Edição 1943 . 15 de fevereiro de 2006

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Um espião da velha-guarda

O ex-agente Bob Baer, que
inspirou o filme Syriana, diz
que a CIA não aprendeu a
falar a língua dos terroristas


Isabela Boscov

 
Fotos divulgação
Baer hoje, na Palestina, e em sua encarnação ficcional, na pele de Clooney: "Os tambores de guerra continuam a tocar"

Robert Baer, um dos mais experientes espiões que a CIA já teve no Oriente Médio, acha que a inteligência americana está em escombros, e que é mais do que possível que surpresas trágicas como os atentados do 11 de Setembro e os bombardeios em Londres e Madri voltem a ocorrer. Os tambores de guerra continuam tocando, afirma Baer, mas não há ninguém para interpretar o que eles dizem – ninguém como ele, um agente da velha-guarda habituado ao trabalho de campo, com fontes em todo tipo de facção do mundo islâmico e que não hesite, quando a ocasião exige, em sujar um pouco (ou mais do que um pouco) as mãos. Baer é o modelo sobre o qual foi calcado o personagem de George Clooney em Syriana, e é também a principal fonte do filme, em cartaz no Brasil. Funcionário da CIA de 1976 a 1997, ele deixou a agência com as relações severamente estremecidas. Vale, então, aventar a hipótese de que suas opiniões estejam contaminadas pelo ressentimento de quem dedicou duas décadas a uma causa e a um estilo de vida para então perder ambos. Mas vale também a pena ouvir com atenção o que Baer tem a dizer, pelo simples fato de que realmente existem poucas pessoas, hoje, tão íntimas do tema quanto ele. "O que uma imagem de satélite pode dizer sobre o que se passa na cabeça de um terrorista da Al Qaeda?", disse a VEJA o ex-espião (que, ao contrário da maioria esmagadora de seus colegas, é fluente em árabe e farsi).

Baer fala pelos cotovelos sobre as atividades da CIA, sobre como o lobby do petróleo lava dinheiro para financiar campanhas, ou como as grandes corporações vez por outra apertam o gatilho de um míssil Hellfire. Sobre Syriana, ele diz que é sua chance de mostrar coisas que nunca poderia dizer aos jornais. "É um filme, e portanto é tudo ficção", diz ele, para logo emendar: "Mas alguma vez uma firma de advocacia conspirou para assassinar um príncipe do Golfo Pérsico, como em Syriana? Sim".

Baer não era arraia-miúda. No início de 1995, por exemplo, foi encarregado de contatar oficiais iraquianos revoltosos e, junto com eles, elaborar um plano para livrar – entenda-se aí o que for necessário – o Iraque de Saddam Hussein. Em 1° de março, ele recebeu uma contra-ordem: recuar. Com uma canetada, os agentes de Baer no Iraque perderam a cobertura da CIA, foram expostos e, na maioria, assassinados. Baer conseguiu retornar aos Estados Unidos – mas não a salvo. Descobriu que estava sendo usado para isentar a CIA de envolvimento numa conspiração contra um chefe de Estado. Se condenado, pegaria prisão perpétua ou seria executado. Esse pesadelo, de se ver no papel de bode expiatório, está retratado com considerável fidelidade em Syriana.

Baer pertence a uma geração de agentes da CIA formada durante a Guerra Fria, quando a agência tinha rédea solta. Com a derrocada do socialismo, a CIA entrou em crise de identidade: como ficaria a dinâmica da agência que tinha no bloco soviético sua maior razão de existir? A crise foi agravada pela posição do presidente Bill Clinton diante dela – ora de indiferença, ora de instauração de uma mentalidade corporativa e politicamente correta. Hoje, no mundo pós-11 de setembro, a CIA passa por uma reconfiguração, sob a mão-de-ferro de Donald Rumsfeld, secretário de Defesa do governo Bush, que poda a autonomia da agência. De novo, os analistas acham que falta o básico: gente de olhos e ouvidos abertos.

De dentro do barril de pólvora do Oriente Médio, Baer executou operações como a que tentaria tirar a vida de Hussein, tomou decisões que ele não descreve, mas que diz que resultaram na morte de "dezenas, se não centenas" de pessoas, e cumpriu incontáveis vezes a tarefa principal de um espião: aliciar informantes, sejam eles militares, funcionários do governo, empresários, ativistas ou terroristas. É a partir dessas pessoas que corre o fluxo fragmentado, mas indispensável, da informação. Segundo Baer, porém, hoje a CIA é uma organização apática, que minimiza a relevância do trabalho de campo e deposita confiança exagerada na tecnologia.

Baer hoje se anuncia como diretor de documentários e acaba de concluir uma filmagem sobre terroristas suicidas na Faixa de Gaza. Mas, segundo Stephen Gaghan, o diretor e roteirista de Syriana, conviver com ele é uma experiência surreal. "Bob chega, digamos, a Beirute e liga para o número pessoal de um chefe de Estado, do presidente de uma petrolífera ou do líder de uma organização clandestina. No dia seguinte, ele está lá, almoçando ou andando de barco com eles, na maior intimidade. Daí ele sai em férias, mas não vai para a praia. Vai para Teerã ou para o Barein. Se um sujeito parece um espião, age como um espião e fala como um espião, ei – então talvez ele ainda seja um espião", arrisca Gaghan. Seria uma explicação plausível para o fato de Baer ainda estar vivo ou, no mínimo, de posse de suas cordas vocais – um fato que, na conversa com VEJA, ele atribuiu à "sorte".

Sempre metido nos lugares mais poeirentos e voláteis do planeta, Baer não teve a vida glamourosa de um James Bond. Teve, isso sim, uma vida bem mais arriscada e exaustiva (e também viciante). Seu primeiro casamento fracassou, e seus três filhos cresceram quase sem vê-lo. Ele afirma, porém, não ter arrependimentos. "Pode soar ingênuo, mas acredito que eu estava cumprindo meu dever patriótico. Nunca tomei uma decisão imoral ou que não tivesse o respaldo de 500 páginas de legislação. Nunca participei de torturas nem matei inocentes." Baer jura, inclusive, que nunca perdeu uma noite de sono, e seus ex-colegas contaram a mesma história a Stephen Gaghan. "Eles diziam que Bob é capaz de estrangular um sujeito com as próprias mãos de dia e, de noite, dormir como se nada tivesse acontecido. Mas, se você olhar bem para ele, a impressão é outra: é de que ele não dorme há anos."

 
 
 
 
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