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Brasil Acharam
o culpado Depois de nove meses da pior
crise da história recente do país, a Câmara aprova projeto
que, a pretexto de combater o caixa dois, proíbe o uso de button...
 Julia
Duailibi Na
semana passada, a Câmara dos Deputados, enfim, apresentou sua resposta à
mais grave crise dos últimos anos: aprovou um projeto com a intenção
de coibir o caixa dois eleitoral tendo como medida central ora, vejam
a proibição de buttons e bonés nas campanhas! A idéia
do projeto, aprovado na quinta-feira passada, é reduzir o custo das campanhas,
e para tanto os deputados criaram uma série de interdições.
As campanhas não poderão distribuir buttons, bonés, canetas,
camisetas ou chaveiros um tema que inflamou os ânimos dos deputados.
"Antes eu dava camisetas a meus cabos eleitorais, agora vou ter de dar carros
de som", choramingou a deputada Laura Carneiro (PFL-RJ). Bem, depende do que a
deputada entende por carro de som. Seus colegas decidiram que as campanhas só
podem usar carros cujo som tenha potência máxima de 2.000 watts.
Mais que isso vira um trio elétrico possante demais, e não pode.
Na linha das proibições, também ficaram vedadas a realização
de showmícios, a propaganda por meio de telemarketing e a publicação
de anúncios eleitorais na imprensa escrita. "E
a livre manifestação do militante?", gritava a deputada Luciana
Genro (P-SOL/RS), indignada com a proibição dos buttons e bonés.
"Isso é um atentado à liberdade de imprensa", bradava o deputado
Francisco Dornelles (PP-RJ), irritado com a proibição de publicar
anúncios na imprensa, enquanto seu colega Roberto Magalhães (PFL-PE),
confuso com as várias versões do projeto, perguntava a quem passava
à sua volta: "Que versão estamos votando? Que versão estamos
votando?". Era a sexta versão, deputado. Celso
Junior
 | Marcio
Fernandes/AE
 | | O
deputado Moreira Franco e o senador Bornhausen: conseguiram piorar o que já
era ruim |
O autor do projeto
é o deputado Moreira Franco (PMDB-RJ), mas é mais justo dizer que
a versão final era uma obra coletiva, na qual os deputados se empenharam
em tirar o essencial e deixar o acessório. O projeto original veio do Senado
e foi proposto por Jorge Bornhausen (PFL-SC). Era ruim, mas tinha pontos positivos.
Por exemplo: previa que os comitês divulgariam diariamente seus gastos na
internet, o que dificultaria as contas de chegada que se fazem no fim da campanha.
Mas os deputados acharam que isso era um exagero e aprovaram a divulgação
de gastos apenas duas vezes durante a campanha toda. "Uma
resposta ruim para a sociedade é pior do que resposta nenhuma", reagiu
o deputado José Thomaz Nonô (PFL-AL). A resposta ruim, na verdade,
começou a ser desenhada no Senado, onde o projeto passou pelas primeiras
mutilações. Na proposta original, empresas contratadas pela administração
pública ficavam proibidas de fazer doações eleitorais, tal
como acontece hoje com estatais e concessionárias de serviços públicos.
A idéia era evitar a promiscuidade e a compra de favores oficiais por parte
de quem trabalha para o Estado. A proibição, porém, morreu
no próprio Senado e, na Câmara, ninguém pensou em ressuscitá-la.
Os deputados não conseguiram sequer aprovar um teto para os gastos de campanha.
A dúvida era: o teto deveria ser definido pelos próprios parlamentares
ou pela Justiça Eleitoral? O texto aprovado prevê que um novo projeto
seja votado até 10 de junho definindo um teto. E, se isso não acontecer
até lá, então cada partido informará à Justiça
Eleitoral quanto pretende gastar, e pronto. Ou seja: ficará tudo exatamente
igual ao que é hoje. Nesta
semana, a Câmara colocará em votação os 24 destaques
apresentados pelos deputados. Isso significa que o projeto aprovado na semana
passada ainda sofrerá alterações e tem enormes possibilidades,
portanto, de ficar ainda pior. Isso porque, na hora H, sempre poderá aparecer
um deputado metendo de cambulhada um absurdo qualquer que lhe convenha. Na semana
passada, por exemplo, entrou no projeto um artigo criando pena de até dois
anos de cadeia para quem divulgar na internet "documento injurioso, calunioso
ou difamante" sobre "qualquer parlamentar no exercício do mandato". Alguém
entendeu o que isso tem a ver com caixa dois? É
difícil acreditar que nove meses de escândalo do mensalão
não tenham sido suficientes para que o Congresso Nacional produzisse uma
resposta minimamente séria à crise. Em vez disso, concebeu-se um
projeto pífio com a suposta intenção de combater o caixa
dois o que já é um desvio de foco. Afinal, o governo e o
PT criaram a tese de que o escândalo se resumiria a um problema de caixa
dois. Na verdade, está fartamente demonstrado que o mensalão é
fruto do entrançamento da corrupção no aparato estatal e
do suborno de parlamentares num nível nunca antes imaginado. Eis a observação
que faz o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ): "Querem mostrar para a sociedade que
o caixa dois foi o responsável por tudo o que está aí. A
campanha eleitoral não é responsável pela corrupção.
Se fosse verdade, então as ditaduras seriam puras". Com esse Congresso
Nacional, parece que tudo sempre acaba em pizza. Ou em button. |