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Brasil Nunca
houve tantas provas A Justiça aceita
denúncia contra Maluf. Promotores pedem prisão do ex-prefeito
 Juliana
Linhares
J.
F. Diorio/AE
 | TUDO
EU Maluf ao promotor: "Por que o senhor me odeia?"
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Ao longo dos seus quarenta
anos de trajetória política, Paulo Salim Maluf, ex-prefeito de São
Paulo, habituou-se a conviver com uma sucessão de denúncias de corrupção
das quais, até hoje, escapou incólume. Na semana passada, o Ministério
Público, encerrando um trabalho de três anos, entregou à Justiça
o resultado de uma investigação que, por sua robustez, pode mudar
a sorte do ex-prefeito. "Pela primeira vez, conseguimos provar não só
que Maluf desviou uma fortuna dos cofres públicos como usou parte desse
dinheiro para pagar contas pessoais e de sua família", afirma o promotor
Silvio Marques. As investigações apontam que o valor desviado de
contratos de obras públicas na última gestão do ex-prefeito
chega a 500 milhões de dólares. Na sexta-feira, a Justiça
aceitou a denúncia oferecida pelo Ministério Público contra
Maluf e seu filho Flávio. Os dois responderão a processos por crime
de evasão de divisas, lavagem de dinheiro, corrupção passiva
e formação de quadrilha. A promotoria também pediu a prisão
preventiva dos dois por tentativa de obstrução da Justiça.
Até a noite de sexta-feira, a juíza da 2ª Vara Federal, Sílvia
Maria Rocha, não havia se manifestado sobre o pedido.
Desde 2002, o promotor Marques, que comandou as investigações, e
o procurador da República Pedro Barbosa que participou dos trabalhos
juntamente com a Polícia Federal tinham informações
de que Maluf, quando prefeito de São Paulo na década de 90, recebera
propinas milionárias da empreiteira Mendes Junior, que foi a responsável
pela construção da Avenida Água Espraiada. Hoje rebatizada
de Jornalista Roberto Marinho, a obra, com apenas 5 quilômetros de extensão,
custou 800 milhões de reais, mais do que o que foi gasto com os 500 quilômetros
já duplicados da Rodovia Fernão Dias, que liga São Paulo
a Belo Horizonte. O dinheiro das propinas foi remetido por Maluf ao exterior com
a ajuda de doleiros, entre eles Vivaldo Alves, conhecido como "Birigüi".
As informações foram dadas aos investigadores, em 2002, por dois
ex-funcionários da Mendes Junior o ex-tesoureiro Joel Fernandes
e o ex-diretor Simeão de Oliveira. Na ocasião, Simeão chegou
a entregar ao MP uma lista detalhando os valores pagos ao ex-prefeito pela empreiteira
ao longo da sua gestão, totalizando quase 10 milhões de dólares.
O teor explosivo dos depoimentos, no entanto, não era suficiente para dar
a investigação por encerrada. Para isso, faltavam dois elementos:
documentos bancários que comprovassem as denúncias e provas de que
o dinheiro desviado da prefeitura havia beneficiado Maluf.
Esses elementos começaram a surgir neste ano. Depois de dois anos de tentativas,
os investigadores conseguiram pôr as mãos em um pacote de extratos
bancários referentes à conta batizada Chanani, hospedada no banco
Safra de Nova York e operada pelo doleiro Vivaldo. O pacote chegou ao Brasil em
março. No dia 15 daquele mês, analisando o material, os promotores
tiveram a sensação de que, finalmente, o círculo estava se
fechando. Entre os extratos bancários, encontraram treze depósitos
que coincidiam, até nos centavos, com os valores relacionados na lista
de propinas que o ex-diretor da Mendes Junior havia entregue ao MP em 2002 (veja
os documentos). Estava confirmado portanto que o dinheiro que Simeão
dizia ter sido pago a título de propina a Maluf foi de fato parar na conta
operada pelo doleiro do ex-prefeito. As duas descobertas mais importantes viriam
em seguida: peritos da Polícia Federal constataram, com base no estudo
das movimentações financeiras da Chanani, que ela abastecia três
outras contas hospedadas em bancos de Nova York: a Falcon, a Heritage e uma terceira,
identificada pelo número 06100759. E que, até 2001, pelo menos uma
dessas contas, a Falcon, pagara despesas de cartões de crédito de
Maluf e dois de seus filhos, Flávio e Octávio (veja
documento). O círculo se fechou.
Maluf sempre negou que possuísse contas no exterior. Pois o Ministério
Público tem hoje nada menos do que 8 quilos de documentos provando que
o ex-prefeito é beneficiário de pelo menos duas contas milionárias
de empresas offshore (a Red Ruby, em Cayman, e a White Gold Foundation, em Liechtenstein)
e que sua família incluindo sua mulher movimentou, desde
a década de 90, outras dezenas de contas nos Estados Unidos, França,
Suíça e Liechtenstein. Maluf também passou a vida rejeitando
as denúncias de que teria desviado dinheiro público. A desacreditá-lo
está o farto material reunido pela promotoria, que inclui um cheque no
valor de 732.708 reais (veja abaixo) emitido pela
CBPO, o braço paulista da construtora Odebrecht, em favor da empresa Engefort
Projetos e Construções Ltda. A Odebrecht foi a responsável
pela construção do Túnel Ayrton Senna (aquele que ficou conhecido
no Brasil inteiro por ter custado mais caro que o do Canal da Mancha, que liga
a França à Inglaterra). A Engefort é, segundo o MP, uma empresa
laranja. Prova disso é o endosso que consta no verso do cheque destinado
a ela, indicando que o dinheiro teve, na verdade, outro beneficiário: Maurílio
Miguel Curi que vem a ser genro de Paulo Maluf. Há ainda uma terceira
afirmação típica do repertório do ex-prefeito que
agora cai por terra: a de que ele sempre esteve disposto a colaborar com a Justiça.
Gravações telefônicas realizadas entre junho e julho deste
ano mostram diálogos indicando que ele e o filho Flávio planejaram
um modo de calar o doleiro Vivaldo Alves episódio que deu margem
ao pedido de prisão preventiva. Em seu último depoimento ao Ministério
Público, em junho, Alves confirmou que, por ordem de Flávio Maluf,
transferiu, em 1998, 5 milhões de dólares da conta Chanani para
uma conta, também em Nova York, do publicitário Duda Mendonça
aquele mesmo que em depoimento à CPI dos Correios jurou, entre lágrimas,
que havia começado a carreira de empresário-offshore somente em
2003, por imposição do empresário Marcos Valério.
Maluf ficou tanto tempo tentando negar o inegável
que, ao que parece, passou a acreditar ele mesmo no que dizia. Durante seu último
depoimento ao MP, em junho de 2004, respondeu às quarenta perguntas que
lhe foram feitas de maneira idêntica: limitando-se a dizer que se reservava
o direito de permanecer calado. Ao fim do interrogatório, no entanto, sem
que houvesse uma única câmera apontada para ele, perguntou candidamente
ao promotor Marques: "Doutor, posso eu agora lhe fazer uma pergunta?". Marques
assentiu. "Por que o senhor tem tanta raiva de mim e me persegue tanto?"
Com a decisão da Justiça de aceitar a denúncia oferecida
pelo MP, Maluf acrescenta mais um processo à coleção de 59
a que responde atualmente. Mas, se for condenado, tem boas chances de jamais ir
preso. O prazo para prescrição do crime de evasão de divisas,
por exemplo, é de doze anos, mas cai pela metade quando o acusado tem mais
de 70 anos de idade. Maluf tem 74 e um esquadrão de advogados muitíssimo
bem pagos para defendê-lo. Infelizmente, com tantos recursos disponíveis
para os chicaneiros, a justiça é muito difícil de ser feita
no Brasil.  | OPERAÇÃO
ABAFA Gravações mostram que
Maluf e seu filho Flávio (abaixo) tentaram calar o doleiro Vivaldo
(na foto, em entrevista na TV); abaixo, cópia de cheque de empreiteira
endossado para o genro de Maluf | Jefferson
Coppola/Folha Imagem
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A
ficha de Maluf • O ex-prefeito responde
hoje a 59 processos judiciais, a maior parte por má gestão
do dinheiro público • Dos 150 a que já
respondeu na vida, apenas um resultou em condenação em caráter
definitivo. Em 2001, Maluf foi sentenciado a ressarcir aos cofres da prefeitura
493 000 reais por ter usado dinheiro público para pagar um anúncio
publicitário de interesse pessoal • O processo
mais antigo, de 1970, teve início quando Maluf comprou 25 Fusca
para dar aos jogadores da seleção brasileira. Arrastou-se por três
décadas. Em 2002, o ex-prefeito foi absolvido pelo STF •
Em 2001, quando completou 70 anos, Maluf passou a ser beneficiado com a
redução do prazo de prescrição de seus processos criminais.
Com isso, livrou-se de diversas ações | |
Com reportagem de Marcelo
Carneiro |