Edição 1943 . 15 de fevereiro de 2006

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Internacional
A fabricação do ódio

Como as ditaduras e as lideranças
muçulmanas aproveitaram a indignação
dos fiéis com as charges de Maomé para
promover um surto de fúria contra o
Ocidente e desqualificar a democracia


Diogo Schelp

 
AP
ATAQUE COM AJUDA DA SÍRIA
A embaixada dinamarquesa é incendiada pela multidão em Beirute: um em cada três manifestantes tinha vindo da Síria

EXCLUSIVO ON-LINE
Em Profundidade: Islamismo

As primeiras reações à publicação de doze charges com o profeta Maomé no jornal dinamarquês Jyllands-Posten, em setembro de 2005, foram uma manifestação pacífica de muçulmanos nas ruas de Copenhague e um abaixo-assinado produzido por organizações da comunidade islâmica no país. Entregue no gabinete do primeiro-ministro da Dinamarca, o documento pedia a punição do jornal. Não foi atendido, visto que não cabe ao chefe de governo de uma democracia punir jornais por discordar do que publicam. Nesse primeiro momento, ninguém fora da Dinamarca tomou conhecimento do assunto ou deu maior importância a ele. Como é possível que um incidente que não atraiu maior atenção tenha se transformado, de modo tão repentino, numa crise global? A resposta: líderes de países muçulmanos e clérigos extremistas deliberadamente aproveitaram a indignação dos fiéis com as charges de Maomé para promover um surto de ataques ao Ocidente e à democracia.

A fabricação do ódio é uma história razoavelmente bem mapeada. A primeira faísca foi acesa pelo imã Ahmed Laban, um líder extremado da comunidade muçulmana da Dinamarca. Palestino, ele trocou Haifa, sua cidade natal, quando Israel foi criado, em 1948, pelo Egito. Lá foi condenado à prisão por envolvimento com a Irmandade Muçulmana, organização fundamentalista islâmica que serve de inspiração ideológica para Osama bin Laden e para os terroristas do Hamas. Exilou-se então na Dinamarca, uma sociedade aberta, liberal, que, tradicionalmente, recebe os forasteiros de braços abertos. À frente de uma delegação de muçulmanos dinamarqueses (há 200.000 deles no país escandinavo), Abu Laban embarcou para o Oriente Médio levando na bagagem um dossiê preparado para demonstrar que a Dinamarca trata de forma racista os fiéis de sua religião.

 
Hassan Ammar/AFP

EM MECA, A DECISÃO DE PÔR FOGO NO MUNDO
Na cúpula de Meca, os governantes dos países islâmicos (em primeiro plano, o presidente do Irã, à esq., e o rei saudita) receberam o dossiê do imã Laban, da Dinamarca (abaixo, à esq.). Abaixo, à direita, o xeque Hamza, condenado em Londres por pregar o ódio

John Mcconnico/AP
Matt Dunham/Reuters

O dossiê tinha 43 páginas e continha não doze, mas quinze imagens ofensivas ao profeta Maomé. As três extras eram muito mais obscenas e ofensivas. Um desenho mostrava um muçulmano sendo estuprado por um cão durante suas orações. Outro sugeria que o profeta era pedófilo. A última, uma foto, exibia um barbudo com orelhas e nariz de porco – Maomé, na versão de Laban. Não era bem isso, descobriu um implacável detetive da blogosfera. Tratava-se de uma foto de uma brincadeira tradicional numa competição suína no interior da França. Em entrevista a VEJA, na semana passada, Laban negou que tenha usado essas falsificações para incitar a fúria dos muçulmanos contra o Ocidente. "Não era esse o objetivo de minha viagem e não há pecado nenhum em eu querer exercer minha liberdade de expressão no Oriente Médio", desconversou Laban.

Os escudeiros de Laban estiveram no Egito, no Líbano e na Síria. Encontraram-se com os principais líderes religiosos desses países, com o ministro das Relações Exteriores do Egito, Ahmed Aboul Gheit, e com o chefe da Liga Árabe, Amr Moussa. O material do imã dinamarquês logo virou peça de agitação no canal de TV do Hezbollah, grupo terrorista libanês, e nos programas religiosos da rede Al Jazira. O lance decisivo foi feito pelo chanceler egípcio, que levou o dossiê para o encontro que reuniu 57 representantes de nações muçulmanas em Meca, na Arábia Saudita, em dezembro. Em conversa nos bastidores, boa parte deles combinou agir em conjunto para fazer o maior alarido possível com as caricaturas de Maomé. Foi ali que surgiu a idéia de boicotar os produtos dinamarqueses e chamar de volta os embaixadores em Copenhague. O Irã foi mais longe e suspendeu qualquer relacionamento comercial com a Dinamarca – um gesto simbólico, pois o comércio era mínimo.

Lefteris/AP
AMEAÇA AOS INFIÉIS
Muçulmana com cartaz em Londres: "Preparem-se para o verdadeiro holocausto!"


A motivação dominante por trás da decisão dos governantes dos países muçulmanos foi a de passar um recado ao Ocidente, que os importuna com a exigência de respeito aos direitos humanos e à democracia. Ao colocar as massas nas ruas, incendiar embaixadas e promover boicotes econômicos, tentaram intimidar o Ocidente. Para o público interno, a mensagem foi dupla. Primeiro, que os tiranos são guardiões legítimos da honra do Islã. Segundo, como se viu, a democracia proposta pelo Ocidente é ruim, pois permite a blasfêmia. Alguns protestos nas ruas foram espontâneos, mas a maioria foi manipulada por fundamentalistas islâmicos ou por governos. A polícia libanesa estima que pelo menos um terço da multidão que atacou e queimou a embaixada da Dinamarca em Beirute era constituído de sírios, enviados por Damasco para colocar lenha na fogueira. Na capital síria, a fúria da multidão foi coordenada por homens que se comunicavam por walkie-talkie. De qualquer forma, não há nenhuma possibilidade de realização de uma manifestação pública em Damasco sem autorização oficial.

Bashar Assad, que herdou a Presidência da Síria de seu pai cinco anos atrás, vive um momento difícil. A pressão internacional o obrigou a uma retirada humilhante do Líbano, ocupado desde 1976. A ONU o acusa de ser o mandante do assassinato de Rafik Hariri, o político mais popular do Líbano. Seu vice-presidente fugiu do país e conspira para derrubá-lo. Numa estratégia de sobrevivência, Assad aliou-se aos fundamentalistas islâmicos e abriu suas fronteiras para os voluntários que vão fazer a jihad no Iraque. A súbita transformação em defensor da fé não é muito convincente – afinal, seu pai reprimiu um levante da Irmandade Muçulmana, matando mais de 20.000 pessoas –, mas é onde ele pode se segurar no momento. Se alguém está gostando da piora das relações entre o Ocidente e o Mundo Islâmico, é o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. Populista religioso eleito com os votos das províncias mais pobres, ele desafiou o Conselho de Segurança da ONU ao reativar o programa nuclear. As diatribes do presidente contra os países ocidentais e a ameaça de destruir Israel o tornaram uma figura popular entre os muçulmanos de todo o Oriente Médio e lhe deram fôlego para enfrentar a aristocracia clerical xiita, que não gosta de seus arroubos. Em Teerã, como em Damasco, a polícia olhou para outro lado enquanto a embaixada dinamarquesa era atacada.

Figuras como Laban estão envenenando o relacionamento entre os europeus e os imigrantes muçulmanos. Na semana passada, a Justiça inglesa condenou a sete anos de prisão o xeque Abu Hamza, um refugiado egípcio, por incitação à violência racial. "Matar um infiel é sempre justificável, mesmo que não haja nenhuma razão para isso", pregou Hamza em um sermão cuja gravação a polícia apreendeu em sua mesquita, em Londres. "Por viverem em um continente não muçulmano, fundamentalistas islâmicos como Laban e Hamza consideram-se soldados do Islã na frente de batalha pela implantação da lei islâmica em todo o mundo", disse a VEJA o iraniano Mehdi Mozaffari, da Universidade de Aarhus, na Dinamarca. Mozaffari, como outros muçulmanos moderados que vivem integrados à sociedade européia, está preocupado com as artimanhas empregadas pelos extremistas para se apresentar como vítimas e unir a população islâmica contra o Ocidente. Diz ele: "Como ocorreu no caso das charges, eles sempre tentam provar que os não-muçulmanos querem acabar com a religião islâmica, o que obviamente não é verdade".

 

A "intuição divina" de Jaguar

O cartunista carioca Sérgio Jaguaribe, o Jaguar, anda morrendo de inveja dos seus colegas dinamarqueses. "Meu sonho é que alguém quisesse me matar por causa de uma charge. Isso nunca aconteceu", ironiza Jaguar. Gracejar com a fé alheia, no entanto, custou-lhe um emprego. Jaguar fez a caricatura ao lado no fim dos anos 60. Nela, um Jesus perturbadoramente humano se explica a uma voluptuosa Maria Madalena. Jaguar tentou emplacá-la na revista Senhor, mas o editor, temendo a censura militar, recusou-a. Duas décadas depois, ele finalmente conseguiu ver seu desenho publicado na seção Notícias do Balneário, que mantinha na revista masculina Status. Foi demitido três meses depois. "Não tenho dúvidas de que foi por causa desse trabalho", lembra Jaguar. O jornalista Paulo Francis, morto em 1997, considerava essa charge de Jaguar o exemplo mais acabado do humor brasileiro, em especial da sua vertente carioca. Dizia Francis: "A charge não diminui a fé de ninguém e faz qualquer cristão cair na risada. O Jaguar teve uma intuição divina".


Com reportagem de
José Eduardo Barella

 
 
 
 
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