Edição 1943 . 15 de fevereiro de 2006

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Internacional
O ano dos presidentes

Uma dezena de países da América Latina
vai escolher seus governantes. Em vários
deles, o favorito é um populista ao estilo
de Hugo Chávez


Ruth Costas

 

Eleitores tentam forçar a entrada em posto de votação em Porto Príncipe, no Haiti: uma crise sem luz no fim do túnel


NESTA REPORTAGEM
Quadro: O que pode sair das urnas
Quadro: Normas do aspirante a ditador

Em dezembro deste ano, a América Latina terá passado por onze eleições presidenciais no espaço de doze meses. O que pode sair das urnas é motivo de preocupação internacional, sobretudo para os próprios latino-americanos. O contexto é repleto de obstáculos. A região está perdendo o brilho como um celeiro de mercados emergentes. No último Fórum Econômico Mundial, em Davos, no mês passado, os holofotes concentraram-se na China e na Índia. A América Latina simplesmente ficou de fora do show. A razão do desinteresse pode ser encontrada nos números econômicos. No início dos anos 90, as economias latino-americanas e as dos países emergentes da Ásia (China, Índia e Tigres Asiáticos) tinham tamanho similar. De lá para cá, a riqueza asiática multiplicou-se por quatro enquanto a da América Latina apenas dobrou. Em termos de investimento estrangeiro, a Ásia coletou 130 bilhões de dólares no ano passado. Os latino-americanos ficaram com 72 bilhões. Nos últimos dez anos a América Latina cresceu 2,8% ao ano, contra 5,3% da média dos países emergentes. A exceção foi o Chile, que há duas décadas cresce 6% ao ano, graças ao consenso existente no país sobre a necessidade de manter o modelo econômico iniciado na década de 80.

O que os novos governantes podem fazer para reverter o declínio? As pesquisas eleitorais colocam entre os favoritos boa quantidade de candidatos esquerdistas. Viradas à esquerda nos países subdesenvolvidos, mostra a história, quase sempre significam mergulhos mais profundos na pobreza e na corrupção. Muitos investidores europeus e americanos suspeitam que o continente está mesmo virando à esquerda e, precavidos, preferem levar seu dinheiro para portos mais seguros. Quem faz isso está cometendo duas generalizações perigosas. A primeira é considerar a América Latina como um todo homogêneo. A região é formada por alguns países grandes, "que respeitam a democracia e a economia de mercado", como diz o uruguaio Enrique Iglesias, ex-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento, vários paisecos sem expressão e uns poucos Estados totalmente falidos. É o caso do Haiti, a nação mais pobre do continente. Na semana passada, os haitianos escolheram seu presidente numa eleição surpreendentemente pacífica.

A segunda generalização é achar que existe só um tipo de esquerda. "Já não é mais possível dividir os candidatos ou os governos da América Latina entre os de esquerda e os de direita", disse a VEJA Alfredo Ramos Jiménez, da Universidade dos Andes, em Mérida, na Venezuela. Para Jiménez, essa classificação é ultrapassada porque não se pode agrupar em um mesmo bloco o populismo do venezuelano Hugo Chávez e o socialismo responsável de Michelle Bachelet, presidente eleita do Chile – por mais que ambos se declarem de esquerda. "O que temos hoje é uma divisão entre presidentes ou candidatos que almejam uma ditadura dissimulada, como a de Chávez, e os que de fato respeitam a democracia", diz Jiménez.

 

Amanecer Tedessqui/AP

Cada um representa uma atitude: Humala (acima) é o velho nacionalismo dos militares, Morales (abaixo, à esq.), o novo indianismo, e Bachelet (abaixo, à dir.), a vida moderna e o desenvolvimento

Aizar Raldes/AFP
Martin Bernetti/AFP

Hugo Chávez, que deve se reeleger em dezembro, é um populista que semeia clones pelas redondezas. Faz isso não apenas com o exemplo, mas também com a fartura de dólares proveniente da venda de petróleo. Um dos simulacros é Evo Morales, que assumiu na Bolívia no mês passado e anuncia projetos nebulosos de nacionalização da única riqueza do país – o gás natural – e de criação de um novo tipo de sociedade indígena. Na verdade, como seu país é o mais pobre da América do Sul, seu espaço real de manobras é limitado. No Haiti, da mesma forma, há poucas chances de que o vencedor – ao que tudo indica, René Préval, um aliado de Jean-Bertrand Aristide, presidente corrupto e populista derrubado por um golpe em 2004 – consiga criar condições de segurança e um sistema democrático minimamente estável para dispensar a presença de tropas das Nações Unidas, o que incluiria uma força brasileira.

Nessas voltas que a América Latina dá para não sair do mesmo lugar, um dos ícones da esquerda no momento é um coronel peruano, Ollanta Humala, cujo projeto ideológico é o tenebroso nacionalismo militar dos anos 60. A Nicarágua é outro país que ensaia um recuo na história com a eleição do sandinista Daniel Ortega. Presidente nos anos 80, Ortega pilotou uma desastrosa experiência socialista que arruinou a nação e causou uma guerra civil. O populismo, de acordo com cientistas políticos, caracteriza-se pelo uso leviano do dinheiro e dos poderes públicos e, sobretudo, pelo talento em fazer com que os deserdados acreditem estar sendo beneficiados pelo assistencialismo oficial, quando na verdade estão ficando mais pobres. Por esses critérios, Andrés Manuel López Obrador, favorito nas eleições presidenciais mexicanas, é um populista. Por mais que ele pose de revolucionário, dificilmente conseguiria tirar o México do caminho econômico cimentado desde 1994 com o Nafta, o acordo de livre-comércio com os Estados Unidos.

O historiador e ensaísta mexicano Enrique Krauze, um dos pensadores mais respeitados do continente, acredita que o risco para a América Latina está no ressurgimento de quatro paradigmas que, no passado, serviram de obstáculo ao desenvolvimento. O primeiro é o populismo. Chávez e seus clones retomaram a velha tradição do político centralizador que cativa os pobres com promessas de soluções milagrosas para problemas complexos. Os populistas costumam ser ótimos em angariar votos, mas péssimos em implementar políticas econômicas eficientes. O segundo paradigma é o militarismo. Chávez e Humala são egressos dos quartéis e, embora se apresentem como civis, tendem a ver o uso da força como uma alternativa legítima para conquistar e manter o poder. A terceira praga latino-americana, segundo Krauze, são as ideologias revolucionárias, que há vinte anos eram representadas pelas guerrilhas colombianas e pelo ditador cubano Fidel Castro. Hoje ganharam novas roupagens: o nacionalismo e o movimento indianista. Nessa categoria se encaixam Evo Morales e Humala. O quarto paradigma que está renascendo no continente é o modelo de economia fechada e estatizante.

Na década de 90, depois de dez anos de estagnação econômica, hiperinflação e calotes em instituições financeiras internacionais, a América Latina parecia finalmente ter encontrado o caminho do crescimento. A abertura econômica, as privatizações e o enxugamento do Estado permitiram que a região voltasse a crescer. Em muitos países tais políticas não tiveram tempo de amadurecer e gerar prosperidade para a maioria da população, como aconteceu na Ásia e no Leste Europeu. Os novos populistas atribuem a tais políticas a culpa pela miséria e exigem o aumento do peso do Estado na economia. "O problema da América Latina é essa mania de destruir tudo que já foi construído, sem dar continuidade ao que foi feito de bom nos governos anteriores", disse a VEJA o sociólogo chileno Manuel Antonio Garretón, da Universidade do Chile.

 
 
 
 
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