|
|
Economia e negócios
Por que os tucanos
não se bicam
À espera de um candidato,
economistas do PSDB se atacam
e lançam idéias conflitantes

Marcio Aith e Giuliano Guandalini
Montagem sobre ilustração
de Baptista e fotos de Germano Luders, Daniel Pera/Ag. O Globo,
Jamil Bittar/Reuters e Monica Monica Zaratini/AE
 |
|
1.
Mendonça, o trator da ala paulista, ataca o fundamentalismo
da turma do Rio
2.
Serra propôs a "lei de responsabilidade cambial".
Criticado, disse que foi apenas uma figura retórica
3.
Bresser-Pereira: seu plano para reduzir a dívida virou
motivo de piada no tucanato
4.
Armínio: avesso a brigas, disse que Bresser propõe
o calote da dívida
|
É natural que as equipes
dos pré-candidatos à Presidência da República
duelem entre si pela hegemonia das melhores propostas. Afinal, o
mais certo é que o guru econômico do candidato eleito
venha a ser ministro da Fazenda ou presidente do Banco Central no
novo governo. Portanto, o atual conflito que divide os economistas
tucanos deve ser entendido nesse contexto. Mas há algo mais
nessa briga que fascina. Isso deriva do fato de que nenhum partido
político brasileiro tem tantos especialistas em economia
quanto o PSDB alguns filiados à legenda e outros apenas
simpatizantes. A legenda lembra um centro de estudos econômicos
avançados, e não é difícil entender
por quê. Fernando Henrique Cardoso elegeu-se em 1994 devido
ao sucesso e à engenhosidade do Plano Real. Para isso, atraiu
os melhores e mais experientes tecnocratas disponíveis à
época: André Lara Resende, Persio Arida, Gustavo Franco,
Pedro Malan, Edmar Bacha e Winston Fritsch. Também deram
pitacos na formulação do Real o atual prefeito de
São Paulo, José Serra, e o economista José
Roberto Mendonça de Barros.
Outras estrelas do partido mais
tarde deram sua contribuição ao tucanato. Entre elas
Armínio Fraga, presidente do Banco Central de 1999 a 2002,
e Luiz Carlos Mendonça de Barros, que chefiou o BNDES e o
Ministério das Comunicações. Com tantos especialistas
e a experiência do Real na bagagem alguns ainda calejados
pela fracassada experiência do Plano Cruzado , seria
razoável supor que o partido já soubesse fugir de
terreno minado e criar ao menos as linhas básicas de seu
projeto econômico. Não é o que se vê.
Os tucanos estão divididos quando o assunto é economia,
trocam farpas inúteis entre si e, em alguns casos, lançam
propostas intervencionistas que podem dar ao presidente Luiz Inácio
Lula da Silva a chance de concorrer à reeleição
como o "fiador da estabilidade".
Está em curso de novo
o embate histórico entre o grupo dos chamados "desenvolvimentistas",
de perfil mais intervencionista no qual se alinha a ala paulista,
de Serra e dos irmãos Mendonça de Barros , e
o dos "liberais ortodoxos" o pessoal da PUC do Rio de Janeiro,
de Malan e Armínio. Mas, mesmo dentro de cada um desses blocos,
as divergências andam acima do tom. Tome-se o caso da proposta
de redução da taxa de juro que tem sido defendida
pelo economista da Fundação Getulio Vargas (FGV) e
ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser-Pereira, da velha guarda
do PSDB e obsoleto, diriam os tucanos mais maldosos. Bresser-Pereira
defendeu a troca dos atuais títulos do Tesouro por papéis
que rendam menos de 10%. Como ficou a impressão de que essa
troca seria compulsória, a idéia de Bresser foi rechaçada
em uníssono nem seus aliados naturais o apoiaram.
Os cariocas não pensaram duas vezes. "Interpretei como calote",
reagiu Armínio. Bresser subiu nas tamancas e respondeu: "O
senhor Armínio Fraga foi um bom presidente do Banco Central
enquanto baixou a taxa de juro, mas parece que partilha do vício
dos adeptos da ortodoxia convencional de considerar todas as alternativas
às suas políticas demonstração de populismo
ou de irresponsabilidade".
Ricardo Stuckert
 |
|
FHC na festa de três
anos do Real: quando estão unidos, tucanos têm
idéias valiosas
|
Outros
tucanos que andaram medindo diferenças foram Ilan Goldfajn,
diretor do BC na gestão Armínio Fraga e professor
da PUC-RJ, e Luiz Carlos Mendonça de Barros. Tradicionalmente
pessimista quanto aos prognósticos econômicos, Mendonça
ingressou numa fase otimista, munido da idéia de que a economia
brasileira, graças à revolução nas contas
externas, passa por uma fase de ajuste estrutural que poderá
levar o país a um ciclo virtuoso de crescimento com baixa
inflação. Desde que mantidas as condições
externas favoráveis. Leitores atentos (até entre seus
adversários) viram sensatez no artigo em que expôs
essas idéias, além de um tremendo avanço nas
posições do ex-ministro principalmente quanto
à necessidade de elevar as importações, como
uma maneira de trazer concorrência a setores protegidos e
uma forma natural de conter a depreciação do dólar.
Os liberais da PUC-Rio assinariam embaixo. Apesar disso, num artigo
sobre os "vendedores de ilusão da América Latina",
Goldfajn afirmou que "a campanha ainda não esquentou e já
há alguns economistas diagnosticando que ocorreu uma mudança
profunda na economia brasileira que ninguém viu". Mendonça
ficou irritado. A desavença de ambos não é
nova, diga-se. Quando Ilan estava no BC, até 2003, era apontado
pela turma de Mendonção como o maior responsável
pela ortodoxia da política monetária. Era ele o pessimista
naquele ano.
A proposta do governo Lula de
isentar do imposto de renda o investimento dos estrangeiros em títulos
do Tesouro também parece dividir os tucanos. Com amplo apoio
entre os economistas mais liberais, ela visa a melhorar o perfil
da dívida pública. Isso porque os estrangeiros teriam
propensão a comprar papéis com vencimentos mais longos.
Os desenvolvimentistas não deram muita bola. A não
ser José Serra. Em visita a Washington para tratar de questões
relativas à cidade de São Paulo, o prefeito disse
que a proposta não faz sentido porque os brasileiros mandariam
dinheiro para fora e o reinvestiriam no país, sem pagar imposto.
A VEJA, o economista Edmar Bacha, que gosta da proposta, diz que
o problema apontado por Serra poderia ser facilmente solucionado
se a isenção tributária também valesse
para os brasileiros. Serra já havia se envolvido em outra
polêmica. O prefeito de São Paulo saiu em defesa de
um inescrutável projeto de "lei de responsabilidade cambial".
Ninguém entendeu o que Serra tinha em mente, já que
o câmbio não é mais fixo e, se há algum
problema, ele diz respeito à chuva de dólares na economia.
Serra depois esclareceu que usara apenas uma figura de retórica
e que, em sua opinião, o BC precisa se preocupar com a queda
excessiva do dólar porque isso afeta as exportações
da indústria nacional. Serra, aliás, não vê
com bons olhos a independência do BC, algo tido como básico
e imprescindível na ótica dos liberais da PUC do Rio.
Vaidade à parte
e nunca se deve menosprezar o fator vaidade em se tratando de economistas
e, em especial, tucanos , o que explicaria tantas brigas e
desavenças? A indefinição do candidato do partido
à Presidência é uma das explicações.
Como só existe um único pretendente declarado
o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin , os notáveis
tucanos fazem fila para entretê-lo com assuntos econômicos.
Nas últimas semanas, Alckmin, munido de um caderno de anotações,
como prevê o figurino do aluno esforçado, recebeu,
entre outros, Mendonça, Bacha e Armínio. Deixou uma
ótima impressão em cada um deles. O que mais alvoroça
os sábios do pensamento tucano é que, durante o mandato
do próximo governo, o Brasil terá grandes chances
de receber a chancela internacional de país estável
e seguro, o que o colocaria na roda do tão sonhado desenvolvimento,
com crescimento rápido e sem grandes pressões inflacionárias.
Seria como, depois do intermezzo dos quatro anos de Lula, receber
a coroação pelo projeto iniciado em 1994, com a criação
do real. Os principais economistas tucanos não escondem que
prefeririam voltar ao governo com Alckmin, dado seu estilo mais
pragmático e descentralizador. Os serristas, com uma boa
dose de razão, diriam que a principal qualidade de Alckmin
é o fato de ser mais influenciável e desconhecer economia
a fundo. Alckmin, é claro, traz no currículo um vigoroso
ajuste nas contas do estado proposta defendida por todos
os tucanos e que precisa ser executada com urgência na esfera
federal. Serra, por outro lado, é muito mais personalista
e reticente ao liberalismo, o que tornaria difícil aninhar
no governo expoentes da PUC-Rio. Mas essa é uma visão
parcial do prefeito de São Paulo. Além de defender
o corte de gastos com a mesma convicção de Alckmin,
ele é mais pragmático do que sugerem seus adversários.
Prova disso é sua admiração por Armínio
Fraga.
Após conversar com vários
deles nas últimas semanas, VEJA quis saber a profundidade
das controvérsias no âmago do pensamento econômico
do partido que tem chances reais de voltar ao governo em 2007. O
fato é que, deixando de lado maluquices extremas de ambas
as correntes, o embate é muito mais retórico e motivado
pela disputa eleitoral. Os mais ortodoxos apóiam quase incondicionalmente
a política monetária do governo Lula, mas dizem que
os juros poderiam ter caído mais em 2005. Os desenvolvimentistas
gostariam de derrubar os juros mais rapidamente, mas ninguém
defende a volta da inflação. Mesmo entre os mais ortodoxos,
diga-se, há um ou outro desacordo. Gustavo Franco, por exemplo,
colocou-se contra a proposta de liberalização cambial,
algo muito caro aos tucanos mais liberais.
Há quem veja nos debates
internos do PSDB o sintoma de uma virtude: ao contrário de
outros partidos, os tucanos pecam pelo excesso, e não pela
falta, de economistas de qualidade. Basta comparar esse time ao
de outros partidos. O PT confia tanto na capacidade de seus economistas
que escolheu acertadamente o médico Antonio Palocci para
chefiar o Ministério da Fazenda para um partido que
vinha se preparando havia duas décadas para assumir o poder,
é um caso triste de incompetência e fracasso. No PFL,
é difícil citar o nome de um único economista
de prestígio. No PMDB, o mais conhecido é Delfim Netto,
que está no partido por conveniência até
outro dia era da turma do PP de Paulo Maluf e andou prestando serviços
de consultoria ao governo Lula. Resta saber quais os jogadores que
o time do PSDB colocará em campo nas eleições
e numa eventual volta ao poder. O nome escolhido para concorrer
à Presidência dirá muito sobre isso. Por enquanto,
a turma de Lula comemora a confusão. Até lá,
os tucanos correm o risco logo eles, que inventaram o real
de presentear Lula em plena campanha com o título
de defensor do real.
|