Edição 1943 . 15 de fevereiro de 2006

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Internacional
O preço do perdão  

Para redimir-se de crimes corporativos,
o dono da Samsung faz doação de
825 milhões de dólares

Yonhap Ha Sa-Hum/AP

Lee Kun Hee: o homem mais rico da Coréia do Sul pede desculpas


Lee Kun Hee, o principal executivo da gigante de eletrônicos Samsung e o homem mais rico da Coréia do Sul, surpreendeu a opinião pública de seu país com um ato raro de generosidade: doou espontaneamente 825 milhões de dólares ao governo. O empresário não explicou o motivo da doação, e nem precisava. Sua imagem já estava arranhada desde o fim do ano passado, quando gravações flagraram planos da Samsung de subornar candidatos à Presidência da Coréia do Sul com 10 milhões de dólares. Mais recentemente, Lee Kun Hee, que luta contra um câncer, foi acusado de usar métodos irregulares para transferir parte do controle da empresa para um de seus filhos. A estratégia integraria um plano ilegal para aumentar a participação acionária da terceira geração da família que fundou a Samsung, em 1938. Hoje, a família Lee detém menos de 5% das ações do grupo.

Logo após a doação, o empresário saiu de seu retiro médico para admitir seus erros, ainda que de forma transversal: "Coloquei toda a minha energia na administração da companhia, mas falhei ao não ir ao encontro das expectativas das pessoas", afirmou. O episódio reforça a relação paradoxal dos coreanos com a Samsung, a maior empresa do país. Ela doa anualmente ao governo 200 milhões de dólares para a construção de orfanatos e bibliotecas e para ajuda aos desabrigados. A população reconhece a importância do conglomerado para a rápida transformação econômica da nação, mas se queixa das relações perigosas entre seus executivos e os políticos. Justamente por isso, nenhuma empresa representa tão bem a pior e a melhor faceta do capitalismo do que a Samsung. Nos últimos anos, seus computadores, celulares e televisores de tela plana deram um salto de qualidade, inovação e design. Para isso, a empresa investiu pesado, durante uma década, em pesquisa e desenvolvimento tecnológico. O esforço surtiu efeito. A Samsung é hoje uma das maiores fabricantes de televisores com tecnologia de cristal líquido – de cada vinte unidades vendidas no mundo no ano passado, uma era da empresa. Em 2004, assumiu a terceira posição na fabricação de celulares. O conglomerado tem mais de sessenta subsidiárias e é responsável por um quarto das exportações totais da Coréia. O mais recente estudo feito pela Business Week avaliou a marca em 103 bilhões de dólares. A companhia saltou dezesseis posições no ranking anual das marcas mais valiosas do mundo.

Mas, se foi ágil e perspicaz para competir no mundo globalizado, permaneceu presa a um sistema arcaico de administração. A Samsung sempre foi resistente às iniciativas do governo para deixar o mercado de capitais mais transparente. Além disso, resistiu aos esforços para reduzir a participação familiar nos conglomerados econômicos do país – conhecidos como chaebols. Dada a importância da Samsung, suas práticas corporativas antiquadas têm um custo econômico e social. É bem provável que esse custo supere o valor da generosa doação do empresário.

 
 
 
 
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