Edição 1922 . 14 de setembro de 2005

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Livros
O que sobrou de Sartre?

Muito pouco. Superado como pensador
e enterrado como ideólogo, é na
literatura que o francês sobrevive


Rinaldo Gama

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Trechos dos livros
Diário de uma Guerra Estranha
As Moscas
O Seqüestrado de Veneza

Em 1960, o Brasil mergulhou no que a imprensa classificou de uma verdadeira histeria – tudo por causa da visita do filósofo e escritor francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), nome de proa do existencialismo, a corrente filosófica da moda no pós-guerra. Por onde passava, o visitante provocava frenesi. Consta que, na única semana em que permaneceu na capital paulista, os jornais lhe dedicaram cerca de 250 artigos. Na televisão, ele permaneceu no ar durante três horas seguidas. Mas, como ocorre muitas vezes também com relação aos astros do rock e de Hollywood que se aventuram abaixo da linha do Equador, Sartre já andava com o prestígio reduzido quando veio ao Brasil. O motivo foi a sua insistência em defender, até o último momento, o comunismo soviético – quando já estava mais do que óbvio que o regime bolchevique era um logro ideológico e uma violência contra os direitos humanos mais básicos. Um pecado mortal para o pensador que fez da liberdade um dos temas centrais de sua obra.

O legado de Sartre vem sendo discutido em razão do centenário de seu nascimento e dos 25 anos de sua morte. No Brasil, há mais munição nas livrarias para isso, com o lançamento de uma edição ampliada do Diário de uma Guerra Estranha (tradução de Aulyde Soares Rodrigues e Guilherme João de Freitas Teixeira; Nova Fronteira; 688 páginas; 75 reais), de As Moscas (tradução de Caio Liudvik; Nova Fronteira; 144 páginas; 23 reais), peça teatral que marcou a estréia do autor no gênero, e de O Seqüestrado de Veneza (tradução de Eloisa Araújo Ribeiro; Cosac Naify; 102 páginas; 38 reais), volume com reflexões sobre a antiga cidade dos doges e um estudo a respeito do pintor veneziano Jacopo Robusti, o Tintoretto.

Lançado originalmente em 1983, Diário compilava cinco dos quinze cadernos escritos pelo autor – os outros eram dados como perdidos – entre setembro de 1939 e março de 1940, quando, convocado pelo Exército francês, trabalhou no serviço meteorológico na Alsácia. Em 1991, um outro caderno foi descoberto e incorporado ao livro. Nesse diário, a II Guerra ainda é uma realidade distante – Sartre porém não demoraria a sentir seus efeitos, ao ser preso pelos nazistas. Escapou em 1941, para se engajar na Resistência. As Moscas, de 1943, faz uso de um mito grego – o assassinato de Clitemnestra por seu filho Orestes – para criar uma alegoria da França ocupada pelos alemães.

Os dois ensaios reunidos em O Seqüestrado são de um período posterior. Veneza, de Minha Janela saiu na revista Verve em 1953. O texto sobre Tintoretto veio a público em 1957, na revista Les Temps Modernes. Esse periódico, do qual Sartre foi um dos fundadores, em 1945, marcou o início de sua investida nos meios de comunicação. Convencido de que os intelectuais deveriam "invadi-los", ele teve até um programa de rádio. É uma pena que haja colocado sua voz a serviço das piores causas. Sartre defendeu o comunismo com vistas mais do que grossas, a ponto de dizer que na União Soviética não existia censura. Em 1956, para salvar sua pele de intelectual, condenou Moscou pela invasão da Hungria. Muito bonito – não tivesse ele se posto, em 1968, a serviço da tirania maoísta. As famosas fotos em que o filósofo aparece nas ruas de Paris vendendo um jornal com a estampa de Mao Tsé-tung não são apenas constrangedoras: são vergonhosas. Por sua defesa de idéias e regimes indefensáveis, o pensador Sartre, que em seu tempo foi um pop star da filosofia, hoje é um desses anacronismos que só uns poucos intelectuais brasileiros ainda sustentam. No entanto, Sartre também foi um prosador com talento acurado para examinar o vazio da existência, no romance A Náusea, ou seu absurdo, no conto O Muro. O escritor, apesar de tudo, sobreviveu.

 

Balanço final

O pensamento de Sartre ficou comprometido,
mas parte de sua ficção resiste

O QUE FOI SUPERADO

Crítica da Razão Dialética – A tentativa de conjugar marxismo e existencialismo não vingou. O marxismo foi enterrado com a queda do comunismo soviético, e o existencialismo revelou-se uma moda filosófica passageira

O que É a Literatura? – Ninguém mais acredita no engajamento proposto nesse ensaio: o empenho político de um autor só limita sua liberdade criativa

Os Caminhos da Liberdade – A trilogia de romances ficou tão datada quanto o pensamento do autor

 

O QUE FICOU

A Náusea – Essa história de angústia existencial é o romance mais envolvente do autor

O Muro – A coletânea tem contos admiráveis, como o do título e A Infância de um Chefe, e uma prosa que ainda hoje se destaca na produção contemporânea

Entre Quatro Paredes – É nessa peça – um dos maiores textos dramáticos da literatura francesa moderna – que se ouve a mais célebre frase sartriana: "O inferno são os outros"

 
 
 
 
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