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Crise
A pátria mandou recado
No 7 de Setembro, Lula é aplaudido e
vaiado o que, no seu caso, é péssimo

Otávio Cabral
Celso Junior/AE
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MIL PALAVRAS
Lula, no desfile de 7 de Setembro, em Brasília:
só faltava essa, mas a foto foi "desmentida"
pelo governo... |
No ano passado, o presidente Lula chegou às festas do 7 de
Setembro em Brasília no auge de sua forma política:
desfilando em carro aberto, foi aplaudido, distribuiu sorrisos e
deixou a festa acenando para uma multidão recorde de 60.000
pessoas. Na semana passada, a cena era inteiramente outra. Lula
chegou em carro aberto sob forte esquema de segurança. Foi
aplaudido e vaiado. Havia 30 000 pessoas, pouco mais da metade do
esperado. Quando o locutor anunciou a chegada do presidente e da
primeira-dama Marisa Letícia, ouviram-se as primeiras vaias.
Quando Lula pegou o microfone para abrir a festa, ouviu-se novo
coro de apupos, sempre vindos das arquibancadas mais distantes,
onde um cartaz dizia o seguinte: "Lula, que traição!
Tirou do povo para pagar o mensalão!". Os protestos foram
até discretos, mas seria um erro encará-los como desprezíveis
alaridos de troça. As vaias são um péssimo
sinal para Lula.
Numa democracia, protestos não
são novidade nem motivo para alarme. Que atire a primeira
pedra o dirigente de um país democrático que não
tenha sido alvo de uns apupos. Mas no caso de Lula a situação
é um pouco diferente. Lula construiu sua carreira como um
líder de massas, talvez seja a mais carismática liderança
política surgida no país desde o fim da ditadura militar
e para coroar isso tudo chegou ao Palácio do
Planalto a bordo de uma votação excepcional. Apesar
de perder três eleições em uma década,
Lula sempre fora, digamos assim, um "político pop". Sua ascensão
na vida pública, de líder sindical a presidente da
República, deu-se sempre em contato com as multidões
em assembléias, palanques, caravanas. Por isso, as
vaias contra Lula chamam mais atenção do que se fossem
dirigidas a seu antecessor Fernando Henrique, um egresso do meio
acadêmico que jamais eletrizou as massas. As vaias a Lula
rompem um dique de popularidade e carisma que outrora pareceu tão
sólido e de cuja robustez nenhum outro presidente
da era democrática desfrutou.
O prestígio de Lula se
esboroa em público na mesma medida em que a crise à
sua volta se avoluma. Na noite do dia 7 de setembro, Lula fez seu
segundo pronunciamento em cadeia de rádio e televisão
sobre a crise. Garantiu que não vai chancelar "acordos subalternos"
e se dirigiu a uma parcela de brasileiros a quem chamou de "mal-intencionados",
aos quais disse que as "turbulências políticas não
vão tirar o governo de seu rumo". Sobre o essencial, nenhuma
palavra: nada sobre o fato de que a crise saiu de seu governo, nada
sobre o fato de que seu partido, o PT, girou o carrossel da corrupção.
Nesse sentido, foi um pronunciamento de sonâmbulo. Só
não foi inteiramente sonambúlico porque, diante da
câmera de televisão, era visível o esforço
de Lula para acreditar nas próprias palavras. Em tempo: a
foto que ilustra esta reportagem foi feita pelo fotógrafo
Celso Junior, da Agência Estado, e contestada em carta pela
assessoria do Palácio do Planalto, ao que o jornal O Estado
de S. Paulo respondeu: "Salvo melhor juízo, esta é
a primeira vez na história da imprensa em que se tenta desmentir
uma foto".
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