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Cidades
Entre as malas luxuosas
Ruas de comércio de luxo recuperam
o antigo prestígio e o Brasil tem uma
entre as dez melhores

Ruth Costas
Marco Pinto
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RUA OSCAR FREIRE
SÃO PAULO
A região em torno
da rua paulistana aparece na oitava posição entre
os principais endereços de comércio de luxo do
mundo. Os pesquisadores responsáveis pelo ranking apontaram
o atendimento nas lojas "vendedores cordiais, educados
e alinhados" como um dos melhores. Mas a Oscar Freire
perdeu pontos por causa das calçadas desiguais, da fiação
aparente e do lixo acumulado. |
As ruas especializadas no comércio
de luxo surgiram na Europa no século XIX. No início,
reuniam fabricantes de produtos de alta qualidade para uso pessoal
em oposição à produção
em massa resultante da revolução industrial. Elas
tiveram seu apogeu entre os anos 30 e 60, mas andaram um tanto fora
de moda nas décadas seguintes. Agora, estão recuperando
o antigo prestígio. A reviravolta está ligada a mudanças
ocorridas no mercado de luxo nos últimos dez anos. A principal
delas é o fato de que muitas marcas caras, que no passado
eram empresas familiares e fabricavam um número reduzido
de peças para garantir certa exclusividade ao comprador,
se tornaram grandes corporações e passaram a produzir
em massa. Para aumentarem as vendas, lançaram linhas de produtos
mais em conta, tornando o luxo mais acessível à classe
média. Nesse novo cenário, a estratégia de
instalar uma loja em uma rua charmosa, reconhecida pela oferta de
produtos sofisticados, dá maior visibilidade à marca
e ajuda a ampliar a clientela. Um estudo realizado pela Excellence
Mystery Shopping International, organização que reúne
institutos de pesquisa de mercado de diversos países, identificou
as dez ruas comerciais mais chiques do mundo. Entre elas estão
endereços tradicionais, como a Avenida Champs-Élysées,
em Paris, e também surpresas em países inesperados
como os arredores da Rua Oscar Freire, na região dos
Jardins, em São Paulo, em oitavo lugar no ranking do luxo.
Para elaborar a lista, a Excellence
Mystery Shopping analisou dezesseis ruas de reputação
internacional e grande concentração de lojas de grifes.
O estudo levou em conta também a arquitetura das edificações,
as instalações das lojas, a disponibilidade de serviços
além dos estabelecimentos comerciais propriamente ditos,
a limpeza, a segurança, o conforto, a cordialidade dos vendedores
e o comportamento das pessoas que freqüentam a rua. Na maioria
das cidades, tais características foram aplicadas não
a uma rua, mas a uma região ou bairro. A Rua Serrano, em
Madri, na Espanha, foi considerada a mais luxuosa do planeta, segundo
os critérios utilizados. Na via ampla e arborizada, as lojas
ocupam o térreo de edifícios residenciais do início
do século XX, o que contribui para o ambiente de sofisticação.
Um apartamento de 100 metros quadrados na Serrano chega a custar
1 milhão de dólares por esse dinheiro, é
possível comprar um dúplex cinco vezes maior num bairro
nobre de São Paulo.
Para uma rua comercial ser considerada
luxuosa não basta concentrar um bom número de lojas
de marcas caras. Também precisa ser um espaço público
agradável, bem freqüentado e bonito. "Quem compra roupas
e acessórios de grife não pensa apenas nos atributos
do produto, mas busca ganhos subjetivos como bem-estar e satisfação
pessoal", disse a VEJA a francesa Françoise Sackrider, do
Instituto Francês da Moda, em Paris. "Daí a importância
do ambiente em que é feita a compra. O cliente precisa ter
a sensação de que faz parte de um clube exclusivo
marcado pelo requinte e pela perfeição." A Quinta
Avenida, em Nova York, a segunda colocada no ranking do luxo, é
um dos locais que melhor dão ao freguês a sensação
de estar no centro da sofisticação mundial. A via
atravessa Manhattan, o coração da cidade mais cosmopolita
dos Estados Unidos, e é repleta de prédios imponentes,
museus, galerias de arte e hotéis estrelados.
Lugares como a Quinta Avenida
e a Champs-Élysées, em Paris, a terceira no ranking
do luxo, são cartões-postais de cidades importantes
e ícones do consumo de alto padrão desde os anos 30.
Instalar uma loja num endereço desses serve de cartão
de visita para a grife. A avenida parisiense andou em baixa no início
dos anos 90, com a proliferação de marcas populares
e cadeias de fast-food. A tendência inverteu-se nos últimos
dois anos. Há lojas novas da joalheria Cartier, da grife
alemã Hugo Boss, e a Louis Vuitton vai inaugurar lá
sua maior loja, de 1.800 metros quadrados, no mês que vem.
Há várias vantagens comerciais em se instalar nos
arredores de uma rua conhecida por concentrar o fluxo de consumidores
de alto e, cada vez mais, médio poder aquisitivo.
Uma delas é atrair os turistas, responsáveis por uma
em cada quatro compras no mercado de luxo. No ano passado, esse
tipo de comércio cresceu 22% em termos globais.
Os shopping centers também
oferecem concentração de ofertas, mas funcionam segundo
outro conceito. Eles foram concebidos de acordo com uma lógica
de consumo inventada pelos americanos, em que a compra deve ser
feita com rapidez e praticidade. A rua de luxo, ao contrário,
é uma tentativa de recriar o clima elegante existente entre
os ricaços no passado. É um local onde, em princípio,
as compras podem ser feitas com calma e os endinheirados podem ser
vistos por outros endinheirados. Mais que os shopping centers, as
lojas de rua ajudam o mercado de alto padrão a manter a mística
de exclusividade que é o seu maior atrativo. Essa é
a lógica que deu à Oscar Freire, onde as vitrines
disputam a atenção dos pedestres palmo a palmo, a
oitava colocação no ranking das ruas luxuosas. Seu
prestígio começou a crescer na década de 80,
quando lojas se instalaram por lá para atender os moradores
de bom poder aquisitivo e os hóspedes dos hotéis da
região. Hoje, a Oscar Freire e seus arredores são
o endereço mais nobre do consumo de luxo no Brasil. Reúnem
restaurantes, cafés e as principais marcas internacionais.
O atendimento, segundo a pesquisa que deu origem ao ranking das
ruas de luxo, é um dos melhores do mundo. Os aspectos negativos,
que a fizeram perder pontos, são tipicamente brasileiros:
a fiação aparente, o lixo acumulado e a falta de uniformidade
das calçadas.
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