Edição 1922 . 14 de setembro de 2005

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DVD
Os "Sopranos" do Oeste

Ao mesmo tempo trágica e brutal,
a série Deadwood mostra as dores
de uma nação em nascimento


Isabela Boscov

DA INTERNET
Trailer do seriado

Ainda bem que o elenco de Deadwood (Estados Unidos, 2004) é grande: a cada episódio, boa parte dele fica pelo caminho – no cemitério tosco no alto de uma colina, quando a morte é pública, ou na criação de porcos da vila, quando o caso é de dar sumiço no defunto. Repleta de sangue e profanidade, essa série da HBO, cuja primeira temporada sai agora em DVD no país, não é entretanto um exercício de imaginação nem, muito menos, de violência gratuita. O acampamento de Deadwood, visto aqui no momento de sua fundação, é um dos mais controvertidos símbolos da marcha dos americanos pelo alargamento de seu país. Estabelecido em 1876, quando foi encontrado ouro na região (hoje Dakota do Sul), ele atraiu o público habitual desse tipo de apelo: prostitutas, foragidos e aventureiros. A agravante é que Deadwood estava legalmente fora dos Estados Unidos, em território consignado pelo governo aos índios sioux. Não tinha portanto lei, nem mesmo a lei sumária do Oeste. Figuras como o dono de saloon Al Swearengen (na série, o fantástico Ian McShane), o pistoleiro Wild Bill Hickok (Keith Carradine) e o ex-xerife Seth Bullock (Timothy Olyphant) enfrentavam-se na base da intimidação. E ponha-se intimidação nisso.

Criada, escrita e supervisionada pelo produtor David Milch – desde a série Hill Street Blues conhecido como um homem capaz de imprimir poesia a diálogos compostos dos piores palavrões e insultos –, Deadwood é um tipo diferente de faroeste. Aqui não há batalhas com índios ou a amplidão das pradarias, mas apenas a claustrofobia das ruas enlameadas, dos saloons de quinta categoria, como aquele em que Wild Bill foi assassinado pelas costas, ou da tenda sórdida em que o médico "Doc" Cochran (Brad Dourif), fugitivo de sete acusações de violação de túmulos, atendia as vítimas de varíola tendo a pistoleira Calamity Jane (Robin Weigert) como enfermeira. É exatamente nesta faceta de Deadwood que Milch está interessado: a da miniatura de uma nação em nascimento, lutando para moldar-se a partir do barro (o real e o metafórico) e unindo os interesses de homens como o corrupto Al Swearengen e o violento mas honrado – ao menos para os padrões da época – Seth Bullock, que mais tarde seria amicíssimo do presidente Theodore Roosevelt.

Da mesma forma que Família Soprano, a série de David Milch explora com maestria o formato consagrado pela HBO: doze ou treze episódios por temporada, cada um com cerca de cinqüenta minutos, sem intervalos – e sem censura. Para os atores, roteiristas e diretores, o efeito é o de realizar um filme, e não um programa de televisão. Daí a coesão do script e dos desempenhos, e o extraordinário controle do produtor sobre os ritmos do enredo. Deadwood choca o espectador num minuto e, sem perder o passo, parte seu coração no momento seguinte com a tragédia de seus personagens. Não é uma revolução do western, como se tem apregoado. Mas é, sim, a melhor coisa no gênero desde Os Imperdoáveis.

 
 
 
 
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