Edição 1922 . 14 de setembro de 2005

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Cinema
Um filme que decola

Com o enxuto Vôo Noturno,
Wes Craven prova que o cinema
caça-níqueis pode valer o que custa


Isabela Boscov


Murphy e Rachel: o passageiro dos sonhos – os bons e os ruins

DA INTERNET
Trailer do filme

Voltando do Texas para Miami, Liza (Rachel McAdams) experimenta tanto o sonho como o pesadelo de quem viaja sozinho num avião – ter a seu lado um estranho charmoso e interessante, e dividir o assento com um sujeito dos mais inconvenientes. Ambos, porém, são uma só pessoa. Jackson (Cillian Murphy) é um exemplo de bons modos: aparta uma briga na fila do check-in, paga um drinque para Liza e ajuda outra passageira a guardar a bagagem pesada. Completada a decolagem, a coisa muda de figura. O que ele quer é que Liza telefone para o hotel do qual é gerente e ordene que determinado político seja transferido de sua suíte habitual para outra, onde ele se transformará em alvo de um atentado. Se recusar, Liza, que acabou de vir do enterro da avó, vai perder também o pai, que está sob a mira de um comparsa de Jackson. É da medição de forças entre Jackson e Liza, e só dela, que Vôo Noturno (Red Eye, Estados Unidos, 2005), desde sexta-feira em cartaz no país, trata – mas o faz com tanta habilidade e concentração que, a despeito dessa premissa limitada, garante atenção total da platéia durante todos os seus enxutos 85 minutos de duração.

Não é pouco, considerando-se o atual estado de mesmice do cinema comercial americano. E os méritos cabem todos a Wes Craven, criador da série A Hora do Pesadelo. Craven está longe de ser um diretor à prova de falhas, como atesta o recente e medíocre Amaldiçoados. Mas, quando consegue tomar o pulso de um filme, não o larga mais. Trabalhando em parceria com um único roteirista (caso raro hoje em dia, em que os filmes são – mal – escritos por verdadeiros comitês), ele apara toda a gordura de Vôo Noturno, até reduzi-lo ao mais essencial: o antagonismo entre os dois personagens, explorado ora em planos fechados, ora no contexto do confinamento de uma aeronave em turbulência. Não falta humor também a Craven: quase matando-se dentro do banheiro do avião, Liza e Jackson são tomados, pela aeromoça, por um casal animado demais. Não se levar a sério – eis a primeira e melhor regra do bom cinema caça-níqueis.

 
 
 
 
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