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Estados Unidos
Suprema Corte à
imagem de Bush
O presidente americano indica
novo juiz-chefe e reforça o
conservadorismo da instituição

Diogo Schelp
Manuel Bace Ceneta/AP
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| O corpo de Rehnquist deixa o prédio da Suprema
Corte, em Washington: dezenove anos no comando |
Em suas viagens pelos Estados Unidos no século
XIX, o historiador francês Alexis de Tocqueville ficou impressionado
com o que considerou uma habilidade pródiga dos americanos,
a de converter divergências em disputas judiciais. Se visitasse
hoje o país, o pensador teria novos motivos para confirmar
sua tese. O bom funcionamento da democracia dos EUA depende da eficiência
de seu sistema judicial, o que explica por que a morte de William
Rehnquist, presidente da Suprema Corte, no início do mês,
aos 80 anos, e a necessidade de indicar um substituto são
tão importantes para os rumos do país. Indicado para
a Suprema Corte pelo presidente Richard Nixon, em 1972, o juiz presidia
a instituição havia dezenove anos. Para o seu lugar,
na semana passada, o presidente americano, George W. Bush, indicou
John Roberts, um juiz que chegou a trabalhar como secretário
de Rehnquist. Como Roberts tem apenas 50 anos e o cargo é
vitalício, se aprovado pelo Senado ele poderá, pelas
próximas décadas, ser decisivo em questões
cruciais para a sociedade americana, como o direito ao aborto e
a eutanásia. Bush ainda terá uma segunda vaga na Suprema
Corte para preencher, já que uma das juízas pretende
se aposentar. É provável que ele escolha alguém
que, como Roberts, compartilhe sua visão conservadora a respeito
de família, religião e ciência.
Para se ter uma idéia do que isso significa
em termos de influência política, basta lembrar que
foi a palavra final da Suprema Corte que acabou com a segregação
entre brancos e negros e autorizou clínicas em todo o país
a fazer abortos. Em 2000, a Corte, sob a liderança de Rehnquist,
definiu Bush como o vencedor das eleições presidenciais
ao ordenar o fim da recontagem de votos na Flórida. Como
é possível que nove juízes, que nem sequer
são eleitos pela população, tenham tanto poder
na maior democracia do mundo? A explicação está
no tipo de Constituição que os Estados Unidos possuem
e na tarefa que ela reserva à Suprema Corte. A missão
do órgão é proteger a Constituição,
garantindo que as leis federais e as decisões judiciais estejam
de acordo com seus preceitos. A Carta americana, de 1787, é
um documento sintético que não deixa dúvida
sobre os princípios básicos a primeira emenda,
de 1791, por exemplo, proíbe o Congresso de criar leis para
restringir as liberdades de religião, expressão e
de imprensa , mas tem poucas regras. Isso dá aos nove
juízes maior liberdade para interpretá-la.
"Quando o texto desce a minúcias, como
é o caso da Constituição do Brasil, acaba restringindo
a ação do Judiciário e do Poder Legislativo",
diz o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF),
o equivalente brasileiro da Suprema Corte. A Carta Magna dos Estados
Unidos é um documento vivo, em constante modernização.
"Se a Suprema Corte interpretasse a lei de maneira rígida,
a Constituição se tornaria anacrônica, irrelevante
para os tempos modernos", disse a VEJA o jurista americano Stephen
Gottlieb, autor de um livro sobre o período de Rehnquist
na Corte. Um mesmo princípio expresso na Constituição
americana pode ser entendido de maneira diferente de acordo com
o pensamento vigente em cada época. A premissa "todos os
homens nascem livres e iguais", por exemplo, não era aplicada
no século XIX aos escravos nem às mulheres. Um século
depois, a mesma frase passou a valer para todos nas sentenças
da Suprema Corte, independentemente de raça ou gênero.
As decisões dos juízes de última
instância dos EUA costumam refletir os valores de seu tempo
às vezes um pouco à frente, outras um pouco
atrás dos avanços sociais. "A atual Corte, que não
se renova há onze anos, já começava a se mostrar
defasada", disse a VEJA o jurista americano Mark Tushnet, autor
do livro A Corte de Rehnquist e o Futuro do Direito Constitucional.
Rehnquist, por exemplo, votava a favor de sentenças que encurtavam
a distância entre Igreja e Estado e era um ferrenho opositor
do aborto. No futuro, os juízes da Suprema Corte terão
de tratar de temas que estão apenas tomando forma, como a
influência da biotecnologia na vida das pessoas ou o limite
entre a luta contra o terrorismo e os direitos civis. Para uma das
duas vagas abertas na Corte, Bush já indicou um juiz, Roberts,
que, como ele, desconfia das pesquisas de biotecnologia. Para a
outra vaga, um forte candidato é Alberto Gonzales, o procurador-geral
dos Estados Unidos e autor do parecer que deu legalidade ao uso
de técnicas brandas de tortura no interrogatório de
suspeitos de terrorismo. Juntos, eles podem dar uma guinada conservadora
no Supremo, com reflexos importantes no dia-a-dia dos americanos.
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Juízes das grandes questões
A Constituição dos
Estados Unidos limita-se a estabelecer os princípios
básicos da democracia e do Estado de direito.
Ao interpretar esses princípios, a Suprema Corte
tem a oportunidade de acompanhar a evolução
de valores da sociedade. Abaixo, algumas decisões
que deram novos rumos aos EUA
RACISMO
Em 1954, a Suprema Corte decidiu que a segregação
racial em escolas públicas era inconstitucional.
A sentença foi um marco na história dos
direitos civis
SEPARAÇÃO ENTRE
IGREJA E ESTADO
Nos anos 60, a Corte baniu as preces e a leitura
obrigatória da Bíblia em escolas
públicas, consolidando o conceito de que os EUA
não têm religião oficial
ABORTO
Em 1973, a Corte considerou constitucional o direito
das mulheres de fazer aborto até o terceiro mês
de gravidez
PENA DE MORTE
Os juízes da Suprema Corte confirmaram o
direito dos estados de aplicar a pena de morte em 1976
HOMOSSEXUALISMO
Em 2003, a Suprema Corte derrubou leis estaduais que
proibiam a sodomia, na prática reconhecendo o
direito do indivíduo de seguir sua orientação
sexual
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