Edição 1943 . 15 de fevereiro de 2006

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Memória
A voz feminina da razão

Dona-de-casa em um subúrbio confortável, mãe de três crianças e esposa zelosa (descontados o gênio tempestuoso e as eventuais quebras de louça), Betty Friedan mudou o mundo, em 1963 – e para todo o sempre –, quando publicou um livro que começara, anos antes, como trabalho de faculdade. A Mística Feminina discorria, com todas as letras, sobre como as mulheres americanas estavam neuróticas, deprimidas e frustradas com a vida doméstica que, de acordo com a propaganda da época, deveria ser seu ideal de felicidade. Com seu livro, Betty fundou o que viria a ser chamado de "a segunda onda" do feminismo – sendo a primeira a do sufrágio universal e da "nova mulher" dos anos 20 e 30, esta sepultada no pós-guerra em casas impecáveis, jardins floridos e saias rodadas. O reinado de Betty como voz máxima e inconteste do feminismo durou pouco. A Guerra do Vietnã, o movimento pelos direitos dos negros e a radicalização do pensamento anticapitalista fermentaram um ambiente no qual Betty, de transgressiva, passou a ser vista como conformista. Gerações de sucessoras atacaram-na por pregar mudanças de atitudes, e não de estruturas, e por dar mais atenção às mulheres de classe média do que à luta de classes ou à revolução socialista – o capitalismo castra as mulheres, diria Germaine Greer, num rompante de absurdismo. Mesmo vilipendiada, Betty permaneceu a voz (não raro irritada) da razão. Continuou a advogar a igualdade entre os sexos, recusou-se até o fim a declarar guerra aos sutiãs, aos homens ou ao casamento (o seu acabaria em divórcio, em 1969) e não se prestou ao ventriloquismo marxista tão em voga nas décadas de 70 e 80. Betty morreu no dia 4, aos 85 anos, de insuficiência cardíaca, amparada pela história: o diagnóstico que ela publicou em 1963 é um dos mais justos, sensatos e razoáveis já feitos sobre a condição feminina.

 
 
 
 
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