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DVD Os
"Sopranos" do Oeste Ao mesmo tempo trágica
e brutal, a série Deadwood mostra as dores de uma nação
em nascimento 
Isabela Boscov
Ainda bem que o elenco de Deadwood
(Estados Unidos, 2004) é grande: a cada episódio, boa parte dele
fica pelo caminho no cemitério tosco no alto de uma colina, quando
a morte é pública, ou na criação de porcos da vila,
quando o caso é de dar sumiço no defunto. Repleta de sangue e profanidade,
essa série da HBO, cuja primeira temporada sai agora em DVD no país,
não é entretanto um exercício de imaginação
nem, muito menos, de violência gratuita. O acampamento de Deadwood, visto
aqui no momento de sua fundação, é um dos mais controvertidos
símbolos da marcha dos americanos pelo alargamento de seu país.
Estabelecido em 1876, quando foi encontrado ouro na região (hoje Dakota
do Sul), ele atraiu o público habitual desse tipo de apelo: prostitutas,
foragidos e aventureiros. A agravante é que Deadwood estava legalmente
fora dos Estados Unidos, em território consignado pelo governo aos índios
sioux. Não tinha portanto lei, nem mesmo a lei sumária do Oeste.
Figuras como o dono de saloon Al Swearengen (na série, o fantástico
Ian McShane), o pistoleiro Wild Bill Hickok (Keith Carradine) e o ex-xerife Seth
Bullock (Timothy Olyphant) enfrentavam-se na base da intimidação.
E ponha-se intimidação nisso.
Criada, escrita e supervisionada pelo produtor David Milch desde a série
Hill Street Blues conhecido como um homem capaz de imprimir poesia a diálogos
compostos dos piores palavrões e insultos , Deadwood é
um tipo diferente de faroeste. Aqui não há batalhas com índios
ou a amplidão das pradarias, mas apenas a claustrofobia das ruas enlameadas,
dos saloons de quinta categoria, como aquele em que Wild Bill foi assassinado
pelas costas, ou da tenda sórdida em que o médico "Doc" Cochran
(Brad Dourif), fugitivo de sete acusações de violação
de túmulos, atendia as vítimas de varíola tendo a pistoleira
Calamity Jane (Robin Weigert) como enfermeira. É exatamente nesta faceta
de Deadwood que Milch está interessado: a da miniatura de uma nação
em nascimento, lutando para moldar-se a partir do barro (o real e o metafórico)
e unindo os interesses de homens como o corrupto Al Swearengen e o violento mas
honrado ao menos para os padrões da época Seth Bullock,
que mais tarde seria amicíssimo do presidente Theodore Roosevelt.
Da mesma forma que Família Soprano,
a série de David Milch explora com maestria o formato consagrado pela HBO:
doze ou treze episódios por temporada, cada um com cerca de cinqüenta
minutos, sem intervalos e sem censura. Para os atores, roteiristas e diretores,
o efeito é o de realizar um filme, e não um programa de televisão.
Daí a coesão do script e dos desempenhos, e o extraordinário
controle do produtor sobre os ritmos do enredo. Deadwood choca o espectador
num minuto e, sem perder o passo, parte seu coração no momento seguinte
com a tragédia de seus personagens. Não é uma revolução
do western, como se tem apregoado. Mas é, sim, a melhor coisa no gênero
desde Os Imperdoáveis. |