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Memória A
voz feminina da razão Dona-de-casa
em um subúrbio confortável, mãe de três crianças
e esposa zelosa (descontados o gênio tempestuoso e as eventuais quebras
de louça), Betty Friedan mudou o mundo, em 1963 e para todo o sempre
, quando publicou um livro que começara, anos antes, como trabalho
de faculdade. A Mística Feminina discorria, com todas as letras,
sobre como as mulheres americanas estavam neuróticas, deprimidas e frustradas
com a vida doméstica que, de acordo com a propaganda da época, deveria
ser seu ideal de felicidade. Com seu livro, Betty fundou o que viria a ser chamado
de "a segunda onda" do feminismo sendo a primeira a do sufrágio
universal e da "nova mulher" dos anos 20 e 30, esta sepultada no pós-guerra
em casas impecáveis, jardins floridos e saias rodadas. O reinado de Betty
como voz máxima e inconteste do feminismo durou pouco. A Guerra do Vietnã,
o movimento pelos direitos dos negros e a radicalização do pensamento
anticapitalista fermentaram um ambiente no qual Betty, de transgressiva, passou
a ser vista como conformista. Gerações de sucessoras atacaram-na
por pregar mudanças de atitudes, e não de estruturas, e por dar
mais atenção às mulheres de classe média do que à
luta de classes ou à revolução socialista o capitalismo
castra as mulheres, diria Germaine Greer, num rompante de absurdismo. Mesmo vilipendiada,
Betty permaneceu a voz (não raro irritada) da razão. Continuou a
advogar a igualdade entre os sexos, recusou-se até o fim a declarar guerra
aos sutiãs, aos homens ou ao casamento (o seu acabaria em divórcio,
em 1969) e não se prestou ao ventriloquismo marxista tão em voga
nas décadas de 70 e 80. Betty morreu no dia 4, aos 85 anos, de insuficiência
cardíaca, amparada pela história: o diagnóstico que ela publicou
em 1963 é um dos mais justos, sensatos e razoáveis já feitos
sobre a condição feminina. |