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Ambiente
Paraíso dos bichos
Montanhas da Indonésia revelam dezenas de novas espécies
de animais 
Thereza Venturoli
Fotos Conservation International
 |  | | Fauna
das montanhas de Foja (em sentido horário a partir da esquerda):
a ave-do-paraíso que se julgava extinta, o tamanduá espinhudo, o
canguru de árvore, o pássaro de penacho amarelo e a minúscula
perereca |
Depois de 25 dias percorrendo a floresta
tropical da Nova Guiné, na Indonésia, um grupo de biólogos
anunciou na semana passada uma descoberta sensacional. As montanhas de Foja, no
oeste da ilha, onde provavelmente o ser humano nunca havia pisado, abrigam um
viveiro de espécies até hoje desconhecidas pela ciência. A
área é o santuário de, no mínimo, vinte novas espécies
de sapos, quatro de borboletas e cinco de palmeiras. Os biólogos identificaram
um novo tipo de beija-flor e duas aves que se julgavam extintas, entre elas uma
ave-do-paraíso com um penacho de seis fios na cabeça. Entre os mamíferos,
a surpresa foi a numerosa população de cangurus das árvores,
ameaçados de extinção em seus outros habitats conhecidos.
Os cientistas também ficaram admirados com a formidável biodiversidade
da região. "Ecossistemas como esse, cada vez mais raros, precisam ser estudados
porque são verdadeiros laboratórios da natureza", diz o biólogo
americano Bruce Beehler, o líder da equipe, que também contou com
pesquisadores australianos e indonésios.
Beehler se refere ao fato de que as montanhas de Foja reproduzem um dos principais
cenários descritos pelo naturalista inglês Charles Darwin em sua
teoria da evolução das espécies. Com mais de 2.000 metros
de altura, as encostas mais altas de Foja são recobertas por 300.000 hectares
de mata intocada pelo homem é a maior floresta tropical intacta
da Ásia. A área funciona como uma ilha, separada das regiões
mais baixas por diferenças grandes de temperatura e umidade. As espécies
que povoam as alturas não descem a montanha e as que vivem na base não
sobem. Com isso, as que estão no topo se mantêm isoladas. Os habitantes
da área, por sua vez, limitam-se a ocupar as regiões mais baixas,
próximas ao litoral. Como ali encontram caça em abundância,
jamais se aventuraram a explorar as terras altas.
Darwin explicou que as barreiras naturais
como cadeias montanhosas e oceanos são fundamentais para
o surgimento de novas espécies. Intrigado com as diferenças nos
cascos das tartarugas gigantes que vivem nas diversas ilhas do Arquipélago
de Galápagos, o naturalista concluiu que todas elas eram originárias
de uma única região e, a certa altura, se espalharam pelas ilhas.
Cada um desses grupos isolados teria se adaptado gradualmente às condições
locais. Muitas gerações mais tarde, as diferenças entre os
descendentes de cada grupo seriam tantas que uma única espécie teria
se subdividido em várias. Muitos biólogos acreditam hoje que o surgimento
de novas espécies não acontece apenas por meio da adaptação
contínua e gradual ao ambiente. Em alguns casos, as condições
ambientais de determinada região podem mudar abruptamente, impondo transformações
radicais às plantas e aos animais que lá vivem. "Não sabemos
exatamente que tipos de mudança afetaram as espécies das montanhas
de Foja, mas com certeza seu isolamento foi um fator determinante para que elas
se tornassem únicas na região", disse a VEJA o americano Jeffrey
Schwartz, antropólogo e historiador da ciência da Universidade de
Pittsburgh, especialista em evolucionismo.
O arquipélago da Indonésia, com milhares de ilhas, é pródigo
no mecanismo de criação de novas espécies, processo que a
ciência chama de especiação. Em 2004, na Ilha de Flores, próxima
à Nova Guiné, descobriram-se os fósseis do Homo floresiensis,
um hominídeo anão, que viveu ali até 13 000 anos atrás,
descendente direto do Homo erectus. Acredita-se que o Homo erectus
tenha chegado à ilha 800.000 anos antes e que, devido à limitação
de alimentos e recursos do lugar, foi diminuindo de tamanho. O mesmo teria acontecido
com os elefantes pigmeus, que também povoaram a Ilha de Flores no passado.
A área das montanhas de Foja onde os biólogos acharam um tesouro
natural é tão isolada e selvagem que só pode ser alcançada
por helicóptero. A prova de que o ser humano o mais predador dos
animais não anda por lá é que os animais não
fugiam à aproximação dos pesquisadores. "Na maioria das florestas,
todas as espécies temem o homem porque aprenderam a fazê-lo", explica
o chefe da expedição, Bruce Beehler. "Em Foja, eles nem se importavam
com a nossa presença." |