Edição 1943 . 15 de fevereiro de 2006

Índice
Millôr
Stephen Kanitz
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Brasil
O candidato dos pobres

Lula volta a subir nas pesquisas
mas fica dependente do eleitor
mais humilde do país – e num
grau jamais visto na história


Otávio Cabral

 
Ricardo Stuckert
Lula, em canteiro de obras: buscando entre os pobres os votos que perdeu na classe média

Depois de nove meses caindo nas pesquisas eleitorais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a reagir, beneficiado pela trégua nas denúncias de corrupção. Na semana passada, o instituto Datafolha informou que Lula cresceu 4 pontos nos últimos dois meses, chegando a 33% das intenções de voto – apenas 1 ponto porcentual atrás de seu adversário mais provável, o tucano José Serra. No Palácio do Planalto, os números da pesquisa foram recebidos com euforia. Lula tornou a sorrir e a fazer piadas, e seus assessores voltaram a exibir um ar de confiança. Deu-se pouca atenção, no entanto, ao fato de que o eleitorado de Lula ganhou, nesses meses de escândalo, uma conformação inédita: 85% dos eleitores que hoje desejam a reeleição do presidente pertencem às camadas mais pobres e menos escolarizadas do país (veja quadro). Desde que o Brasil fez seu primeiro pleito presidencial direto pós-ditadura, em 1989, nunca um candidato viável se apoiou tão pesadamente na massa mais pauperizada do país. "Nem Collor, que tinha os descamisados, era tão dependente dos pobres", diz o sociólogo Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha.

No Brasil da desigualdade social, os pobres, assim qualificados os que ganham até cinco salários mínimos, formam 82% do eleitorado total. O restante divide-se em 12,5% de classe média e 5,5% de ricos, cuja renda familiar é superior a dez salários mínimos. Nessa paisagem, é óbvio que qualquer candidato sempre terá, em números absolutos, mais pobres em seu eleitorado do que ricos ou remediados – a menos que seja um candidato de nicho. Em 1994, o eleitorado de Lula era formado por 78% de pobres. Em 2002, o número subiu para 80%. Agora, saltou para 85%. Há, porém, outro dado. Até 2002, Lula tinha um desempenho mais ou menos homogêneo nas diversas camadas sociais. Uma pesquisa do Datafolha feita na véspera do primeiro turno de 2002 mostra que, entre os pobres, Lula tinha 45% de preferência. Na classe média, ficava em 50% e, entre os que habitam o topo da pirâmide social, contava com 48%. Na última pesquisa, Lula tem 34% da preferência entre os pobres, 32% na classe média e apenas 16% entre os ricos. José Serra mantém desempenho um pouco mais equilibrado: 33% entre os pobres, 39% na classe média e 49% entre os ricos.

E por que Lula se tornou o candidato mais pobre-dependente da história eleitoral recente? A explicação deve ser buscada na confluência de dois fatores. Em primeiro lugar, Lula perdeu um pedaço significativo do apoio da classe média, incluindo aí categorias que eram históricos eleitores petistas, como servidores públicos, profissionais liberais, universitários e até sindicalistas – um contingente que não é expressivo do ponto de vista numérico, mas tem forte capacidade de influência. "Esse eleitorado costuma votar pela moralidade administrativa, pela ética, pela boa condução da economia", diz o cientista político Michel Zaidan, da Universidade Federal de Pernambuco. "Ao falhar na moralidade e na ética, o PT perdeu o grosso desse eleitorado e ficou com os votos mais atrasados e mais conservadores." O outro dado que explica o novo eleitorado de Lula é o empenho que ele tem dedicado no governo para levar o voto dos mais pobres. O exemplo mais claro é o Bolsa Família, programa que distribui dinheiro mensalmente às famílias carentes. Até a eleição, a previsão é que o projeto atenda entre 11 milhões e 12 milhões de famílias.

 

Sergio Castro/AE
Família em galpão do Bolsa Família, no Maranhão: o programa social é a maior obra eleitoral do PT

Sabendo que a corrupção enxovalhou sua imagem diante da classe média, Lula voltou-se para o eleitorado mais pobre, menos escolarizado e concentrado no Nordeste – a única região do país, aliás, onde ele vence José Serra com folga desde o primeiro turno. O eleitorado nordestino de Lula tem sido reforçado à base de investimentos importantes. "O governo fará uma refinaria em Pernambuco, a Ferrovia Transnordestina, a duplicação da BR-101, a transposição do Rio São Francisco, a exploração de petróleo na Paraíba. É uma série de boas notícias que reforça o prestígio do presidente na região", analisa o deputado Eduardo Campos, do PSB de Pernambuco, ex-ministro da Ciência e Tecnologia. Além disso, em seu governo, para agradar ao eleitorado mais humilde, Lula congelou o preço do gás de cozinha e reduziu os impostos dos produtos da cesta básica, duas medidas de alto impacto para as camadas de menor renda, e acaba de anunciar com barulho que o novo salário mínimo será de 350 reais, sofrendo assim um aumento real de 13% – o maior dos últimos dez anos.

Os acenos para o eleitor pobre não param. Na semana passada, numa solenidade em Brasília, Lula anunciou um pacote de incentivo à moradia popular, liberando recursos para a casa própria e reduzindo impostos sobre material de construção. O anúncio do pacote, realizado no Palácio do Planalto, foi acompanhado por uma claque que gritava: "Lula de novo, moradia para o povo!". Estima-se que, com as isenções tributárias, a construção de um "puxadinho", sonho de consumo das parcelas mais humildes da população, possa ficar entre 15% e 25% mais barata. Com uma paisagem social tão precária, é até saudável que um presidente-candidato seja tão sensível às necessidades dos pobres e se empenhe em contribuir para melhorar-lhes as condições de vida. Pena que, no caso de Lula, suas intenções eleitoreiras sejam tão evidentes, como se pode constatar pela fanfarra dos anúncios e pela cronologia das medidas, calculadamente concentradas no calendário de modo a produzir efeito nas pesquisas num ano eleitoral. Está dando certo.

"Lula é um líder com um traço popular e populista forte, que se comunica muito bem com as classes C, D e E, tanto pelo discurso quanto pelos projetos", analisa o filósofo Denis Lerrer Rosenfield, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A grande dúvida é saber se um candidato consegue eleger-se – e governar – sem contar com respaldo na elite e na classe média e sem ter, ainda por cima, maioria no Congresso Nacional, como sempre acontece nas eleições brasileiras. O passado político informa que isso é dificílimo. "Não há na história recente um presidente que tenha sido eleito sem forte apoio na classe média", diz o cientista político Rogério Schmitt, da Tendências Consultoria. "Caso o eleitorado de Lula se restrinja às camadas mais pobres, ele terá apoio suficiente para chegar ao segundo turno, mas dificilmente vencerá", aposta ele.

Mas, se conseguir vencer, com quem governará? Com as ruas, passando por cima do Congresso? "Há um sério risco de um Lula chavista, um líder populista e carismático dizendo que a direita não o deixa governar, que o Congresso é corrupto e defende as elites, promovendo uma verdadeira luta de classes, com conseqüências graves para a estabilidade econômica e institucional", avalia o filósofo Denis Rosenfield. O que talvez afaste esse risco é que a situação política do Brasil é bastante diferente do caso da Venezuela de Hugo Chávez. "O sistema político brasileiro não passa por um momento de crise tão grave e radical como o que o venezuelano enfrentou nos anos que antecederam a chegada de Chávez ao poder. Aqui a democracia está mais consolidada e a clivagem entre pobres e ricos não é tão radical", diz Rogério Schmitt. Para Lula, apoiar-se de forma tão pesada no eleitorado pobre talvez não seja uma boa estratégia, já que essa parcela da população é realmente numerosa mas é também a mais influenciável, que muda o voto com mais facilidade. Talvez por isso o governo esteja quebrando a cabeça para preparar medidas que soem como música aos ouvidos da classe média. É a eleição governando o país.

 
Rodrigo Paiva/AE
O prefeito José Serra, provável candidato
do PSDB: apoio maior entre os eleitores ricos

 
 
 
 
topovoltar