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Internacional Katrina:
incompetência, não racismo
Furacão expôs a pobreza existente nos Estados Unidos e a falta
de agilidade de seu governo  Ruth
Costas Carlos
Barria/Reuters, Donna Carson/AP
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no Texas, acima, e equipe de resgate em Nova Orleans: enfim, o socorro |  |
Incompetência ou racismo? Na
semana passada, na ressaca do furacão Katrina, que inundou 80% da cidade
de Nova Orleans e obrigou a evacuação de meio milhão de moradores,
uma parcela da opinião pública americana atribuía ao preconceito
racial a lenta reação do governo federal diante da tragédia.
Líderes religiosos, políticos e artistas tentavam vender a tese
de que o governo do presidente George W. Bush demorou em providenciar socorro
aos desabrigados alimentos, água, medicamentos e transporte só
começaram a chegar quatro dias depois do furacão porque a
maioria dos atingidos eram negros. Dois terços dos negros americanos, segundo
pesquisa divulgada na semana passada, acreditam que, se as vítimas do furacão
fossem brancas, a ajuda do governo teria sido mais rápida. "George Bush
não se preocupa com a população negra", disse o cantor de
rap Kanye West durante um programa de TV que arrecadou dinheiro para ajudar as
vítimas do desastre. A cor
foi o fator que agravou a catástrofe? Na verdade, sim, mas não por
racismo. Os negros predominavam entre as pessoas que se amontoavam em abrigos
improvisados na cidade alagada por uma conjunção de fatores demográficos
e sociais. Dois terços dos habitantes de Nova Orleans são negros,
uma proporção cinco vezes maior do que a média americana.
Um terço deles vive abaixo da linha de pobreza. Sem dinheiro ou carro para
fugir da cidade, formaram o grosso do contingente que acabou ficando em Nova Orleans
para esperar a passagem do Katrina. "O desastre expôs a pobreza que atinge
parte da população dos Estados Unidos, principalmente negros, quase
sempre ofuscada pela prosperidade da economia americana", disse a VEJA a socióloga
Margaret Weir, da Universidade da Califórnia. O furacão pôs
em evidência a persistência da divisão racial e da pobreza
e também revelou a insuspeita incapacidade do governo americano
para levar socorro a sua própria população num momento de
necessidade. Desastres naturais não
costumam ver cor nem raça. As imagens de sofrimento a que os americanos
assistiram na TV foram agravadas pela ineficiência burocrática das
autoridades, pela geografia de Nova Orleans (que tem 80% de seu terreno abaixo
do nível do mar), pela má sorte e também pela pobreza, mas
não pelo racismo. Bush está em maus lençóis perante
a opinião pública porque o custoso sistema de emergência criado
por ele depois dos atentados de 11 de setembro falhou em seu primeiro teste. O
presidente, que se mostrou tão decidido em 2001, desta vez deu a impressão
de não ter entendido muito bem o que estava acontecendo. O índice
de aprovação de seu governo caiu de 45% para 40% depois do Katrina.
A monstruosa burocracia criada para lidar com desastres na verdade, mais
preocupada com terrorismo do que com furacões só começou
a funcionar para valer na semana passada. O prefeito de Nova Orleans, Ray Nagin,
um democrata negro, também teve sua parcela de responsabilidade, porque
foi incapaz de organizar um plano para evacuar totalmente a cidade antes da chegada
do furacão. Em um dos bairros mais pobres, o Orleans Parish, onde mais
de 100 000 pessoas não tinham como fugir quando se anunciou a tempestade,
foram encontradas centenas de ônibus municipais boiando nas águas
lamacentas da inundação, indicando que a prefeitura poderia, sim,
ter afastado os moradores da ameaça natural. Ninguém disse que a
falha se deveu ao racismo.
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