O Sacrifício de Ifigênia (1671), de Jan Steen (acima), e Vista de Dordrecht (1651), de Jan van Goyen, estão entre as obras do colecionador Jacques Goudstikker (abaixo) apropriadas pelos nazistas
Marcel Antonisse/AFP
Divulgação

Os nazistas foram os maiores ladrões de arte da história. Hitler pilhou os tesouros artísticos dos países que invadiu ou anexou, e muitos colecionadores privados – especialmente judeus – foram vítimas de "desapropriações". Na semana passada, o governo holandês decidiu reparar uma pequena parte desse saque gigantesco: devolveu 202 obras de mestres italianos, holandeses e flamengos a Marei von Saher, nora e herdeira do colecionador Jacques Goudstikker, um judeu holandês que se viu forçado a vender sua coleção a preços irrisórios quando fugiu da ocupação nazista, em 1940. Em outra reparação recente, cinco telas do austríaco Gustav Klimt que estavam na Galeria Belvedere, de Viena, foram embaladas, no último dia 6, para uma viagem rumo aos Estados Unidos. Serão devolvidas a Maria Altmann, de 89 anos, uma gerente de butique aposentada cuja família era proprietária das obras antes da anexação da Áustria, em 1938.

Essas devoluções criam vazios dolorosos nos museus. Adele Bloch-Bauer I, um retrato de mulher com os tons dourados característicos de Klimt, era uma das estrelas da Belvedere. O patrimônio nacional holandês também perde: só o Rijksmuseum, um dos museus mais importantes do mundo, devolverá quinze obras, entre elas O Sacrifício de Ifigênia, de Jan Steen, um dos grandes mestres holandeses do século XVII. Instituições menores talvez sofram golpes mais duros, pois perderão alguns de seus quadros mais importantes – é o caso do Museu de Dordrecht, cuja Vista de Dordrecht, de Jan van Goyen (que por acaso era sogro de Jan Steen), pertencia à coleção de Goudstikker. A ministra da Cultura da Holanda, Medy van der Laan, admitiu que a restituição representa uma verdadeira "sangria" nos museus do país – dezessete deles serão obrigados a devolver obras. Na opinião da ministra, contudo, a devolução dessas obras aos proprietários de direito era um imperativo moral.

Museus são espaços onde as grandes obras de arte são preservadas e ficam à disposição de todos. Essa divulgação da herança cultural tem um caráter civilizador. A última década, no entanto, viu emergir o consenso de que o benefício público oferecido pelos museus não pode se sobrepor ao direito de pessoas que foram barbaramente espoliadas por um regime selvagem. Só na Alemanha, os nazistas confiscaram mais de 16.000 obras. Depois da guerra, muitas delas foram reavidas pelos Aliados, mas não devolvidas a seus donos originais. O mercado de arte do pós-guerra tornou-se uma verdadeira caixa-preta. Até hoje é necessário realizar trabalhos detetivescos para estabelecer a procedência de muitas relíquias. Vítimas da ladroagem nazista e seus herdeiros têm buscado reparações na Justiça, e há várias comissões nacionais e internacionais dedicadas a analisar esses casos. A decisão de devolver as obras da coleção Goudstikker, por exemplo, foi determinada pelo Comitê de Restituições da Holanda, que até agora já julgou dezenove casos, dos quais catorze levaram a restituições. O Museu Britânico e a Galeria de Arte de Glasgow resolveram casos semelhantes pagando compensações aos herdeiros de direito, pois a lei britânica impede que seus museus façam devoluções.

Jacques Goudstikker foi o maior negociante de arte da Holanda antes da II Guerra Mundial. Seu acervo não se resumia aos itens agora recuperados – estima-se que perto de 1 000 obras suas estejam dispersas por museus e coleções particulares do mundo todo, incluindo obras de mestres como Ticiano, Velázquez e Van Gogh. Alguns desses tesouros foram apropriados por ninguém menos do que Hermann Goering, o comandante da Força Aérea alemã condenado à morte por crimes de guerra nos julgamentos de Nuremberg. Em sua maioria, as vítimas da roubalheira nazista pertenciam aos grupos étnicos que os ladrões consideravam inferiores – um componente racista que torna o saque ainda mais infame. Mesmo que a devolução seja a solução justa, não deixa de ser melancólico quando um museu perde obras-primas para coleções privadas, nas quais não estarão mais acessíveis à apreciação geral. Muitos grandes colecionadores acabaram criando instituições para expor seus acervos aos amantes da arte. Há especulações de que Marei von Saher planejaria abrir um Museu Goudstikker nos Estados Unidos. Seria a maior homenagem que o colecionador roubado por Goering poderia receber.

 
 
 
 
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