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Cinema Um
filme que decola Com o enxuto Vôo Noturno,
Wes Craven prova que o cinema caça-níqueis pode valer o que
custa 
Isabela Boscov
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| Murphy e Rachel: o passageiro dos sonhos – os bons e os ruins
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Voltando do Texas para Miami, Liza
(Rachel McAdams) experimenta tanto o sonho como o pesadelo de quem viaja sozinho
num avião ter a seu lado um estranho charmoso e interessante, e
dividir o assento com um sujeito dos mais inconvenientes. Ambos, porém,
são uma só pessoa. Jackson (Cillian Murphy) é um exemplo
de bons modos: aparta uma briga na fila do check-in, paga um drinque para Liza
e ajuda outra passageira a guardar a bagagem pesada. Completada a decolagem, a
coisa muda de figura. O que ele quer é que Liza telefone para o hotel do
qual é gerente e ordene que determinado político seja transferido
de sua suíte habitual para outra, onde ele se transformará em alvo
de um atentado. Se recusar, Liza, que acabou de vir do enterro da avó,
vai perder também o pai, que está sob a mira de um comparsa de Jackson.
É da medição de forças entre Jackson e Liza, e só
dela, que Vôo Noturno (Red Eye, Estados Unidos, 2005), desde
sexta-feira em cartaz no país, trata mas o faz com tanta habilidade
e concentração que, a despeito dessa premissa limitada, garante
atenção total da platéia durante todos os seus enxutos 85
minutos de duração.
Não é pouco, considerando-se o atual estado de mesmice do cinema
comercial americano. E os méritos cabem todos a Wes Craven, criador da
série A Hora do Pesadelo. Craven está longe de ser um diretor
à prova de falhas, como atesta o recente e medíocre Amaldiçoados.
Mas, quando consegue tomar o pulso de um filme, não o larga mais. Trabalhando
em parceria com um único roteirista (caso raro hoje em dia, em que os filmes
são mal escritos por verdadeiros comitês), ele apara
toda a gordura de Vôo Noturno, até reduzi-lo ao mais essencial:
o antagonismo entre os dois personagens, explorado ora em planos fechados, ora
no contexto do confinamento de uma aeronave em turbulência. Não falta
humor também a Craven: quase matando-se dentro do banheiro do avião,
Liza e Jackson são tomados, pela aeromoça, por um casal animado
demais. Não se levar a sério eis a primeira e melhor regra
do bom cinema caça-níqueis. |