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Televisão
A rainha da cocada
Latoya, a negra inconformada com
sua negritude, garante a diversão
e a polêmica em A Lua Me Disse

Ricardo Valladares
Divulgação

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"Sua vagabunda" e "você
tem uma cara boa de bater" são algumas das frases nada carinhosas
que a atriz Zezeh Barbosa tem ouvido na rua por causa de sua personagem
Latoya, da novela A Lua Me Disse. Latoya é uma vilã
contumaz: despejou a mãe de casa, despediu a irmã
e virou laranja num esquema de corrupção. "Ela é
como muitos brasileiros: quer se dar bem sem trabalhar", diz Miguel
Falabella, que escreve a novela das 7 da Rede Globo em parceria
com Maria Carmem Barbosa. Os xingamentos atestam que só a
popular Dona Roma, vivida pelo ator Miguel Magno, é páreo
para o sucesso de Zezeh no horário. "Nunca fui tão
reconhecida", diz ela. Mas a característica que mais chama
atenção na personagem é que ela abomina ser
negra. Latoya (que assim se batizou em homenagem à irmã
de Michael Jackson, a reformadíssima La Toya Jackson) se
intitula afro-americana, alisa e clareia os cabelos e dorme com
um pregador de roupa no nariz para afiná-lo. Sua incontinência
verbal não tem limites: Latoya nunca perde a chance de desmerecer
os negros. Até dois meses atrás, ela tinha como cúmplice
em suas maldades a irmã Whitney (essa em tributo à
esganiçada Whitney Houston), interpretada por Mary Sheila.
Whitney, porém (só a da novela), está a caminho
da redenção.
O nome verdadeiro de Latoya é
Anastácia. "Mas isso é nome de escrava, e meu objetivo
não é a senzala. Eu estou a fim é da casa-grande",
explicou a personagem. As tiradas de Latoya causam polêmica
no movimento negro. "Precisamos ser representados por personagens
positivos, e essa é muito negativa", diz o militante paulista
Daniel Teixeira. Há que reconhecer, no entanto, que Latoya
encarna vários aspectos reais, ainda que desanimadores, da
população negra brasileira e fingir que gente
como ela não existe é hipocrisia. Até o momento,
felizmente, Latoya não foi vítima de nenhuma patrulha
politicamente correta, como já ocorreu com outros personagens
de A Lua Me Disse. Há duas semanas, os autores da
novela levaram um pito do Ministério Público por causa
dos esculachos sofridos por Índia representada por
uma descendente de nambiquaras. Já o homossexual interpretado
por Agildo Ribeiro foi eliminado por causa das reclamações
de grupos gays, que o consideravam caricato. "Bobagem dessa gente
que não entende que esse tipo de homossexual existe. Eu conheço
vários", diz Falabella. Na semana que vem, terá início
o inevitável castigo de Latoya, que está envolvida
numa CPI e com ordem de prisão decretada. Se depender do
autor, ela fugirá para o Nordeste para trabalhar num circo
como mulher-macaca. "Ela vai pagar mico. Ficará di-vi-na
de peruca black power", diverte-se Falabella.
Filha de uma dona-de-casa e um
serralheiro, a atriz Zezeh Barbosa cresceu com treze irmãos
em Osasco, na Grande São Paulo. Aos 17 anos (ela diz hoje
que tem "mais de 30"), saiu de casa para estudar arte dramática,
bancando-se como operadora de telemarketing e atendente de cantina.
Em 1996, Falabella viu seu desempenho no teatro e a chamou para
atuar na novela Salsa e Merengue. Casada e mãe de
um filho de 11 anos, ela dá de ombros para as acusações
contra Latoya até porque sabe o que é racismo
de verdade. "Nunca me chamam para fazer comercial. Negro só
aparece em propaganda lá no fundo", diz.
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O Tirésias de meia-tigela
Divulgação
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| Frota, como Jatobá: se conselho
fosse bom... |
Se A Lua Me Disse tem a atuação
impagável de Zezeh Barbosa como a politicamente
incorreta Latoya, América oferece um contraponto:
o desempenho sofrível de Marcos Frota no papel
do politicamente correto Jatobá. O personagem
é uma versão de quinta categoria de Tirésias,
o oráculo cego da mitologia grega: só
se comunica por meio de frases de auto-ajuda. Jatobá
já distribuiu lições do tipo "você
deve ser você mesmo" e "a gente precisa amar o
próximo" em quase todos os núcleos da
novela das 8. Na semana passada, foi a vez de o chato
de galochas "abrir os olhos" de Júnior (Bruno
Gagliasso), o gay indeciso da cidade fictícia
de Boiadeiros. Diante dessa cabeça confusa, Jatobá
saiu-se com mais um conselho idiota: "Cuidado com suas
escolhas. Você pode se arrepender depois".
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