Edição 1943 . 15 de fevereiro de 2006

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Tecnologia
A mente de quem mente

Os cientistas encontraram um uso inédito
para a ressonância magnética: apontar
com precisão quem está mentindo


Camila Antunes

Um aviso ao pessoal que costuma ser convocado a depor nas CPIs em Brasília: a ciência descobriu um método muito mais eficiente que os tradicionais para saber se uma pessoa está mentindo ou não. É uma nova aplicação para o conhecido aparelho de ressonância magnética funcional, cujos sensores conseguem discernir que áreas do cérebro são acionadas no momento exato em que se processam pensamentos e emoções. Na última década, essa tecnologia tem dado sobrevida a um campo que parecia ter caído em desgraça entre os pesquisadores, a biopsicologia. Novas medições feitas com esse aparelho começam a revolucionar uma área sobre a qual pouco se sabia – a dos sinais biológicos mensuráveis emitidos pelo cérebro quando ele lida com pensamentos e emoções complexas. A mentira está entre essas complexidades que estão deixando sua impressão digital nos aparelhos de ressonância magnética funcional. Ao observarem centenas de casos, os especialistas chegaram a uma detalhada descrição do que se passa no cérebro quando alguém está mentindo. O ditado diz que a mentira tem pernas curtas, mas o que a denuncia no exame de ressonância é o fato de o cérebro ter certas áreas mais ativadas e demorar mais tempo para processá-la. Por que o cérebro demora? Exatamente porque a mentira é um ato racional. Mas, para mentir, a pessoa precisa conter o instinto de relatar a verdade e ainda por cima parecer convincente. Aí entram em campo as emoções. É aí que a pessoa se entrega ao aparelho. "A verdade é processada de maneira bem mais rápida", disse a VEJA a especialista Joy Hirsch, da Universidade Colúmbia, nos Estados Unidos.

O método em questão representa um avanço considerável em relação a outras técnicas já usadas para detectar a mentira. A mais conhecida e disseminada é o polígrafo, inventado nos Estados Unidos em 1921 e até hoje utilizado em delegacias de polícia americanas. Ele capta os sinais associados ao ato de contar mentira. O polígrafo detecta um conjunto de sintomas físicos: verifica a aceleração dos batimentos cardíacos, o aumento da pressão sanguínea, o ritmo da respiração e a transpiração do corpo. Esses são sinais de um quadro de stress que os psicólogos comportamentais associam aos mentirosos no ato de enganar. O problema é que tais sintomas muitas vezes aparecem em pessoas que dizem a verdade, mas que ficam excessivamente nervosas ao ser avaliadas pela máquina. Por sua vez, mentirosos que demonstram frieza na hora de ocultar a verdade são freqüentemente absolvidos pelo aparelho. A ressonância magnética está a salvo desse tipo de manipulação humana porque dá conta do que se passa no interior no cérebro. Suas chances de acerto são bastante altas: mais de 90%, segundo os especialistas. O porcentual de erro atribuído ao aparelho fica por conta dos casos de pessoas que apresentam doenças psíquicas mais complexas. Ao contarem uma mentira, elas muitas vezes acreditam estar dizendo a verdade. O exame também pode falhar com os mitômanos, indivíduos que de tanto mentir não apresentam mais nenhum conflito ao omitir a verdade. "A ciência sabe pouca coisa com certeza sobre as evidências físicas mensuráveis de quem mente", diz o neurologista Mauro Muszkat, professor da Universidade Federal de São Paulo.

Ao desvendar o processo mental de elaboração da mentira, o novo aparelho joga luz numa área de conhecimento que até então praticamente se restringia à observação do comportamento humano. Com base nessas pesquisas mais antigas, o FBI (a polícia federal americana) desenvolveu uma técnica para flagrar mentirosos avaliando expressões faciais e gestos. Diz a cartilha do FBI, entre outras coisas, que piscar os olhos de forma descontrolada e inclinar o corpo para trás são sinais típicos de quem falta com a verdade. O aparelho que permite enxergar o interior da mente no ato da mentira vai muito mais longe – e por sua aplicação prática ele tem despertado tanto interesse. Nos Estados Unidos, onde a nova máquina chegará ao mercado em julho, o governo já manifestou interesse em implantar o sistema nas delegacias de polícia e em setores de imigração dos aeroportos. O objetivo declarado é que a ressonância magnética passe a ser utilizada como um instrumento de caça aos terroristas. Foi por esse motivo que o Departamento de Defesa americano passou a financiar – depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 – cinqüenta centros de pesquisa voltados para o aprimoramento das técnicas de detecção da mentira. Tudo indica que, em breve, a ciência terá avançado mais no conhecimento sobre a mente dos mentirosos.

 

 

 
 
 
 
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