Edição 1943 . 15 de fevereiro de 2006

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Ambiente
Paraíso dos bichos

Montanhas da Indonésia
revelam dezenas de novas
espécies de animais


Thereza Venturoli

 
Fotos Conservation International
Fauna das montanhas de Foja (em sentido horário a partir da esquerda): a ave-do-paraíso que se julgava extinta, o tamanduá espinhudo, o canguru de árvore, o pássaro de penacho amarelo e a minúscula perereca
AP
AFP


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Outras fotos das espécies

Depois de 25 dias percorrendo a floresta tropical da Nova Guiné, na Indonésia, um grupo de biólogos anunciou na semana passada uma descoberta sensacional. As montanhas de Foja, no oeste da ilha, onde provavelmente o ser humano nunca havia pisado, abrigam um viveiro de espécies até hoje desconhecidas pela ciência. A área é o santuário de, no mínimo, vinte novas espécies de sapos, quatro de borboletas e cinco de palmeiras. Os biólogos identificaram um novo tipo de beija-flor e duas aves que se julgavam extintas, entre elas uma ave-do-paraíso com um penacho de seis fios na cabeça. Entre os mamíferos, a surpresa foi a numerosa população de cangurus das árvores, ameaçados de extinção em seus outros habitats conhecidos. Os cientistas também ficaram admirados com a formidável biodiversidade da região. "Ecossistemas como esse, cada vez mais raros, precisam ser estudados porque são verdadeiros laboratórios da natureza", diz o biólogo americano Bruce Beehler, o líder da equipe, que também contou com pesquisadores australianos e indonésios.

Beehler se refere ao fato de que as montanhas de Foja reproduzem um dos principais cenários descritos pelo naturalista inglês Charles Darwin em sua teoria da evolução das espécies. Com mais de 2.000 metros de altura, as encostas mais altas de Foja são recobertas por 300.000 hectares de mata intocada pelo homem – é a maior floresta tropical intacta da Ásia. A área funciona como uma ilha, separada das regiões mais baixas por diferenças grandes de temperatura e umidade. As espécies que povoam as alturas não descem a montanha e as que vivem na base não sobem. Com isso, as que estão no topo se mantêm isoladas. Os habitantes da área, por sua vez, limitam-se a ocupar as regiões mais baixas, próximas ao litoral. Como ali encontram caça em abundância, jamais se aventuraram a explorar as terras altas.

Darwin explicou que as barreiras naturais – como cadeias montanhosas e oceanos – são fundamentais para o surgimento de novas espécies. Intrigado com as diferenças nos cascos das tartarugas gigantes que vivem nas diversas ilhas do Arquipélago de Galápagos, o naturalista concluiu que todas elas eram originárias de uma única região e, a certa altura, se espalharam pelas ilhas. Cada um desses grupos isolados teria se adaptado gradualmente às condições locais. Muitas gerações mais tarde, as diferenças entre os descendentes de cada grupo seriam tantas que uma única espécie teria se subdividido em várias. Muitos biólogos acreditam hoje que o surgimento de novas espécies não acontece apenas por meio da adaptação contínua e gradual ao ambiente. Em alguns casos, as condições ambientais de determinada região podem mudar abruptamente, impondo transformações radicais às plantas e aos animais que lá vivem. "Não sabemos exatamente que tipos de mudança afetaram as espécies das montanhas de Foja, mas com certeza seu isolamento foi um fator determinante para que elas se tornassem únicas na região", disse a VEJA o americano Jeffrey Schwartz, antropólogo e historiador da ciência da Universidade de Pittsburgh, especialista em evolucionismo.

O arquipélago da Indonésia, com milhares de ilhas, é pródigo no mecanismo de criação de novas espécies, processo que a ciência chama de especiação. Em 2004, na Ilha de Flores, próxima à Nova Guiné, descobriram-se os fósseis do Homo floresiensis, um hominídeo anão, que viveu ali até 13 000 anos atrás, descendente direto do Homo erectus. Acredita-se que o Homo erectus tenha chegado à ilha 800.000 anos antes e que, devido à limitação de alimentos e recursos do lugar, foi diminuindo de tamanho. O mesmo teria acontecido com os elefantes pigmeus, que também povoaram a Ilha de Flores no passado. A área das montanhas de Foja onde os biólogos acharam um tesouro natural é tão isolada e selvagem que só pode ser alcançada por helicóptero. A prova de que o ser humano – o mais predador dos animais – não anda por lá é que os animais não fugiam à aproximação dos pesquisadores. "Na maioria das florestas, todas as espécies temem o homem porque aprenderam a fazê-lo", explica o chefe da expedição, Bruce Beehler. "Em Foja, eles nem se importavam com a nossa presença."

 
 
 
 
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