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Arte
Uma reparação dolorosa
O governo holandês devolve
200 quadros aos herdeiros de um colecionador roubado pelos nazistas.
E abre vazios nas paredes de museus
Divulgação
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VELHOS MESTRES
O Sacrifício de Ifigênia
(1671), de Jan Steen (acima), e Vista de Dordrecht
(1651), de Jan van Goyen, estão entre as obras do
colecionador Jacques Goudstikker (abaixo) apropriadas
pelos nazistas |
Marcel Antonisse/AFP
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Divulgação
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Os nazistas foram os maiores ladrões
de arte da história. Hitler pilhou os tesouros artísticos
dos países que invadiu ou anexou, e muitos colecionadores
privados especialmente judeus foram vítimas
de "desapropriações". Na semana passada, o governo
holandês decidiu reparar uma pequena parte desse saque gigantesco:
devolveu 202 obras de mestres italianos, holandeses e flamengos
a Marei von Saher, nora e herdeira do colecionador Jacques Goudstikker,
um judeu holandês que se viu forçado a vender sua coleção
a preços irrisórios quando fugiu da ocupação
nazista, em 1940. Em outra reparação recente, cinco
telas do austríaco Gustav Klimt que estavam na Galeria Belvedere,
de Viena, foram embaladas, no último dia 6, para uma viagem
rumo aos Estados Unidos. Serão devolvidas a Maria Altmann,
de 89 anos, uma gerente de butique aposentada cuja família
era proprietária das obras antes da anexação
da Áustria, em 1938.
Essas devoluções
criam vazios dolorosos nos museus. Adele Bloch-Bauer I, um
retrato de mulher com os tons dourados característicos de
Klimt, era uma das estrelas da Belvedere. O patrimônio nacional
holandês também perde: só o Rijksmuseum, um
dos museus mais importantes do mundo, devolverá quinze obras,
entre elas O Sacrifício de Ifigênia, de Jan
Steen, um dos grandes mestres holandeses do século XVII.
Instituições menores talvez sofram golpes mais duros,
pois perderão alguns de seus quadros mais importantes
é o caso do Museu de Dordrecht, cuja Vista de Dordrecht,
de Jan van Goyen (que por acaso era sogro de Jan Steen), pertencia
à coleção de Goudstikker. A ministra da Cultura
da Holanda, Medy van der Laan, admitiu que a restituição
representa uma verdadeira "sangria" nos museus do país
dezessete deles serão obrigados a devolver obras. Na opinião
da ministra, contudo, a devolução dessas obras aos
proprietários de direito era um imperativo moral.
Museus são espaços
onde as grandes obras de arte são preservadas e ficam à
disposição de todos. Essa divulgação
da herança cultural tem um caráter civilizador. A
última década, no entanto, viu emergir o consenso
de que o benefício público oferecido pelos museus
não pode se sobrepor ao direito de pessoas que foram barbaramente
espoliadas por um regime selvagem. Só na Alemanha, os nazistas
confiscaram mais de 16.000 obras. Depois da guerra, muitas delas
foram reavidas pelos Aliados, mas não devolvidas a seus donos
originais. O mercado de arte do pós-guerra tornou-se uma
verdadeira caixa-preta. Até hoje é necessário
realizar trabalhos detetivescos para estabelecer a procedência
de muitas relíquias. Vítimas da ladroagem nazista
e seus herdeiros têm buscado reparações na Justiça,
e há várias comissões nacionais e internacionais
dedicadas a analisar esses casos. A decisão de devolver as
obras da coleção Goudstikker, por exemplo, foi determinada
pelo Comitê de Restituições da Holanda, que
até agora já julgou dezenove casos, dos quais catorze
levaram a restituições. O Museu Britânico e
a Galeria de Arte de Glasgow resolveram casos semelhantes pagando
compensações aos herdeiros de direito, pois a lei
britânica impede que seus museus façam devoluções.
Jacques Goudstikker foi o maior
negociante de arte da Holanda antes da II Guerra Mundial. Seu acervo
não se resumia aos itens agora recuperados estima-se
que perto de 1 000 obras suas estejam dispersas por museus e coleções
particulares do mundo todo, incluindo obras de mestres como Ticiano,
Velázquez e Van Gogh. Alguns desses tesouros foram apropriados
por ninguém menos do que Hermann Goering, o comandante da
Força Aérea alemã condenado à morte
por crimes de guerra nos julgamentos de Nuremberg. Em sua maioria,
as vítimas da roubalheira nazista pertenciam aos grupos étnicos
que os ladrões consideravam inferiores um componente
racista que torna o saque ainda mais infame. Mesmo que a devolução
seja a solução justa, não deixa de ser melancólico
quando um museu perde obras-primas para coleções privadas,
nas quais não estarão mais acessíveis à
apreciação geral. Muitos grandes colecionadores acabaram
criando instituições para expor seus acervos aos amantes
da arte. Há especulações de que Marei von Saher
planejaria abrir um Museu Goudstikker nos Estados Unidos. Seria
a maior homenagem que o colecionador roubado por Goering poderia
receber.
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