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Música O
último ato A gravação em
disco da ópera Tristão e Isolda, com Placido Domingo,
custou caro. E deverá ser a derradeira do gênero
 Sérgio
Martins Acaba
de ser lançado na Europa um disco que provavelmente entrará para
a história como a última gravação de uma ópera
em estúdio. Tristão e Isolda, obra-prima do compositor alemão
Richard Wagner (1813-1883), ganhou uma produção luxuosa, que consumiu
um investimento de 920.000 dólares da gravadora EMI. Mas só mesmo
a deferência em relação ao cantor lírico espanhol Placido
Domingo, um dos tenores mais famosos do mundo e o nome por trás do projeto,
explica a decisão da companhia de embarcar nessa aventura. Grandes gravações
de óperas em disco são, hoje, um atalho certo para o prejuízo.
As sessões de Tristão e Isolda ocorreram no lendário
estúdio Abbey Road, em Londres, e consumiram dois meses de trabalho. Além
de Domingo, o disco contou com o regente inglês Antonio Pappano, um talento
em ascensão, e com a orquestra e o coro da Royal Opera House. Mas, lançado
em 1º de agosto, Tristão e Isolda teve até agora uma
vendagem pífia: apenas 15.000 unidades. O CD chega ao mercado americano
nesta semana (ainda não há data para o lançamento no Brasil),
mas as previsões são pessimistas. Nas contas da revista inglesa
The Economist, a EMI necessitaria de cinqüenta anos para recuperar
a soma investida. As vendas de títulos de
música erudita em geral tiveram uma fase gorda nos anos 90, quando os consumidores
trocaram suas velhas bolachas de vinil pelos CDs. Nos últimos anos, contudo,
a recessão que se abateu sobre o mercado fonográfico atingiu em
cheio esse filão. Calcula-se que a venda de CDs eruditos tenha caído
19% nos últimos dez anos. Trata-se de um mercado restrito por natureza,
porque não tem grande apelo entre os jovens, os maiores consumidores de
discos. Além disso, foi prejudicado pela saída de cena dos regentes
que pertenciam à geração dos "supermaestros". O simples fato
de o nome do regente austríaco Herbert von Karajan (1908-1989) aparecer
num disco já garantia boas vendas ao selo Deutsche Grammophon a
ponto de ele gravar as sinfonias de Beethoven por seis vezes e todas elas renderem
lucros. No caso da ópera, as dificuldades são ainda maiores. Nem
todo fã de música clássica gosta do gênero. As gravações
também são muito mais caras elas requerem a presença
de cantores badalados, um maior número de ensaios e o envolvimento de orquestra,
coro e outros recursos. Hoje em dia, entre os regentes, somente nomões
como o argentino naturalizado israelense Daniel Barenboim e o russo Valery Gergiev
teriam cacife para gravar uma ópera em estúdio. Mas nem eles se
arriscam. Outro fator determinante na decadência
dos CDs de ópera foi o advento do mercado de DVDs. Uma obra de Wagner ou
Mozart dura em média de três a quatro horas. É mais interessante
assistir a uma produção desse tipo cujo atrativo está
não apenas na música, mas também no cenário e na interpretação
teatral num formato com som e imagem. A ironia é que, além
de mais atraente, o registro de uma ópera em DVD sai muito mais em conta
que uma gravação de disco em estúdio (veja
quadro). Para baratearem a produção, as principais casas
de ópera se associam a emissoras de TV e companhias de disco. As montagens
da Royal Opera House são produzidas em parceria com a BBC, por exemplo.
Placido Domingo encarou Tristão e Isolda
como o grande desafio de sua carreira. Uma das principais obras do repertório
de Wagner, ela exige do tenor um esforço sobre-humano no final do segundo
ato e no início do terceiro. Domingo fez quinze sessões de gravação
a fim de que seu Tristão ficasse irretocável. As críticas
são unânimes em apontar o desempenho do tenor como um dos melhores
de sua carreira. Se esse for realmente o último disco de ópera gravado
em estúdio, ao menos terá sido em grande estilo.
Por que não vale
a pena gravar óperas A gravação
em CD de Tristão e Isolda, com Placido Domingo, consumiu 920
000 dólares, e até o momento vendeu apenas 15 000 cópias.
Segundo a revista The Economist,
seriam necessários 50 anos para a gravadora recuperar o investimento.
Já o custo médio da montagem de uma
ópera de Richard Wagner é de 460 000 dólares, e o
gasto para transformá-la em DVD seria de 180 000 dólares.
Total: 640 000 dólares. Sua
venda estimada é bem maior: 50 000 cópias. |
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