Edição 1943 . 15 de fevereiro de 2006

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Economia e negócios
Por que os tucanos
não se bicam

À espera de um candidato,
economistas do PSDB se atacam
e lançam idéias conflitantes


Marcio Aith e Giuliano Guandalini

 
Montagem sobre ilustração de Baptista e fotos de Germano Luders, Daniel Pera/Ag. O Globo, Jamil Bittar/Reuters e Monica Monica Zaratini/AE

1. Mendonça, o trator da ala paulista, ataca o fundamentalismo da turma do Rio
2. Serra propôs a "lei de responsabilidade cambial". Criticado, disse que foi apenas uma figura retórica
3. Bresser-Pereira: seu plano para reduzir a dívida virou motivo de piada no tucanato
4. Armínio: avesso a brigas, disse que Bresser propõe o calote da dívida


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Faces do tucanato

É natural que as equipes dos pré-candidatos à Presidência da República duelem entre si pela hegemonia das melhores propostas. Afinal, o mais certo é que o guru econômico do candidato eleito venha a ser ministro da Fazenda ou presidente do Banco Central no novo governo. Portanto, o atual conflito que divide os economistas tucanos deve ser entendido nesse contexto. Mas há algo mais nessa briga que fascina. Isso deriva do fato de que nenhum partido político brasileiro tem tantos especialistas em economia quanto o PSDB – alguns filiados à legenda e outros apenas simpatizantes. A legenda lembra um centro de estudos econômicos avançados, e não é difícil entender por quê. Fernando Henrique Cardoso elegeu-se em 1994 devido ao sucesso e à engenhosidade do Plano Real. Para isso, atraiu os melhores e mais experientes tecnocratas disponíveis à época: André Lara Resende, Persio Arida, Gustavo Franco, Pedro Malan, Edmar Bacha e Winston Fritsch. Também deram pitacos na formulação do Real o atual prefeito de São Paulo, José Serra, e o economista José Roberto Mendonça de Barros.

Outras estrelas do partido mais tarde deram sua contribuição ao tucanato. Entre elas Armínio Fraga, presidente do Banco Central de 1999 a 2002, e Luiz Carlos Mendonça de Barros, que chefiou o BNDES e o Ministério das Comunicações. Com tantos especialistas e a experiência do Real na bagagem – alguns ainda calejados pela fracassada experiência do Plano Cruzado –, seria razoável supor que o partido já soubesse fugir de terreno minado e criar ao menos as linhas básicas de seu projeto econômico. Não é o que se vê. Os tucanos estão divididos quando o assunto é economia, trocam farpas inúteis entre si e, em alguns casos, lançam propostas intervencionistas que podem dar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva a chance de concorrer à reeleição como o "fiador da estabilidade".

Está em curso de novo o embate histórico entre o grupo dos chamados "desenvolvimentistas", de perfil mais intervencionista – no qual se alinha a ala paulista, de Serra e dos irmãos Mendonça de Barros –, e o dos "liberais ortodoxos" – o pessoal da PUC do Rio de Janeiro, de Malan e Armínio. Mas, mesmo dentro de cada um desses blocos, as divergências andam acima do tom. Tome-se o caso da proposta de redução da taxa de juro que tem sido defendida pelo economista da Fundação Getulio Vargas (FGV) e ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser-Pereira, da velha guarda do PSDB– e obsoleto, diriam os tucanos mais maldosos. Bresser-Pereira defendeu a troca dos atuais títulos do Tesouro por papéis que rendam menos de 10%. Como ficou a impressão de que essa troca seria compulsória, a idéia de Bresser foi rechaçada em uníssono – nem seus aliados naturais o apoiaram. Os cariocas não pensaram duas vezes. "Interpretei como calote", reagiu Armínio. Bresser subiu nas tamancas e respondeu: "O senhor Armínio Fraga foi um bom presidente do Banco Central enquanto baixou a taxa de juro, mas parece que partilha do vício dos adeptos da ortodoxia convencional de considerar todas as alternativas às suas políticas demonstração de populismo ou de irresponsabilidade".

 
Ricardo Stuckert

FHC na festa de três anos do Real: quando estão unidos, tucanos têm idéias valiosas

Outros tucanos que andaram medindo diferenças foram Ilan Goldfajn, diretor do BC na gestão Armínio Fraga e professor da PUC-RJ, e Luiz Carlos Mendonça de Barros. Tradicionalmente pessimista quanto aos prognósticos econômicos, Mendonça ingressou numa fase otimista, munido da idéia de que a economia brasileira, graças à revolução nas contas externas, passa por uma fase de ajuste estrutural que poderá levar o país a um ciclo virtuoso de crescimento com baixa inflação. Desde que mantidas as condições externas favoráveis. Leitores atentos (até entre seus adversários) viram sensatez no artigo em que expôs essas idéias, além de um tremendo avanço nas posições do ex-ministro – principalmente quanto à necessidade de elevar as importações, como uma maneira de trazer concorrência a setores protegidos e uma forma natural de conter a depreciação do dólar. Os liberais da PUC-Rio assinariam embaixo. Apesar disso, num artigo sobre os "vendedores de ilusão da América Latina", Goldfajn afirmou que "a campanha ainda não esquentou e já há alguns economistas diagnosticando que ocorreu uma mudança profunda na economia brasileira que ninguém viu". Mendonça ficou irritado. A desavença de ambos não é nova, diga-se. Quando Ilan estava no BC, até 2003, era apontado pela turma de Mendonção como o maior responsável pela ortodoxia da política monetária. Era ele o pessimista naquele ano.

A proposta do governo Lula de isentar do imposto de renda o investimento dos estrangeiros em títulos do Tesouro também parece dividir os tucanos. Com amplo apoio entre os economistas mais liberais, ela visa a melhorar o perfil da dívida pública. Isso porque os estrangeiros teriam propensão a comprar papéis com vencimentos mais longos. Os desenvolvimentistas não deram muita bola. A não ser José Serra. Em visita a Washington para tratar de questões relativas à cidade de São Paulo, o prefeito disse que a proposta não faz sentido porque os brasileiros mandariam dinheiro para fora e o reinvestiriam no país, sem pagar imposto. A VEJA, o economista Edmar Bacha, que gosta da proposta, diz que o problema apontado por Serra poderia ser facilmente solucionado se a isenção tributária também valesse para os brasileiros. Serra já havia se envolvido em outra polêmica. O prefeito de São Paulo saiu em defesa de um inescrutável projeto de "lei de responsabilidade cambial". Ninguém entendeu o que Serra tinha em mente, já que o câmbio não é mais fixo e, se há algum problema, ele diz respeito à chuva de dólares na economia. Serra depois esclareceu que usara apenas uma figura de retórica e que, em sua opinião, o BC precisa se preocupar com a queda excessiva do dólar porque isso afeta as exportações da indústria nacional. Serra, aliás, não vê com bons olhos a independência do BC, algo tido como básico e imprescindível na ótica dos liberais da PUC do Rio.

Vaidade à parte – e nunca se deve menosprezar o fator vaidade em se tratando de economistas e, em especial, tucanos –, o que explicaria tantas brigas e desavenças? A indefinição do candidato do partido à Presidência é uma das explicações. Como só existe um único pretendente declarado – o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin –, os notáveis tucanos fazem fila para entretê-lo com assuntos econômicos. Nas últimas semanas, Alckmin, munido de um caderno de anotações, como prevê o figurino do aluno esforçado, recebeu, entre outros, Mendonça, Bacha e Armínio. Deixou uma ótima impressão em cada um deles. O que mais alvoroça os sábios do pensamento tucano é que, durante o mandato do próximo governo, o Brasil terá grandes chances de receber a chancela internacional de país estável e seguro, o que o colocaria na roda do tão sonhado desenvolvimento, com crescimento rápido e sem grandes pressões inflacionárias. Seria como, depois do intermezzo dos quatro anos de Lula, receber a coroação pelo projeto iniciado em 1994, com a criação do real. Os principais economistas tucanos não escondem que prefeririam voltar ao governo com Alckmin, dado seu estilo mais pragmático e descentralizador. Os serristas, com uma boa dose de razão, diriam que a principal qualidade de Alckmin é o fato de ser mais influenciável e desconhecer economia a fundo. Alckmin, é claro, traz no currículo um vigoroso ajuste nas contas do estado – proposta defendida por todos os tucanos e que precisa ser executada com urgência na esfera federal. Serra, por outro lado, é muito mais personalista e reticente ao liberalismo, o que tornaria difícil aninhar no governo expoentes da PUC-Rio. Mas essa é uma visão parcial do prefeito de São Paulo. Além de defender o corte de gastos com a mesma convicção de Alckmin, ele é mais pragmático do que sugerem seus adversários. Prova disso é sua admiração por Armínio Fraga.

Após conversar com vários deles nas últimas semanas, VEJA quis saber a profundidade das controvérsias no âmago do pensamento econômico do partido que tem chances reais de voltar ao governo em 2007. O fato é que, deixando de lado maluquices extremas de ambas as correntes, o embate é muito mais retórico e motivado pela disputa eleitoral. Os mais ortodoxos apóiam quase incondicionalmente a política monetária do governo Lula, mas dizem que os juros poderiam ter caído mais em 2005. Os desenvolvimentistas gostariam de derrubar os juros mais rapidamente, mas ninguém defende a volta da inflação. Mesmo entre os mais ortodoxos, diga-se, há um ou outro desacordo. Gustavo Franco, por exemplo, colocou-se contra a proposta de liberalização cambial, algo muito caro aos tucanos mais liberais.

Há quem veja nos debates internos do PSDB o sintoma de uma virtude: ao contrário de outros partidos, os tucanos pecam pelo excesso, e não pela falta, de economistas de qualidade. Basta comparar esse time ao de outros partidos. O PT confia tanto na capacidade de seus economistas que escolheu acertadamente o médico Antonio Palocci para chefiar o Ministério da Fazenda – para um partido que vinha se preparando havia duas décadas para assumir o poder, é um caso triste de incompetência e fracasso. No PFL, é difícil citar o nome de um único economista de prestígio. No PMDB, o mais conhecido é Delfim Netto, que está no partido por conveniência – até outro dia era da turma do PP de Paulo Maluf e andou prestando serviços de consultoria ao governo Lula. Resta saber quais os jogadores que o time do PSDB colocará em campo nas eleições e numa eventual volta ao poder. O nome escolhido para concorrer à Presidência dirá muito sobre isso. Por enquanto, a turma de Lula comemora a confusão. Até lá, os tucanos correm o risco – logo eles, que inventaram o real – de presentear Lula em plena campanha com o título de defensor do real.

 
 
 
 
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