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Tecnologia A
mente de quem mente Os cientistas encontraram um uso
inédito para a ressonância magnética: apontar com
precisão quem está mentindo  Camila
Antunes Um aviso ao pessoal que costuma ser convocado
a depor nas CPIs em Brasília: a ciência descobriu um método
muito mais eficiente que os tradicionais para saber se uma pessoa está
mentindo ou não. É uma nova aplicação para o conhecido
aparelho de ressonância magnética funcional, cujos sensores conseguem
discernir que áreas do cérebro são acionadas no momento exato
em que se processam pensamentos e emoções. Na última década,
essa tecnologia tem dado sobrevida a um campo que parecia ter caído em
desgraça entre os pesquisadores, a biopsicologia. Novas medições
feitas com esse aparelho começam a revolucionar uma área sobre a
qual pouco se sabia a dos sinais biológicos mensuráveis emitidos
pelo cérebro quando ele lida com pensamentos e emoções complexas.
A mentira está entre essas complexidades que estão deixando sua
impressão digital nos aparelhos de ressonância magnética funcional.
Ao observarem centenas de casos, os especialistas chegaram a uma detalhada descrição
do que se passa no cérebro quando alguém está mentindo. O
ditado diz que a mentira tem pernas curtas, mas o que a denuncia no exame de ressonância
é o fato de o cérebro ter certas áreas mais ativadas e demorar
mais tempo para processá-la. Por que o cérebro demora? Exatamente
porque a mentira é um ato racional. Mas, para mentir, a pessoa precisa
conter o instinto de relatar a verdade e ainda por cima parecer convincente. Aí
entram em campo as emoções. É aí que a pessoa se entrega
ao aparelho. "A verdade é processada de maneira bem mais rápida",
disse a VEJA a especialista Joy Hirsch, da Universidade Colúmbia, nos Estados
Unidos. O método em questão representa
um avanço considerável em relação a outras técnicas
já usadas para detectar a mentira. A mais conhecida e disseminada é
o polígrafo, inventado nos Estados Unidos em 1921 e até hoje utilizado
em delegacias de polícia americanas. Ele capta os sinais associados ao
ato de contar mentira. O polígrafo detecta um conjunto de sintomas físicos:
verifica a aceleração dos batimentos cardíacos, o aumento
da pressão sanguínea, o ritmo da respiração e a transpiração
do corpo. Esses são sinais de um quadro de stress que os psicólogos
comportamentais associam aos mentirosos no ato de enganar. O problema é
que tais sintomas muitas vezes aparecem em pessoas que dizem a verdade, mas que
ficam excessivamente nervosas ao ser avaliadas pela máquina. Por sua vez,
mentirosos que demonstram frieza na hora de ocultar a verdade são freqüentemente
absolvidos pelo aparelho. A ressonância magnética está a salvo
desse tipo de manipulação humana porque dá conta do que se
passa no interior no cérebro. Suas chances de acerto são bastante
altas: mais de 90%, segundo os especialistas. O porcentual de erro atribuído
ao aparelho fica por conta dos casos de pessoas que apresentam doenças
psíquicas mais complexas. Ao contarem uma mentira, elas muitas vezes acreditam
estar dizendo a verdade. O exame também pode falhar com os mitômanos,
indivíduos que de tanto mentir não apresentam mais nenhum conflito
ao omitir a verdade. "A ciência sabe pouca coisa com certeza sobre as evidências
físicas mensuráveis de quem mente", diz o neurologista Mauro Muszkat,
professor da Universidade Federal de São Paulo.
Ao desvendar o processo mental de elaboração da mentira, o novo
aparelho joga luz numa área de conhecimento que até então
praticamente se restringia à observação do comportamento
humano. Com base nessas pesquisas mais antigas, o FBI (a polícia federal
americana) desenvolveu uma técnica para flagrar mentirosos avaliando expressões
faciais e gestos. Diz a cartilha do FBI, entre outras coisas, que piscar os olhos
de forma descontrolada e inclinar o corpo para trás são sinais típicos
de quem falta com a verdade. O aparelho que permite enxergar o interior da mente
no ato da mentira vai muito mais longe e por sua aplicação prática
ele tem despertado tanto interesse. Nos Estados Unidos, onde a nova máquina
chegará ao mercado em julho, o governo já manifestou interesse em
implantar o sistema nas delegacias de polícia e em setores de imigração
dos aeroportos. O objetivo declarado é que a ressonância magnética
passe a ser utilizada como um instrumento de caça aos terroristas. Foi
por esse motivo que o Departamento de Defesa americano passou a financiar depois
dos atentados de 11 de setembro de 2001 cinqüenta centros de pesquisa
voltados para o aprimoramento das técnicas de detecção da
mentira. Tudo indica que, em breve, a ciência terá avançado
mais no conhecimento sobre a mente dos mentirosos. |