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Brasil China
e Índia roubam a festa Nunca houve uma
era tão próspera na economia
mundial. O Brasil corre o risco de desperdiçar esse momento  Marcelo
Carneiro
Ricardo
Stuckert/PR
 | | Lula
na Argélia: em três anos de mandato, cinco visitas à África |
O presidente Lula fez, na semana passada, sua quinta viagem à África
desde o início do governo. Os países visitados Argélia,
África do Sul, Benin e Botsuana têm em comum o fato de ser
pobres e comercialmente irrelevantes. Nenhuma surpresa, já que o incremento
da chamada "cooperação Sul-Sul" (a opção preferencial
pelos sócios pobres) sempre foi, no campo da política externa, uma
das idéias fixas do governo petista. O projeto tem origem no sonho acalentado
por Lula de projetar-se como líder de um bloco de países do Terceiro
Mundo. Ele preconiza que o Brasil deve insistir no papel de protagonista de negociações
multilaterais, liderando países pobres e pressionando os ricos a fechar
acordos comerciais mais vantajosos para os oprimidos. Lindo. No papel. Essa miopia
coincidiu com certas mudanças sísmicas no cenário econômico
internacional e acabou contribuindo para que o Brasil perdesse visibilidade e
espaço na competição globalizada. Alguns desses fatores,
alheios a nossa vontade, foram: A China
cresce ano após ano a taxas em torno de 9% e não dá mostras
de que vai arrefecer o ritmo em 2006. A
Índia deu ao mundo mostras inequívocas de sua determinação
modernizante e unidade de propósitos. Com 80% da população
formada por hindus, tem um presidente muçulmano, um primeiro-ministro sikh
e um presidente do partido governista cristão e todos rezam pela
mesma cartilha econômica. Depois de
quase duas décadas de estagnação, o Japão voltou a
crescer graças a um quase-golpe de Estado em cima das forças conservadoras
dado pelo primeiro-ministro, Junichiro Koizumi, que, à moda de Margaret
Thatcher, está diminuindo rapidamente o tamanho e o poder do Estado sobre
a economia. A União Européia,
embora com taxas baixas de crescimento nominal, ganhou dez novos países-membros
e, assim, aumentou seu peso específico no mercado global, superando como
bloco o PIB dos EUA. Em um cenário assim,
o mais lógico seria que o Brasil mudasse sua modorrenta estratégia
Sul-Sul. Alguns dos vizinhos entenderam melhor o rumo das correntes mundiais.
México e Chile, livres das amarras do Mercosul, têm conquistado bons
resultados em tratados bilaterais, que trazem mais vantagens imediatas para os
países e suas populações do que a lenta formação
de blocos regionais. "Enquanto o Brasil tem apenas um acordo bilateral, o México
tem 42", diz José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação
de Comércio Exterior do Brasil. No que se refere às relações
comerciais com os Estados Unidos, o Chile, por exemplo, viu suas exportações
crescerem 535% nas últimas duas décadas. Nesse período, o
mercado americano viveu seu maior surto de consumo. A era Greenspan assim
batizada em referência ao ex-presidente do Federal Reserve viu as
importações americanas saltarem de 500 bilhões (em 1985)
para 1,5 trilhão de dólares anuais (em 2004). Quem soube surfar
na onda da prosperidade americana se deu muito bem. Lamentavelmente, não
foi o caso do Brasil (veja o quadro). O
fato de o país estar perdendo o trem da alegria do aquecimento econômico
mundial deve-se apenas em parte à política externa do governo Lula
e seu objetivo de "redesenhar a geografia do comércio internacional" (falta
combinar com a geografia). Nosso mau passo está relacionado, sobretudo,
a uma lista de entraves estruturais internos que o Brasil ainda não conseguiu
solucionar. A falta de regras claras para investimentos, a imprevisibilidade nas
decisões de governo, a lentidão do sistema judiciário, a
elevada carga tributária, as altas taxas de juro e a perpetuação
da burocracia, sabe-se, são algumas das melhores maneiras de afugentar
um investidor. O Itamaraty, é inegável, contribui para o agravamento
da situação com sua cota particular de equívocos. Nela, inclui-se
a falta de foco demonstrada por seus diplomatas no que diz respeito a questões
cruciais para o crescimento econômico do país. Desde o início
do governo Lula, a diplomacia brasileira insiste em tentar obter para o Brasil
o assento permanente no Conselho de Segurança da ONU um sonho que
atravessa vários governos (entre outros motivos mais nobres, devido à
profusão de empregos que promete). Na briga pela vaga, no entanto, o Itamaraty
deixa de lado tarefas prioritárias como a negociação para
o acordo de livre-comércio das Américas, a Alca. Atualmente, cerca
de 50% das exportações brasileiras têm como destino os países
da América. Mundo afora, comemoram-se a
alta da produção e o crescimento do consumo, a redução
da miséria e o aumento do emprego. A economia global vive uma fase de excepcional
pujança, e algumas das principais economias emergentes se preparam para
dar um salto definitivo na direção da prosperidade. Enquanto isso,
o Brasil patina nos mesmos velhos problemas de sempre e a diplomacia lulista,
sonhando com uma improvável liderança terceiro-mundista, leva o
presidente a um périplo por países africanos que, juntos, representam
1,6% das exportações brasileiras. O Brasil poderia estar aproveitando
melhor essa festa. Com
reportagem de Renato Piccinin |