Edição 1943 . 15 de fevereiro de 2006

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Brasil
China e Índia roubam a festa

Nunca houve uma era tão próspera
na
economia mundial. O Brasil corre
o risco de desperdiçar esse momento


Marcelo Carneiro

 

Ricardo Stuckert/PR
Lula na Argélia: em três anos de mandato, cinco visitas à África

O presidente Lula fez, na semana passada, sua quinta viagem à África desde o início do governo. Os países visitados – Argélia, África do Sul, Benin e Botsuana – têm em comum o fato de ser pobres e comercialmente irrelevantes. Nenhuma surpresa, já que o incremento da chamada "cooperação Sul-Sul" (a opção preferencial pelos sócios pobres) sempre foi, no campo da política externa, uma das idéias fixas do governo petista. O projeto tem origem no sonho acalentado por Lula de projetar-se como líder de um bloco de países do Terceiro Mundo. Ele preconiza que o Brasil deve insistir no papel de protagonista de negociações multilaterais, liderando países pobres e pressionando os ricos a fechar acordos comerciais mais vantajosos para os oprimidos. Lindo. No papel. Essa miopia coincidiu com certas mudanças sísmicas no cenário econômico internacional e acabou contribuindo para que o Brasil perdesse visibilidade e espaço na competição globalizada. Alguns desses fatores, alheios a nossa vontade, foram:

• A China cresce ano após ano a taxas em torno de 9% e não dá mostras de que vai arrefecer o ritmo em 2006.

• A Índia deu ao mundo mostras inequívocas de sua determinação modernizante e unidade de propósitos. Com 80% da população formada por hindus, tem um presidente muçulmano, um primeiro-ministro sikh e um presidente do partido governista cristão – e todos rezam pela mesma cartilha econômica.

• Depois de quase duas décadas de estagnação, o Japão voltou a crescer graças a um quase-golpe de Estado em cima das forças conservadoras dado pelo primeiro-ministro, Junichiro Koizumi, que, à moda de Margaret Thatcher, está diminuindo rapidamente o tamanho e o poder do Estado sobre a economia.

• A União Européia, embora com taxas baixas de crescimento nominal, ganhou dez novos países-membros e, assim, aumentou seu peso específico no mercado global, superando como bloco o PIB dos EUA.

Em um cenário assim, o mais lógico seria que o Brasil mudasse sua modorrenta estratégia Sul-Sul. Alguns dos vizinhos entenderam melhor o rumo das correntes mundiais. México e Chile, livres das amarras do Mercosul, têm conquistado bons resultados em tratados bilaterais, que trazem mais vantagens imediatas para os países e suas populações do que a lenta formação de blocos regionais. "Enquanto o Brasil tem apenas um acordo bilateral, o México tem 42", diz José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil. No que se refere às relações comerciais com os Estados Unidos, o Chile, por exemplo, viu suas exportações crescerem 535% nas últimas duas décadas. Nesse período, o mercado americano viveu seu maior surto de consumo. A era Greenspan – assim batizada em referência ao ex-presidente do Federal Reserve – viu as importações americanas saltarem de 500 bilhões (em 1985) para 1,5 trilhão de dólares anuais (em 2004). Quem soube surfar na onda da prosperidade americana se deu muito bem. Lamentavelmente, não foi o caso do Brasil (veja o quadro).

O fato de o país estar perdendo o trem da alegria do aquecimento econômico mundial deve-se apenas em parte à política externa do governo Lula e seu objetivo de "redesenhar a geografia do comércio internacional" (falta combinar com a geografia). Nosso mau passo está relacionado, sobretudo, a uma lista de entraves estruturais internos que o Brasil ainda não conseguiu solucionar. A falta de regras claras para investimentos, a imprevisibilidade nas decisões de governo, a lentidão do sistema judiciário, a elevada carga tributária, as altas taxas de juro e a perpetuação da burocracia, sabe-se, são algumas das melhores maneiras de afugentar um investidor. O Itamaraty, é inegável, contribui para o agravamento da situação com sua cota particular de equívocos. Nela, inclui-se a falta de foco demonstrada por seus diplomatas no que diz respeito a questões cruciais para o crescimento econômico do país. Desde o início do governo Lula, a diplomacia brasileira insiste em tentar obter para o Brasil o assento permanente no Conselho de Segurança da ONU – um sonho que atravessa vários governos (entre outros motivos mais nobres, devido à profusão de empregos que promete). Na briga pela vaga, no entanto, o Itamaraty deixa de lado tarefas prioritárias como a negociação para o acordo de livre-comércio das Américas, a Alca. Atualmente, cerca de 50% das exportações brasileiras têm como destino os países da América.

Mundo afora, comemoram-se a alta da produção e o crescimento do consumo, a redução da miséria e o aumento do emprego. A economia global vive uma fase de excepcional pujança, e algumas das principais economias emergentes se preparam para dar um salto definitivo na direção da prosperidade. Enquanto isso, o Brasil patina nos mesmos velhos problemas de sempre e a diplomacia lulista, sonhando com uma improvável liderança terceiro-mundista, leva o presidente a um périplo por países africanos que, juntos, representam 1,6% das exportações brasileiras. O Brasil poderia estar aproveitando melhor essa festa.

 

Com reportagem de Renato Piccinin

 
 
 
 
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