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Brasil O
candidato dos pobres Lula volta a subir
nas pesquisas mas fica dependente do eleitor mais humilde do país
e num grau jamais visto na história
 Otávio
Cabral Ricardo
Stuckert
 | | Lula,
em canteiro de obras: buscando entre os pobres os votos que perdeu na classe média
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Depois de nove meses caindo
nas pesquisas eleitorais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou
a reagir, beneficiado pela trégua nas denúncias de corrupção.
Na semana passada, o instituto Datafolha informou que Lula cresceu 4 pontos nos
últimos dois meses, chegando a 33% das intenções de voto
apenas 1 ponto porcentual atrás de seu adversário mais provável,
o tucano José Serra. No Palácio do Planalto, os números da
pesquisa foram recebidos com euforia. Lula tornou a sorrir e a fazer piadas, e
seus assessores voltaram a exibir um ar de confiança. Deu-se pouca atenção,
no entanto, ao fato de que o eleitorado de Lula ganhou, nesses meses de escândalo,
uma conformação inédita: 85% dos eleitores que hoje desejam
a reeleição do presidente pertencem às camadas mais pobres
e menos escolarizadas do país (veja quadro). Desde que o Brasil
fez seu primeiro pleito presidencial direto pós-ditadura, em 1989, nunca
um candidato viável se apoiou tão pesadamente na massa mais pauperizada
do país. "Nem Collor, que tinha os descamisados, era tão dependente
dos pobres", diz o sociólogo Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha.
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No
Brasil da desigualdade social, os pobres, assim qualificados os que ganham até
cinco salários mínimos, formam 82% do eleitorado total. O restante
divide-se em 12,5% de classe média e 5,5% de ricos, cuja renda familiar
é superior a dez salários mínimos. Nessa paisagem, é
óbvio que qualquer candidato sempre terá, em números absolutos,
mais pobres em seu eleitorado do que ricos ou remediados a menos que seja
um candidato de nicho. Em 1994, o eleitorado de Lula era formado por 78% de pobres.
Em 2002, o número subiu para 80%. Agora, saltou para 85%. Há, porém,
outro dado. Até 2002, Lula tinha um desempenho mais ou menos homogêneo
nas diversas camadas sociais. Uma pesquisa do Datafolha feita na véspera
do primeiro turno de 2002 mostra que, entre os pobres, Lula tinha 45% de preferência.
Na classe média, ficava em 50% e, entre os que habitam o topo da pirâmide
social, contava com 48%. Na última pesquisa, Lula tem 34% da preferência
entre os pobres, 32% na classe média e apenas 16% entre os ricos. José
Serra mantém desempenho um pouco mais equilibrado: 33% entre os pobres,
39% na classe média e 49% entre os ricos.
E por que Lula se tornou o candidato mais pobre-dependente da história
eleitoral recente? A explicação deve ser buscada na confluência
de dois fatores. Em primeiro lugar, Lula perdeu um pedaço significativo
do apoio da classe média, incluindo aí categorias que eram históricos
eleitores petistas, como servidores públicos, profissionais liberais, universitários
e até sindicalistas um contingente que não é expressivo
do ponto de vista numérico, mas tem forte capacidade de influência.
"Esse eleitorado costuma votar pela moralidade administrativa, pela ética,
pela boa condução da economia", diz o cientista político
Michel Zaidan, da Universidade Federal de Pernambuco. "Ao falhar na moralidade
e na ética, o PT perdeu o grosso desse eleitorado e ficou com os votos
mais atrasados e mais conservadores." O outro dado que explica o novo eleitorado
de Lula é o empenho que ele tem dedicado no governo para levar o voto dos
mais pobres. O exemplo mais claro é o Bolsa Família, programa que
distribui dinheiro mensalmente às famílias carentes. Até
a eleição, a previsão é que o projeto atenda entre
11 milhões e 12 milhões de famílias. Sergio
Castro/AE
 | | Família
em galpão do Bolsa Família, no Maranhão: o programa social é a maior obra eleitoral
do PT |
Sabendo que a corrupção
enxovalhou sua imagem diante da classe média, Lula voltou-se para o eleitorado
mais pobre, menos escolarizado e concentrado no Nordeste a única
região do país, aliás, onde ele vence José Serra com
folga desde o primeiro turno. O eleitorado nordestino de Lula tem sido reforçado
à base de investimentos importantes. "O governo fará uma refinaria
em Pernambuco, a Ferrovia Transnordestina, a duplicação da BR-101,
a transposição do Rio São Francisco, a exploração
de petróleo na Paraíba. É uma série de boas notícias
que reforça o prestígio do presidente na região", analisa
o deputado Eduardo Campos, do PSB de Pernambuco, ex-ministro da Ciência
e Tecnologia. Além disso, em seu governo, para agradar ao eleitorado mais
humilde, Lula congelou o preço do gás de cozinha e reduziu os impostos
dos produtos da cesta básica, duas medidas de alto impacto para as camadas
de menor renda, e acaba de anunciar com barulho que o novo salário mínimo
será de 350 reais, sofrendo assim um aumento real de 13% o maior
dos últimos dez anos. Os acenos
para o eleitor pobre não param. Na semana passada, numa solenidade em Brasília,
Lula anunciou um pacote de incentivo à moradia popular, liberando recursos
para a casa própria e reduzindo impostos sobre material de construção.
O anúncio do pacote, realizado no Palácio do Planalto, foi acompanhado
por uma claque que gritava: "Lula de novo, moradia para o povo!". Estima-se que,
com as isenções tributárias, a construção de
um "puxadinho", sonho de consumo das parcelas mais humildes da população,
possa ficar entre 15% e 25% mais barata. Com uma paisagem social tão precária,
é até saudável que um presidente-candidato seja tão
sensível às necessidades dos pobres e se empenhe em contribuir para
melhorar-lhes as condições de vida. Pena que, no caso de Lula, suas
intenções eleitoreiras sejam tão evidentes, como se pode
constatar pela fanfarra dos anúncios e pela cronologia das medidas, calculadamente
concentradas no calendário de modo a produzir efeito nas pesquisas num
ano eleitoral. Está dando certo. "Lula
é um líder com um traço popular e populista forte, que se
comunica muito bem com as classes C, D e E, tanto pelo discurso quanto pelos projetos",
analisa o filósofo Denis Lerrer Rosenfield, da Universidade Federal do
Rio Grande do Sul. A grande dúvida é saber se um candidato consegue
eleger-se e governar sem contar com respaldo na elite e na classe
média e sem ter, ainda por cima, maioria no Congresso Nacional, como sempre
acontece nas eleições brasileiras. O passado político informa
que isso é dificílimo. "Não há na história
recente um presidente que tenha sido eleito sem forte apoio na classe média",
diz o cientista político Rogério Schmitt, da Tendências Consultoria.
"Caso o eleitorado de Lula se restrinja às camadas mais pobres, ele terá
apoio suficiente para chegar ao segundo turno, mas dificilmente vencerá",
aposta ele. Mas, se conseguir vencer,
com quem governará? Com as ruas, passando por cima do Congresso? "Há
um sério risco de um Lula chavista, um líder populista e carismático
dizendo que a direita não o deixa governar, que o Congresso é corrupto
e defende as elites, promovendo uma verdadeira luta de classes, com conseqüências
graves para a estabilidade econômica e institucional", avalia o filósofo
Denis Rosenfield. O que talvez afaste esse risco é que a situação
política do Brasil é bastante diferente do caso da Venezuela de
Hugo Chávez. "O sistema político brasileiro não passa por
um momento de crise tão grave e radical como o que o venezuelano enfrentou
nos anos que antecederam a chegada de Chávez ao poder. Aqui a democracia
está mais consolidada e a clivagem entre pobres e ricos não é
tão radical", diz Rogério Schmitt. Para Lula, apoiar-se de forma
tão pesada no eleitorado pobre talvez não seja uma boa estratégia,
já que essa parcela da população é realmente numerosa
mas é também a mais influenciável, que muda o voto com mais
facilidade. Talvez por isso o governo esteja quebrando a cabeça para preparar
medidas que soem como música aos ouvidos da classe média. É
a eleição governando o país. Rodrigo
Paiva/AE
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prefeito José Serra, provável candidato do PSDB: apoio maior entre os eleitores
ricos |
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