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Saúde O
consultório da internet Os sites
com informações sobre doenças e tratamentos estão
mudando a relação entre médicos e pacientes
 Anna
Paula Buchalla Fotos
Fabiano Accorsi
 | "Já
atendi uma paciente em pânico depois de ter visto na internet casos escabrosos
de pessoas com o mesmo problema que o dela. Algumas notícias geram um medo
muito grande e desnecessário. É preocupante quando o paciente começa
a ter muita informação, mas pouca capacidade de absorção
de tudo o que lê. Ainda assim, pesando na balança, a internet foi
um grande ganho para médicos e pacientes." Geraldo
Medeiros, endocrinologista |
Diálogos
como o que se segue ocorrem com freqüência cada vez maior nos consultórios
médicos: Doutor, existe
um novo remédio para o meu problema. Pelo que mostram os estudos clínicos,
os efeitos colaterais são bem menores e ele é mais potente do que
aquele que eu tomo. O senhor já ouviu falar a respeito?
O médico responde: Não,
mas vou me inteirar. Por enquanto, vamos manter o tratamento em curso, está
bem? Há
um novo paciente nas salas de consulta. Municiado de informações
que recolhe na internet, principalmente, ele faz uma tonelada de perguntas sobre
sua doença, arrisca sugerir remédios e exames e, no limite, até
coloca em dúvida o tratamento prescrito pelo especialista. A título
de comparação, é como se tivesse deixado de agir feito criança,
quando aceitava resignado as decisões do seu médico, e começado
a atuar como um adolescente questionador, cujas perguntas muitas vezes são
embaraçosas para o profissional que está do outro lado do estetoscópio.
É uma mudança e tanto na relação médico-paciente
e incancelável, visto que a internet se tornou um enorme consultório
informal. Um levantamento da empresa de consultoria americana Pew Internet &
American Life Project mostra que oito em cada dez usuários da rede já
acessaram sites de informações médicas. No Brasil, calcula-se
que mais de 10 milhões de internautas o façam com regularidade.
As buscas por dados sobre doenças específicas são as mais
numerosas, seguidas por aquelas que se referem a tratamentos e notícias
de dieta e nutrição (veja
quadro). Antes de marcar consulta com um especialista, e também
depois de ter recebido o diagnóstico, lá está o internauta
imprimindo páginas e mais páginas sobre tudo o que leu e aprendeu
a respeito de sua doença e suas possíveis terapias. Se isso é
bom ou ruim? A experiência tem mostrado que aprender sobre a própria
doença é uma forma de fazer as perguntas certas na hora certa e
ajudar o médico a tomar decisões. "Um paciente bem informado só
ajuda. Inclusive porque o médico se vê obrigado a manter-se atualizado
sobre o que acontece nos grandes centros de saúde", diz o cardiologista
Protásio Lemos da Luz, autor do livro Nem Só de Ciência
Se Faz a Cura O que os Pacientes Me Ensinaram.  | "Como
minha filha tem uma doença rara, que pouca gente conhece, muitas das informações
que tenho hoje devo a pesquisas na internet. Já tive de explicar a um médico
que a doença de Amani não era um quadro de inflamação
muscular mais freqüente em idosos, mas sim uma fibrodisplasia ossificante
progressiva. Ele, obviamente, não gostou. Até hoje esbarro em profissionais
que fazem cara feia todas as vezes em que mostro meus conhecimentos sobre o assunto.
Por força da situação, virei quase uma especialista."
Odilia Neiva Spinola, psicóloga, e a filha Amani |
O perigo está no fato de que existe um sem-número de dados errados
sobre doenças circulando pela internet. A demanda por informações
médicas levou a uma proliferação de sites e vários
deles, quando não estão equivocados, são imprecisos ou alarmistas.
"Não raro, meias verdades podem ser piores do que qualquer mentira", diz
o endocrinologista Geraldo Medeiros. Quem digita no buscador Google o termo "health
information" (informação sobre saúde, em inglês,
idioma em que a oferta de opções é maior) depara com dezenas
de milhões de endereços eletrônicos. Boa parte desse universo
é composta de muita bobagem. Para ajudar o leitor a não se perder
nessa selva, VEJA preparou, com o auxílio de profissionais, uma lista de
sites internacionais e nacionais em que se pode confiar (veja
quadro). Antes
de se tornar um ramo da ciência, a medicina pertencia à esfera da
magia. Nas sociedades primitivas, a cura das doenças era uma atribuição
de feiticeiros e sacerdotes. Os séculos correram, a medicina desenvolveu-se,
mas a aura de detentores de um conhecimento secreto continuou a envolver os doutores.
É natural, portanto, que pacientes que desejam uma maior interlocução
ainda causem certo desconforto. E esse desconforto, evidentemente, se transforma
em total constrangimento quando um médico é pego de calças
curtas situação nada incomum hoje em dia. "Já tive
de explicar a um fisiatra que a doença de minha filha não era miosite,
como ele pensava, um quadro de inflamação muscular mais freqüente
em idosos, e sim uma doença rara chamada fibrodisplasia ossificante progressiva",
conta a psicóloga Odilia Neiva Spinola. "Ele, obviamente, não gostou
e arriscou dizer que não era bem isso. No final, porém, teve de
reconhecer que eu estava certa." Há cerca de três anos, a filha de
Odilia Amani, de 10 anos começou a apresentar dificuldades
para realizar certos movimentos, como esticar os braços. Alguns de seus
músculos pareciam duros como ossos. Odilia ouviu vários diagnósticos,
sem obter um dado preciso sobre a doença da filha. Insatisfeita com as
informações dúbias, ela vasculhou a internet, entrou no site
da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e acabou num fórum
de discussões, em que descreveu o quadro de sua filha. Um mês depois,
recebeu o telefonema de uma médica, oferecendo-lhe ajuda. Atualmente, Amani
está sob tratamento. Mas sua mãe permanece esbarrando em profissionais
que fazem cara feia todas as vezes em que ela desfia seus conhecimentos sobre
o assunto. "Virei quase uma especialista", diz Odilia.
Nesse cenário proporcionado por pacientes abastecidos pela internet, as
consultas ganharam mais tempo. Segundo os médicos ouvidos por VEJA, cerca
de metade de uma consulta é gasta agora para esclarecer dúvidas
trazidas pelos clientes. O problema é que, mesmo quando reúnem dados
corretos, nem sempre eles dispõem de repertório suficiente para
digeri-los. "Para convencer um paciente de que a informação que
ele traz não deve ser interpretada daquela maneira, gasta-se mais tempo
do que se leva para simplesmente tirar suas dúvidas", afirma o especialista
em reprodução humana Edson Borges Júnior. O endocrinologista
Geraldo Medeiros também põe o dedo nessa ferida. "É preocupante
quando o paciente começa a ter muita informação, mas pouca
capacidade de absorção de tudo o que lê", diz ele.  | "O
médico não é mais um deus impositivo que decide o que quer
e acabou. Além disso, hoje ele tem de estar mais atualizado do que nunca
para atender à expectativa de seus pacientes. Não tem como não
ser assim na era da internet. O saldo positivo disso tudo é que médicos
que não estavam habituados a conversar detalhadamente com seus pacientes
estão tendo de mudar de atitude. A relação médico-paciente
é uma coisa muito séria e só se sustenta quando há
confiança mútua." David
Uip, infectologista |
A exigência dos pacientes de uma troca mais intensa de informações
com seus médicos está levando a que seja revisto o modelo segundo
o qual o especialista simplesmente pede uma batelada de exames, sem que o cliente
seja esclarecido sobre os propósitos dos procedimentos prescritos. Médicos
que se comportam dessa forma podem ser acusados de má prática. Em
países do Primeiro Mundo, os processos desse tipo calcados nas falhas de
comunicação dos médicos já representam cerca de 70%
das ações contra eles. No entanto, apesar de todos os avanços
e da ameaça jurídica, a resistência à mudança
permanece forte. Um estudo recente publicado no The Journal of the American
Medical Association, o Jama, respeitada publicação científica
americana, constatou que 72% dos médicos americanos interrompem a fala
do paciente depois de apenas 23 segundos, em média. É bom ressaltar,
contudo, que, assim como existem médicos pouco dispostos a ouvir e conversar,
existem pacientes cuja maior doença é a inconveniência de
falar em demasia. São aqueles que nunca estão satisfeitos com o
que o médico lhes diz, e que ficaram ainda mais difíceis desde que
descobriram o caudaloso manancial da internet.  | "Fiz
uma peregrinação dispendiosa e infeliz em busca de tratamento para
a hiperidrose. Depois de ler em VEJA que uma cirurgia simples para acabar com
o suor já era feita em São Paulo, fui atrás dos médicos
citados na reportagem. Eu me curei e criei um site para ajudar as pessoas que
se encontram na mesma situação. Já respondi a mais de 3 000
mensagens em quinze meses." Regina
Lunkes Diehl, empresária |
A internet está ajudando a estabelecer um maior diálogo entre médicos
e pacientes, mas não há informação colhida na rede
que substitua a palavra final de um bom especialista. Palavra final que não
significa, necessariamente, veredicto sem apelação. "O médico
não é mais um deus impositivo que decide o que quer, sem ouvir o
doente, e acabou", diz o infectologista David Uip. A boa relação
médico-paciente é aquela em que o segundo, munido de todos os dados
sobre seu problema, é incentivado pelo primeiro a pesar os riscos e benefícios
do tratamento prescrito e a opinar sobre a alternativa mais adequada a seus anseios.
"A decisão compartilhada, fruto de uma conversa franca, é a melhor
solução para os dois lados, pois significa maior adesão à
terapia e menor probabilidade de desentendimentos futuros", afirma o cirurgião
cardiovascular Marco Tulio Baccarini Pires, de Belo Horizonte, diretor do site
nacional da Bibliomed. Infelizmente,
nem todos os médicos entendem que "decisão compartilhada" não
implica "transferência de responsabilidade". Há limites para o caminho
aberto pela maior circulação de informações e pela
crescente disponibilidade dos médicos para explicar e discutir seus pontos
de vista. Especialmente nos casos mais graves. Pegue-se o exemplo de um oncologista
que cuida de um doente de câncer de próstata. É importante
que a pessoa esteja ciente de que, para tratá-la, existem três recursos:
a radioterapia, a braquiterapia (radiação direta no tumor) e a cirurgia
de extirpação. E saiba também que são variáveis
os índices de sucesso e risco de cada uma das modalidades de tratamento.
Mas daí a colocar a resolução nas mãos do paciente
vai uma tremenda distância. Um artigo publicado em 2002 no Journal of
Medical Internet Research, assinado por pesquisadores da Universidade de Illinois,
em Chicago, enfatiza que os doentes querem estar bem informados sobre sua condição,
sem que isso implique assumir responsabilidade integral pelo próprio tratamento.
"O médico não deve abdicar de seu conhecimento, deixando que o doente
decida tudo, com base nas conversas que este manteve no consultório ou
nos dados que conseguiu em sites ou na imprensa", diz o cardiologista Protásio
Lemos da Luz. "É como um piloto de avião dar a um passageiro o comando
da aeronave." Para continuar na metáfora aeronáutica, podem-se adquirir
noções de navegação aérea por meio de um bate-papo
com um piloto ou via internet. Mas ninguém tira brevê dessa maneira.
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