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Vida digital
O universo iPod
O aparelho que revolucionou o
hábito de ouvir música é vendido
ao ritmo de um por segundo e
já tem 2 000 acessórios

Okky de Souza
Fotos divulgação
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| Mochila H2, da O'Neill: painéis solares
para carregar o iPod enquanto se passeia |
Bolsa da Lifepod: alto-falantes para reproduzir
a música |
A indústria de jeans americana Levi's
anunciou há semanas o lançamento de uma calça,
batizada de RedWire DLX. De especial, a calça já vem
com um controle remoto costurado na cintura. Por meio dele, pode-se
ajustar o volume e selecionar músicas do iPod, o tocador
de MP3 da Apple. A aliança com a Levi's é apenas mais
uma das incrivelmente bem-sucedidas apostas do fabricante do iPod.
Há hoje nada menos que 2.000 acessórios feitos especialmente
para ser usados com o tocador. Há seis meses, eram 1.000.
Eles incluem desde bolsas com alto-falantes, que se transformam
em aparelhos de som, até mochilas com painéis de energia
solar, que carregam a bateria do iPod enquanto seu dono passeia
pelas ruas nos dias de céu azul. Nos Estados Unidos, 40%
dos carros novos saem de fábrica prontos para, numa ironia
da Apple, "ser plugados a um iPod". Neste ano, o mercado de acessórios
para iPod deve ultrapassar a marca de 1 bilhão de dólares.
A Apple já vendeu 42 milhões de iPods. No ano passado,
os aparelhinhos foram vendidos ao ritmo de um a cada segundo.
O êxito do mimo eletrônico
é superlativo não apenas pelas cifras que envolve,
mas também pelas mudanças que provocou no hábito
de ouvir música. Enquanto seus primos mais velhos, o discman
e o walkman, limitavam a audição ao repertório
de um CD ou de uma fita cassete, o iPod armazena 15.000 músicas.
Isso significa carregar no bolso uma coleção de CDs
que em casa ocupa uma estante inteira. Dependendo do modelo, também
se podem guardar no aparelho 25.000 fotografias e 150 horas de vídeo.
Ligado a caixas acústicas, ele substitui os volumosos aparelhos
de som convencionais. Não é à toa que todo
mundo hoje parece desejar um iPod. Essa característica o
coloca numa categoria especial do mundo da tecnologia: a dos aparelhos
inventados não para atender a uma demanda dos consumidores,
mas para criar uma demanda inteiramente nova entre eles. Enquanto
outras empresas gastam rios de dinheiro tentando saber o que o consumidor
deseja, a Apple concentra suas energias em idealizar produtos que
despertam nos consumidores não apenas o desejo mas a necessidade
de ter um. Com essa estratégia, a fabricante de computadores
está se reinventando como uma empresa líder do entretenimento
digital doméstico.
Nesse
sentido, o iPod se alinha na história da tecnologia com invenções
como a televisão, o computador pessoal e o telefone celular.
Ninguém sentia falta desses aparelhos antes de sua invenção.
Depois de criados, alteraram de tal forma o dia-a-dia de todo mundo
que se tornou quase impossível viver sem eles.
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| Jaqueta da Kenpo: o tocador fica no bolso
e os controles, na manga |
Cinto da TuneBuckle: fivela sob medida para
carregar o modelo Nano |
"A
forma mais óbvia de criar um negócio é descobrir
uma necessidade do público e satisfazê-la. Outra coisa
bem diferente é inventar um produto totalmente novo, inesperado
e produzi-lo em escala industrial. Isso é para poucos. É
para pessoas muito ousadas e criativas", disse a VEJA o cientista
da computação Alan Kay, professor do Massachusetts
Institute of Technology (MIT). A definição de Kay
se encaixa como uma luva no criador do iPod, Steve Jobs, fundador
e presidente da Apple. A inventividade e o senso de oportunidade
de Jobs o tornaram o grande responsável pela popularização
das tecnologias digitais. Em 1977, sua empresa criou o primeiro
computador pessoal vendido em larga escala, o Apple II. O Macintosh,
lançado em 1984, foi o primeiro computador a usar interface
gráfica, depois imitado pela Microsoft no sistema Windows.
Como dono dos estúdios de cinema Pixar, ele revolucionou
os desenhos animados digitais em títulos como Toy Story
e Procurando Nemo depois deles, a Academia de Hollywood
resolveu criar o Oscar de melhor desenho animado.
O
iPod foi, de longe, o grande produto idealizado por Jobs nos últimos
tempos. O empresário pegou a onda da música digital,
que ameaçava ficar nas mãos dos piratas da internet,
e a transformou em um negócio novo. Sua primeira investida
foi equipar todos os modelos de computador Macintosh com um gravador
de CDs e um sistema de gerenciamento de músicas, o iTunes.
Depois, Jobs intuiu que o público adoraria ouvir suas músicas
não apenas no computador, mas também em aparelhos
portáteis. Daí nasceu o iPod. A seguir, ele convenceu-se
de que as pessoas topariam pagar por músicas baixadas digitalmente.
Jobs apostou na idéia de que a maior atração
de baixar músicas pela internet estava na comodidade e na
qualidade inalterada dos arquivos e não no fato de
que era possível obtê-las de graça.
Com base nessa convicção,
ele fechou um acordo com as gravadoras de discos e criou a iTunes
Store, loja virtual que vende cada música a menos de 1 dólar.
A Apple esperava vender 1 milhão de faixas musicais nos primeiros
seis meses de operação da iTunes Store. A cifra foi
alcançada em seis dias. Ainda neste mês a empresa deve
anunciar a venda da música número 1 bilhão.
Estava fechado o círculo virtuoso que transformou o iPod
num enorme sucesso comercial e tecnológico. Jobs conseguiu
criar o que o historiador americano Daniel Boorstin chamou de comunidade
unida pelo consumo. "Os grandes inovadores, como Jobs, não
olham para o futuro. Eles prestam atenção nas transformações
que estão acontecendo na sociedade agora e que ninguém
foi capaz de perceber", disse a VEJA Gary Hamel, professor de estratégia
e administração internacional da London Business School.
E como Jobs se tornou um empreendedor
tão inventivo? Certamente com muito talento e determinação,
mas ele também foi favorecido pela cultura em que se movimenta.
A criatividade, porém, só floresce em economias que
promovem a circulação de idéias e estimulam
os investimentos de risco. A criatividade é fruto de espíritos
empreendedores, atuando em ambientes que favorecem a inovação.
Nesses ambientes os fracassos são apenas degraus rumo ao
sucesso. Muitas vezes idéias aparentemente brilhantes se
revelam um fiasco. A própria Apple investiu uma fortuna num
modelo de palmtop, o Newton, que encalhou nas lojas e quase levou
sua empresa à falência. No caso do iPod, todos os fatores
trabalharam a favor de seu sucesso, principalmente o momento em
que ele foi lançado, criando uma nova necessidade para os
jovens. Em seu livro Como a Tecnologia Reinventa a Humanidade,
Edward Tenner, professor do Smithsonian Institute, de Washington,
comenta que os clipes de papel poderiam ter sido criados no século
XVIII, pois já havia tecnologia para isso , mas, provavelmente,
a novidade teria sido um fracasso. Inventados quando montanhas de
papel começaram a se acumular nos escritórios, no
fim do século seguinte, os clipes imediatamente se tornaram
indispensáveis.
Com reportagem de Rosana
Zakabi, Tiago Cordeiro e Rafael Corrêa
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