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Livros O
que sobrou de Sartre? Muito pouco.
Superado como pensador e enterrado como ideólogo, é na literatura
que o francês sobrevive  Rinaldo
Gama
Em 1960, o Brasil mergulhou no que
a imprensa classificou de uma verdadeira histeria tudo por causa da visita
do filósofo e escritor francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), nome
de proa do existencialismo, a corrente filosófica da moda no pós-guerra.
Por onde passava, o visitante provocava frenesi. Consta que, na única semana
em que permaneceu na capital paulista, os jornais lhe dedicaram cerca de 250 artigos.
Na televisão, ele permaneceu no ar durante três horas seguidas. Mas,
como ocorre muitas vezes também com relação aos astros do
rock e de Hollywood que se aventuram abaixo da linha do Equador, Sartre já
andava com o prestígio reduzido quando veio ao Brasil. O motivo foi a sua
insistência em defender, até o último momento, o comunismo
soviético quando já estava mais do que óbvio que o
regime bolchevique era um logro ideológico e uma violência contra
os direitos humanos mais básicos. Um pecado mortal para o pensador que
fez da liberdade um dos temas centrais de sua obra.
O legado de Sartre vem sendo discutido em razão do centenário de
seu nascimento e dos 25 anos de sua morte. No Brasil, há mais munição
nas livrarias para isso, com o lançamento de uma edição ampliada
do Diário de uma Guerra Estranha (tradução
de Aulyde Soares Rodrigues e Guilherme João de Freitas Teixeira; Nova Fronteira;
688 páginas; 75 reais), de As Moscas (tradução
de Caio Liudvik; Nova Fronteira; 144 páginas; 23 reais), peça teatral
que marcou a estréia do autor no gênero, e de O Seqüestrado
de Veneza (tradução de Eloisa Araújo Ribeiro; Cosac
Naify; 102 páginas; 38 reais), volume com reflexões sobre a antiga
cidade dos doges e um estudo a respeito do pintor veneziano Jacopo Robusti, o
Tintoretto. Lançado originalmente
em 1983, Diário compilava cinco dos quinze cadernos escritos pelo
autor os outros eram dados como perdidos entre setembro de 1939
e março de 1940, quando, convocado pelo Exército francês,
trabalhou no serviço meteorológico na Alsácia. Em 1991, um
outro caderno foi descoberto e incorporado ao livro. Nesse diário, a II
Guerra ainda é uma realidade distante Sartre porém não
demoraria a sentir seus efeitos, ao ser preso pelos nazistas. Escapou em 1941,
para se engajar na Resistência. As Moscas, de 1943, faz uso de um
mito grego o assassinato de Clitemnestra por seu filho Orestes para
criar uma alegoria da França ocupada pelos alemães.
Os dois ensaios reunidos em O Seqüestrado são de um período
posterior. Veneza, de Minha Janela saiu na revista Verve em 1953.
O texto sobre Tintoretto veio a público em 1957, na revista Les Temps
Modernes. Esse periódico, do qual Sartre foi um dos fundadores, em
1945, marcou o início de sua investida nos meios de comunicação.
Convencido de que os intelectuais deveriam "invadi-los", ele teve até um
programa de rádio. É uma pena que haja colocado sua voz a serviço
das piores causas. Sartre defendeu o comunismo com vistas mais do que grossas,
a ponto de dizer que na União Soviética não existia censura.
Em 1956, para salvar sua pele de intelectual, condenou Moscou pela invasão
da Hungria. Muito bonito não tivesse ele se posto, em 1968, a serviço
da tirania maoísta. As famosas fotos em que o filósofo aparece nas
ruas de Paris vendendo um jornal com a estampa de Mao Tsé-tung não
são apenas constrangedoras: são vergonhosas. Por sua defesa de idéias
e regimes indefensáveis, o pensador Sartre, que em seu tempo foi um pop
star da filosofia, hoje é um desses anacronismos que só uns poucos
intelectuais brasileiros ainda sustentam. No entanto, Sartre também foi
um prosador com talento acurado para examinar o vazio da existência, no
romance A Náusea, ou seu absurdo, no conto O Muro. O escritor,
apesar de tudo, sobreviveu.
Balanço final
O pensamento de Sartre ficou comprometido, mas parte de sua ficção
resiste O QUE FOI SUPERADO
Crítica da Razão Dialética
A tentativa de conjugar marxismo e existencialismo não vingou.
O marxismo foi enterrado com a queda do comunismo soviético, e o existencialismo
revelou-se uma moda filosófica passageira O
que É a Literatura? Ninguém mais acredita no engajamento
proposto nesse ensaio: o empenho político de um autor só limita
sua liberdade criativa Os Caminhos
da Liberdade A trilogia de romances ficou tão datada quanto
o pensamento do autor O
QUE FICOU A Náusea Essa
história de angústia existencial é o romance mais envolvente
do autor O Muro A coletânea
tem contos admiráveis, como o do título e A Infância de
um Chefe, e uma prosa que ainda hoje se destaca na produção
contemporânea Entre Quatro
Paredes É nessa peça um dos maiores textos dramáticos
da literatura francesa moderna que se ouve a mais célebre frase
sartriana: "O inferno são os outros" | |
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