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Livros A
literatura segundo Darwin A biologia
evolutiva agora também serve para analisar livros
 Jerônimo
Teixeira A biologia é hoje a mais
expansiva das ciências. A psicologia evolutiva, disciplina biológica
que busca explicar o comportamento humano a partir da teoria da evolução
de Charles Darwin, tem disputado espaço com a antropologia, a sociologia,
a psicanálise. E agora tem entrada até nos estudos literários.
Críticos como Brian Boyd, da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia
conhecido por uma respeitada biografia do escritor russo Vladimir Nabokov
, e Joseph Carroll, da Universidade de St. Louis, nos Estados Unidos, já
se converteram às hordas darwinistas. Ao lado de alguns densos livros acadêmicos,
a crítica biológica também conta com uma divertida obra de
divulgação para o leigo: Madame Bovary's Ovaries (em português,
Os Ovários de Madame Bovary), lançado há pouco nos Estados
Unidos pelos biólogos David e Nanelle Barash, pai e filha. Como bons darwinistas,
os Barash ressaltam a continuidade entre o homem (no caso, os personagens literários)
e as demais espécies animais todos sujeitos ao imperativo de propagar
seus genes por meio da reprodução. Portanto, a competitividade sexual
dos elefantes-marinhos teria algo a ensinar sobre o ciúme de Otelo, e o
adultério de Emma Bovary não seria diferente da promiscuidade de
um melro fêmea. Se o trágico
personagem de William Shakespeare sucumbe ao ciúme e esgoela sua inocente
esposa, Desdêmona, é porque foi dominado pela insegurança
biológica própria de seu gênero. Tão competitivo quanto
um leão-marinho, Otelo sabe que todos os machos a seu redor estão
de olho na sua jovem mulher, que, afinal, é dotada de belos atributos genéticos.
O ciúme, em suma, é um dado natural. Para um vilão como Iago,
nada mais fácil que usá-lo para manipular o pobre Otelo. As razões
do adultério feminino ainda são motivo de discussão entre
psicólogos evolutivos. Mas, no caso célebre de Madame Bovary,
de Gustave Flaubert, está claro que a protagonista busca amantes mais atraentes
(e ricos) do que o chocho Charles Bovary. Homens atraentes têm os genes
necessários para produzir filhos atraentes, o que aumenta as chances de
Emma Bovary passar a sua própria carga genética adiante (não
vem ao caso que o objetivo imediato da adúltera não seja ter filhos:
embora desprezem Freud, os darwinistas acreditam, sim, no inconsciente). A escolha
do parceiro ideal, no casamento ou fora dele, é uma questão biológica
fundamental. Detentora do recurso natural mais valioso, o óvulo, em geral
é a mulher que exerce a prerrogativa de escolher o parceiro um princípio
que é ilustrado de forma admirável pelas heroínas casamenteiras
e delicadamente calculistas dos romances da inglesa Jane Austen.
Para que uma crítica darwinista seja realmente possível, ainda há
questões básicas a responder. Nem sequer se sabe qual é a
função da arte e da literatura na evolução humana.
O cientista canadense Steven Pinker, estrela da psicologia evolutiva, sugere que
a arte não é muito diferente de uma boa fatia de cheesecake
apenas uma forma concentrada de estimular os centros de prazer do cérebro
humano. O crítico Joseph Carroll discorda. A imaginação literária,
diz ele, seria essencial para a perfeita adaptação do ser humano
ao mundo. De qualquer modo, a biologia não oferece (e nunca oferecerá)
critérios para distinguir uma obra clássica de uma efêmera
os mecanismos por ela descritos funcionam tanto em Shakespeare quanto em
livros menores como O Poderoso Chefão, de Mario Puzo, utilizado
pelos Barash para ilustrar as vantagens genéticas de proteger a própria
família. A literatura confirma conceitos científicos? Sim, mas bons
livros também servem para validar teses históricas, econômicas,
sociológicas. É a literatura que ainda tem muito a dizer sobre a
biologia, e não o contrário.
TRAIÇÃO IRRESISTÍVEL
Madame Bovary, de Gustave Flaubert, é a adúltera
mais famosa da literatura. Seu marido é um homem confiável e doméstico.
Para a crítica darwinista, ela sai em busca de homens poderosos e sexualmente
atraentes porque em geral eles têm os melhores genes
AS MULHERES MANDAM O
grande tema dos romances de Jane Austen como Razão e Sensibilidade
é a busca do marido ideal. Segundo a psicologia evolutiva, de fato
é a mulher, e não o homem, que escolhe o parceiro, já que
ela detém o recurso biológico mais valioso: o óvulo NEPOTISMO
GENÉTICO Os mafiosos da família Corleone,
de O Poderoso Chefão, de Mario Puzo, ilustram um princípio
da biologia moderna: favorecer um parente compensa, pois um irmão ou primo
vai passar às próximas gerações genes muito parecidos
aos seus CIUMENTO POR NATUREZA Na
tragédia de Shakespeare, o ciumento Otelo mata sua mulher, Desdêmona.
A ciência confirma que, como o personagem, os animais machos são
sexualmente competitivos e inseguros uma traição de sua parceira
poderia levá-lo a criar o filho de outro homem | |
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