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Psicologia Os
superacelerados A hipomania explica por
que algumas pessoas vivem sempre a mil por hora
 Gabriela
Carelli Os distúrbios mentais costumam
submeter seus portadores a situações de grande angústia,
capazes de arruinar sua vida. Nos últimos tempos, a psiquiatria tem se
debruçado sobre uma alteração que, às vezes, age de
forma oposta: contribui para o sucesso pessoal e profissional do portador. A alteração
chama-se hipomania, uma variante suave do transtorno bipolar, no qual o paciente
alterna períodos de euforia com outros de depressão. Nos casos clássicos
de transtorno bipolar, as mudanças de comportamento representam alto risco
para o portador. Na euforia, ele se torna violento, perde a noção
de realidade e toma atitudes bizarras ou perigosas. Quase sempre acaba internado,
quando então mergulha numa depressão profunda que pode levar a atitudes
suicidas. Nos hipomaníacos, o processo é diferente. A euforia se
manifesta de forma consciente, é constante e, de modo geral, direcionada
para atitudes produtivas. Pode durar meses, anos ou a vida inteira. Não
há distorção grave da realidade e a depressão se resume
a crises amenas, não muito diferentes daquelas a que qualquer pessoa está
sujeita. Resultado: o distúrbio trabalha muitas vezes a favor de seu portador,
dando a ele uma energia e um otimismo incomuns diante das situações
do dia-a-dia. Calcula-se que pelo menos 6% da população mundial
seja hipomaníaca. É
fácil reconhecer o hipomaníaco. No trabalho ou no convívio
social, é aquele sujeito que parece ligado na tomada. Fala, pensa e age
mais rápido que os demais. Dorme pouco, mas está sempre disposto,
entusiasmado e cheio de idéias. Confiante, fala em projetos grandiosos.
Faz várias coisas ao mesmo tempo e dá conta de todas elas. Em geral,
os hipomaníacos são os mais populares da turma ou os "queridinhos"
do chefe. Em muitos casos, são os próprios chefes. Esse é
o lado bom da hipomania. As mesmas características levam os hipomaníacos
a tomar atitudes que os prejudicam. Sua confiança sem limites faz com que
reajam mal ao ser contrariados, mesmo em assuntos de pouca importância.
Em casos extremos, sentem-se perseguidos por quem não concorda com suas
opiniões. Tendem a assumir riscos exagerados, inclusive de vida. São
propensos a comportamentos compulsivos, como gastar demais ou beber em excesso.
"Os casamentos dos hipomaníacos costumam durar pouco", informa a psiquiatra
Dóris Moreno, do Hospital das Clínicas de São Paulo. "É
difícil conviver com alguém cuja autoconfiança é ilimitada
e que não gosta de ser contrariado", ela completa.
Um livro recém-lançado nos Estados Unidos procura demonstrar que
a hipomania está por trás dos feitos de muitos personagens célebres
em todas as áreas do conhecimento. Em The Hypomanic Edge The
Link Between (a Little) Craziness and (a Lot of) Success in America (Os Limites
da Hipomania A Ligação entre (um pouco de) Loucura e (muito)
Sucesso na América), o psiquiatra John D. Gartner, da Universidade Johns
Hopkins, argumenta que a maioria dos empreendedores que fizeram a história
dos Estados Unidos era hipomaníaca a começar pelo próprio
descobridor da América, o navegador genovês Cristóvão
Colombo. Ele cultivava uma fé quase irracional em si mesmo. Também
costumava ouvir vozes divinas falando-lhe sobre a viagem do descobrimento. "Como
uma mão que podia ser sentida, Deus mostrou-me que era possível
fazer a viagem e me encorajou a completar o projeto", escreveu Colombo à
corte espanhola em 1500. Segundo Gartner, 39% dos hipomaníacos relatam
presságios divinos ou sentem-se impulsionados por vozes internas. O americano
Henry Ford, pioneiro da indústria automobilística, citado no livro
como um hipomaníaco histórico, tinha como mantra o seguinte raciocínio:
"Tudo pode sempre ser feito mais rápido". Não por acaso, Ford inventou
também a linha de montagem, que reduziu drasticamente o tempo de produção
de seus veículos. Entre os
contemporâneos analisados no livro de Gartner está o geneticista
americano Craig Venter, um dos maiores cientistas da atualidade, chefe da equipe
que concluiu o mapeamento do genoma humano em 2000. Venter concordou em se submeter
a testes conduzidos pelo psiquiatra e, ao final, admitiu ser hipomaníaco.
"Durante toda a vida me achei meio amalucado. Tinha tantas idéias grandiosas
que era difícil manter o foco em uma delas. Mas sempre tive esse senso
de grandeza, sabia que ocuparia um lugar importante na história", disse
Venter a Gartner. Para os hipomaníacos, o céu é o limite.
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