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Especial A
saúde está na mesa Um novo
estudo questiona os benefícios da dieta na prevenção
de doenças como o câncer. Mas ele é cheio de falhas. Acredite:
há alimentos que podem, sim, ajudá-lo a ter uma vida mais saudável
 Paula
Neiva Otavio
Dias de Oliveira
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Na semana passada,
foi publicado pela Associação Médica Americana o maior estudo
já realizado no mundo para avaliar o papel da dieta pobre em gorduras na
prevenção de doenças cardíacas e câncer. O resultado
surpreendeu porque está na contramão de todas as evidências
recolhidas até hoje sobre a influência dos alimentos na manutenção
da saúde. Segundo seus autores, comer pouco e se fiar em refeições
escassas em gorduras e ricas em grãos, frutas, verduras e legumes não
garante a redução dos riscos de distúrbios cardiovasculares
e tumores colorretais e de mama. O trabalho, que consumiu 415 milhões de
dólares dos cofres do governo americano, faz parte de uma pesquisa mais
ampla, a Women's Health Initiative. Ele acompanhou, desde meados da década
de 90, cerca de 50.000 mulheres, entre 50 e 79 anos, na pós-menopausa.
As voluntárias foram divididas em dois grupos e, ao longo de oito anos,
um deles modificou o cardápio e o outro manteve os hábitos alimentares
anteriores. De acordo com os pesquisadores, a diferença entre o número
de problemas registrados nos dois grupos foi insignificante (veja
quadro). Eles explicam que, apesar de o número de mulheres
doentes entre as que fizeram dieta ter sido menor, a diferença revelou-se
pequena demais para garantir que o mesmo cenário se repetiria em nível
populacional. Isso fez com que o estudo chamasse a atenção de todas
as pessoas que seguem a cartilha dos médicos e nutricionistas, segundo
a qual é possível prevenir doenças pelo que se coloca no
prato. Apesar do alvoroço e da grande base de dados do trabalho, o estudo
está longe de ser conclusivo. "A metodologia apresenta muitas falhas que
podem ter influenciado negativamente os resultados", diz o cardiologista Raul
Santos, diretor da unidade de clínica de lípides, do Instituto do
Coração, de São Paulo. Curiosamente, esse mesmo estudo levantou,
há cerca de quatro anos, uma forte polêmica ao questionar os benefícios
da reposição hormonal para a saúde do coração
feminino. As conclusões dele, também nesse caso, não foram
reafirmadas por outras pesquisas.
Os especialistas que questionam a validade dos dados divulgados agora acreditam
que o tempo de estudo oito anos é insuficiente para descartar
possíveis benefícios da dieta a longo prazo. Outro ponto duvidoso
é expandir para a população como um todo os dados obtidos
por meio da análise restrita a mulheres com idade acima de 50 anos e na
pós-menopausa. Além disso, os pesquisadores recomendaram a redução
do consumo total de gorduras e não diferenciaram, na análise, os
subtipos de gordura presentes na dieta. Sabe-se que as gorduras saturadas e trans
são extremamente danosas à saúde e aumentam os riscos de
infarto, derrame e diabetes, mas gorduras poliinsaturadas protegem as artérias
e possuem ação antioxidante, o que reduz os riscos de formação
de tumores malignos. Há ainda outro problema: o desenho inicial do estudo
previa uma diminuição de 20% no consumo de gorduras, mas as pacientes
não conseguiram atingir a meta. No primeiro ano, a redução
foi de apenas 10,7%. No sexto ano de acompanhamento, a taxa foi ainda menor: 8%.
"Todas essas considerações mostram que o estudo é falho",
afirma a oncologista Nise Yamaguchi, pesquisadora da Universidade de São
Paulo. Embora a nutrição
seja um dos ramos mais especulativos da medicina, a influência dos alimentos
sobre a saúde é um tema recorrente na literatura médica há
séculos. O artigo mais antigo a esse respeito de que se tem notícia
foi escrito 2.600 anos antes de Cristo. Ele relaciona o ritmo elevado e forte
dos batimentos cardíacos com a ingestão exagerada de alimentos temperados
com sal marinho. No século XVIII, foi publicado o estudo considerado o
clássico dos clássicos da literatura médica sobre o tema,
em que o médico escocês James Lind discorre sobre a relação
entre o escorbuto e o consumo de limão. Depois que foi demonstrado que
os marinheiros que ingeriam a fruta, rica em vitamina C, não tinham escorbuto,
as frutas cítricas tornaram-se obrigatórias no cardápio da
Marinha britânica. No século XX, proliferaram estudos científicos
de peso sobre o cardápio nosso de cada dia. Na década de 70, o Estudo
dos Sete Países, coordenado por pesquisadores da Universidade de Minnesota,
nos Estados Unidos, mostrou, pela primeira vez, que existem gorduras saudáveis
e outras nocivas ao organismo. Ao longo de doze anos, a equipe analisou a dieta
e o tecido adiposo de europeus, americanos e japoneses. Os resultados indicaram
que, nas regiões onde é grande a ingestão de gorduras saturadas,
houve maior acúmulo de adiposidade nas artérias e, conseqüentemente,
aumentou a incidência de doenças cardíacas. No fim da década
de 80, foi identificado um tipo de gordura diferente, a trans. Os estudos sobre
ela se multiplicaram e, cerca de dez anos depois, descobriu-se finalmente que
a trans é o tipo mais perigoso de gordura, pois eleva o colesterol ruim,
o LDL, e diminui o bom, o HDL. Com a sua ingestão, aumentam consideravelmente
os riscos de infartos, derrames, diabetes e outras doenças. Em 2000, a
FDA, a agência do governo americano que controla alimentos e remédios
naquele país, incluiu a gordura trans na lista dos alimentos a ser consumidos
com moderação. E o cerco a ela se aperta. Há três anos,
a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou
que, até o mês de julho deste ano, todos os rótulos de produtos
industrializados vendidos no Brasil informem a quantidade de gordura trans em
sua composição. Nos
últimos dez anos, dezenas de pesquisas sobre dieta e alimentação
foram realizadas por grandes universidades e centros de saúde dos Estados
Unidos e da Europa e outras tantas ainda estão em andamento. Nesse período,
houve grandes descobertas e constatações importantes, como as de
um estudo publicado no mês passado por pesquisadores da Universidade de
Londres. Os ingleses revisaram dados de cerca de 300.000 pessoas, em vários
países, e chegaram à conclusão de que comer mais frutas,
verduras e legumes diminui o risco de derrame cerebral em até 26%. Outra
pesquisa abrangente, divulgada no ano passado pelo Instituto Nacional do Câncer
dos Estados Unidos, que acompanhou 500.000 pessoas de dez países europeus
e avaliou a influência do consumo de carnes na incidência do câncer
colorretal, concluiu que o consumo diário de mais de 160 gramas de carne
vermelha aumenta em 35% o risco de desenvolver o câncer e a ingestão
de no mínimo 80 gramas de peixe por dia está relacionada à
redução do risco desse tipo de tumor em 30%.
Existe uma profusão de constatações a respeito de como a
chave da saúde está na mesa. Há dois anos, médicos
de Harvard reviram as principais pesquisas sobre dieta e saúde feitas na
década anterior. Eles atribuíram a uma alimentação
equilibrada a capacidade de prevenir 25% de todos os tipos de câncer. Se
a dieta for combinada com exercícios físicos, os efeitos serão
ainda melhores. Ela pode evitar até nove de cada dez casos de diabetes
tipo 2 e reduzir o risco de doenças cardíacas em 90%. "Sabe-se há
vários anos que certos tipos de alimentos são saudáveis,
especialmente frutas, verduras, legumes e grãos", diz o relatório.
A diferença é que na última década se descobriu por
que isso acontece. Hoje, os cientistas podem apontar os nutrientes específicos
e outras substâncias contidas nos alimentos que combatem doenças,
incluindo vitaminas e minerais. O tomate, por exemplo, é rico em licopeno,
um pigmento que, além de dar cor ao fruto, auxilia na prevenção
do câncer de próstata. Os benefícios da substância são
ainda maiores se o tomate for cozido e acompanhado de um fiozinho de azeite, o
que melhora sua absorção. Outra revelação foi que
peixes de águas profundas e geladas, como salmão, bacalhau, sardinha
e atum, contêm uma gordura ótima para a saúde, o ômega-3.
Ela ajuda a diminuir a possibilidade de formação de coágulos
nas artérias. Uma série de estudos recentes mostra que a gordura
também reduz dores de artrite, melhora a depressão e protege o cérebro
contra doenças, entre elas o Alzheimer.
Apesar do enorme volume de informações, existem muitos pontos obscuros
a respeito da relação entre alimentação e saúde.
"Na verdade, essa é uma área em que ainda há mais perguntas
do que conclusões", diz o endocrinologista Ricardo Botticini Peres, de
São Paulo. Por isso mesmo, alguns alimentos ora são considerados
benéficos, ora maléficos. Nada ilustra melhor esse vaivém
científico que as considerações sobre o café e seu
principal componente, a cafeína. Na década de 50, a FDA considerou
a cafeína boa para o consumo. Em 1978, a mesma agência colocou em
dúvida a segurança da substância. Em 1988, pesquisadores americanos
afirmaram que o consumo de duas xícaras de café por dia poderia
levar à redução da fertilidade feminina. Menos de uma década
depois, outro estudo americano descartou essa hipótese. E, finalmente,
no ano passado, uma pesquisa de peso, coordenada pelos Institutos Nacionais de
Saúde, nos Estados Unidos, concluiu que consumir café sem cafeína
pode aumentar os riscos de doenças do coração. O mesmo ocorreu
com o chocolate. Antigo vilão das dietas saudáveis (por conter alto
teor de gordura e açúcar), ele foi inocentado por estudos que apontam
os benefícios da guloseima para a memória e para o combate ao colesterol
alto. A partir das pesquisas sobre
o impacto da dieta sobre a saúde, foram montadas cartilhas da boa alimentação,
pirâmides alimentares e guias que orientam portadores de determinados problemas
de saúde, como o diabetes tipo 2, doença que afeta cerca de 170
milhões de pessoas no mundo. Nesse caso, especificamente, a dieta desempenha
um papel fundamental, como mostrou um amplo levantamento de Harvard, realizado
há cerca de um ano. O guia da alimentação saudável
para diabéticos ou pessoas com propensão a desenvolver a doença
foi elaborado pela universidade com base em evidências científicas
inquestionáveis. São 48 páginas com explicações
minuciosas sobre o efeito dos alimentos no controle da doença e até
receitas específicas para esse grupo. Todas requerem o controle rigoroso
do consumo de carboidratos, como batata e arroz, e de sal.
As primeiras cartilhas alimentares surgiram na década de 70, como instrumentos
de orientação do grande público. Eram esquemas relativamente
toscos, que classificavam os alimentos segundo sua função
construtores, energéticos e reguladores. O primeiro guia em forma de pirâmide
surgiu em 1992, criado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Em
linhas gerais, essa pirâmide propunha o corte das gorduras e era extremamente
liberal no consumo de carboidratos. Passados dez anos, a Universidade Harvard
apresentou uma nova versão da pirâmide, que incluía exercícios
físicos e na qual o corte radical das gorduras e a ingestão indiscriminada
de carboidratos não apareciam mais como garantia de saúde. O novo
desenho recomendava a ingestão de carboidratos ricos em fibras, como pães
e grãos integrais, e de gorduras insaturadas. No ano passado, a pirâmide
alimentar ganhou outra versão do Departamento de Agricultura americano.
Foram incorporadas modificações como o aumento das porções
de frutas, hortaliças e de grãos integrais e a redução
da quantidade de gordura saturada. Seu visual também é diferente.
Suas faixas não são horizontais, mas verticais o que significa
que não se deve deixar de comer nada. Essa é a primeira pirâmide
que permite ao usuário calcular uma dieta personalizada, levando em conta
seu estilo de vida, pela internet (www.mypyramid.gov).
Ajuda extra
Combinada a medicamentos, uma dieta correta ajuda (e muito) no tratamento de doenças
crônicas ou de determinadas condições clínicas que
podem levar ao desenvolvimento de um distúrbio. Alguns exemplos:
• COLESTEROL As estatinas em doses
médias podem reduzir o colesterol ruim, o LDL, em até 40%.
Mas, se acompanhadas de uma dieta rica em vegetais, frutas, grãos
integrais, óleos vegetais e azeite de oliva e pobre em carnes, leite integral
e gorduras trans, o colesterol pode baixar em até 50%
• HIPERTENSÃO
Usados isoladamente, os anti-hipertensivos
da classe dos bloqueadores de cálcio reduzem a pressão arterial
máxima em 17 milímetros de mercúrio e a mínima,
em 12. Ou seja, uma pessoa que tem pressão 15 por 9 passa
a ter pressão 13 por 7. Se o medicamento for associado a uma dieta
que contenha frutas, vegetais, alimentos integrais, leite desnatado, nozes, carnes
brancas e seja restritiva a alimentos salgados e com excesso de gorduras saturadas,
o mesmo paciente pode ter sua pressão reduzida para 12 por 7
• OSTEOPOROSE O medicamento de referência,
da classe dos alendronatos, só faz efeito quando há cálcio
circulante no sangue. Associado a uma dieta pobre dessa substância, ele
é capaz de recuperar apenas 1,5% da massa óssea. Mas, em
combinação com uma dieta rica em leite e derivados, e restritiva
a álcool e café, o remédio pode levar a um ganho de massa
óssea de até 5%
• PRÉ-DIABETES Quando administrado
isoladamente, o remédio metformina diminui em cerca de 30% a possibilidade
de um pré-diabético vir a desenvolver diabetes do tipo 2. Esse efeito
dobra quando o remédio está associado a uma dieta que inclua grande
quantidade de legumes e verduras e seja restritiva a açúcares e
carboidratos contidos na farinha branca e na batata Fontes:
Raul Santos, cardiologista, Eduardo Zlotnik, ginecologista, e Ricardo
Peres, endocrinologista | |
Vitória sobre o câncer Um
relatório que acaba de ser divulgado pela Sociedade Americana de Câncer
mostrou que o número de mortes em decorrência de tumores malignos
nos Estados Unidos em 2003 foi menor do que em 2002. Em números absolutos,
a redução foi pequena: 369 pessoas deixaram de morrer. Ainda assim,
trata-se de um marco na história da saúde pública americana,
pois nunca havia sido registrada uma queda no total de mortes por câncer
no país. O trabalho traça um cenário ainda mais animador
para este ano. A projeção é de que 5 450 vidas sejam poupadas
em relação ao ano passado. "Essa redução confirma
que os avanços na prevenção, diagnóstico precoce e
tratamento surtem resultados", diz o cirurgião oncológico Benedito
Mauro Rossi, do Hospital do Câncer A.C. Camargo, em São Paulo. Dentre
as principais medidas preventivas estão o controle do tabagismo, a adoção
de uma dieta saudável e a prática de exercícios físicos.
Um dos dados que confirmam a importância da prevenção é
que os casos de câncer caíram proporcionalmente à redução
do número de fumantes. No Brasil, 130 000 pessoas morrem por ano vítimas
de câncer. Não há perspectiva de que a mortalidade causada
pela doença venha a cair nos próximos anos. | |
Com reportagem
de Giuliana Bergamo, Rosana Zakabi e
Thereza Venturoli |