Edição 1922 . 14 de setembro de 2005

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Internacional
Katrina: incompetência,
não racismo

Furacão expôs a pobreza existente
nos Estados Unidos e a falta de
agilidade de seu governo


Ruth Costas

 

Carlos Barria/Reuters, Donna Carson/AP
Desabrigados no Texas, acima, e equipe de resgate em Nova Orleans: enfim, o socorro


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Incompetência ou racismo? Na semana passada, na ressaca do furacão Katrina, que inundou 80% da cidade de Nova Orleans e obrigou a evacuação de meio milhão de moradores, uma parcela da opinião pública americana atribuía ao preconceito racial a lenta reação do governo federal diante da tragédia. Líderes religiosos, políticos e artistas tentavam vender a tese de que o governo do presidente George W. Bush demorou em providenciar socorro aos desabrigados – alimentos, água, medicamentos e transporte só começaram a chegar quatro dias depois do furacão – porque a maioria dos atingidos eram negros. Dois terços dos negros americanos, segundo pesquisa divulgada na semana passada, acreditam que, se as vítimas do furacão fossem brancas, a ajuda do governo teria sido mais rápida. "George Bush não se preocupa com a população negra", disse o cantor de rap Kanye West durante um programa de TV que arrecadou dinheiro para ajudar as vítimas do desastre.

A cor foi o fator que agravou a catástrofe? Na verdade, sim, mas não por racismo. Os negros predominavam entre as pessoas que se amontoavam em abrigos improvisados na cidade alagada por uma conjunção de fatores demográficos e sociais. Dois terços dos habitantes de Nova Orleans são negros, uma proporção cinco vezes maior do que a média americana. Um terço deles vive abaixo da linha de pobreza. Sem dinheiro ou carro para fugir da cidade, formaram o grosso do contingente que acabou ficando em Nova Orleans para esperar a passagem do Katrina. "O desastre expôs a pobreza que atinge parte da população dos Estados Unidos, principalmente negros, quase sempre ofuscada pela prosperidade da economia americana", disse a VEJA a socióloga Margaret Weir, da Universidade da Califórnia. O furacão pôs em evidência a persistência da divisão racial e da pobreza – e também revelou a insuspeita incapacidade do governo americano para levar socorro a sua própria população num momento de necessidade.

Desastres naturais não costumam ver cor nem raça. As imagens de sofrimento a que os americanos assistiram na TV foram agravadas pela ineficiência burocrática das autoridades, pela geografia de Nova Orleans (que tem 80% de seu terreno abaixo do nível do mar), pela má sorte e também pela pobreza, mas não pelo racismo. Bush está em maus lençóis perante a opinião pública porque o custoso sistema de emergência criado por ele depois dos atentados de 11 de setembro falhou em seu primeiro teste. O presidente, que se mostrou tão decidido em 2001, desta vez deu a impressão de não ter entendido muito bem o que estava acontecendo. O índice de aprovação de seu governo caiu de 45% para 40% depois do Katrina. A monstruosa burocracia criada para lidar com desastres – na verdade, mais preocupada com terrorismo do que com furacões – só começou a funcionar para valer na semana passada. O prefeito de Nova Orleans, Ray Nagin, um democrata negro, também teve sua parcela de responsabilidade, porque foi incapaz de organizar um plano para evacuar totalmente a cidade antes da chegada do furacão. Em um dos bairros mais pobres, o Orleans Parish, onde mais de 100 000 pessoas não tinham como fugir quando se anunciou a tempestade, foram encontradas centenas de ônibus municipais boiando nas águas lamacentas da inundação, indicando que a prefeitura poderia, sim, ter afastado os moradores da ameaça natural. Ninguém disse que a falha se deveu ao racismo.

 

 
 
 
 
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