Edição 1922 . 14 de setembro de 2005

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Brasil
O risco Garotinho

Pré-candidato à Presidência,
o ex-governador do Rio tem
um programa que é um
atalho para o atraso


Ronaldo França

 

Givaldo Barbosa/Ag. O Globo
GAROTINHO EM CAMPANHA
Receita que já foi tentada e só produziu inflação e instabilidade

Enquanto o Brasil inteiro parou após as denúncias de corrupção no governo, o ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho trabalhou. Nem tanto na cadeira que ocupa, a de secretário de Governo do Rio. Garotinho pegou no pesado mesmo foi nos preparativos de sua eventual candidatura à Presidência da República pelo PMDB, seu atual partido. Nesta semana, ele pretende comunicar oficialmente ao partido a intenção de ser pré-candidato. Mas há muito tempo vem acalentando esse projeto. Tem feito reuniões país afora com o objetivo de viabilizar seu nome. Nessas ocasiões, leva consigo o que considera uma arma infalível. Trata-se de um documento que serve de base para a definição de seu programa de governo. Para elaborá-lo, convidou o economista Carlos Lessa, ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Auxiliado por alguns de seus colaboradores mais fiéis, como o ex-vice-presidente do BNDES Darc Costa, Lessa produziu uma peça que tem idéias velhas e ruins – com a agravante de já terem sido colocadas em prática no passado, gerando apenas atraso, inflação e instabilidade. Estão ali propostas como o controle da entrada e saída de capitais e a defesa de um modelo de desenvolvimento movido a capital estatal. São idéias que já seriam obsoletas há meio século.

O documento, que servirá de base para discussões em cinco reuniões regionais já programadas, está em seu site na internet. As propostas ali apresentadas estão empilhadas sobre uma mesma prateleira: a do nacionalismo retrógrado defendido por Lessa e Darc Costa. A idéia do investimento governamental de grande escala para alavancar o desenvolvimento, por exemplo, vigorou em boa parte do mundo até a década de 60. Deixou de ser viável quando as sociedades simplesmente não aceitaram mais mandar a conta para as gerações futuras ou varrer os déficits para debaixo do tapete. Enfim, ela ficou claramente inadequada quando bateram os primeiros raios da racionalidade econômica. No Brasil, a idéia se arrastou até os anos 80, quando o país quebrou e perdeu a capacidade de investir. Para as forças do lado Darc, a explicação deve ser buscada na política. Não foi o modelo que se esgotou, mas as imposições externas para minar nossa soberania. A idéia é romântica e errada.

 
Monica Imbuzeiro/Ag. O Globo
PARCERIA IDEOLÓGICA
Lessa é o mentor, digamos, intelectual das idéias econômicas de Garotinho

A conseqüência da avaliação acima conduz o programa para o rompimento com o mercado financeiro global. Como mostra a reportagem de capa, que começa na página 58, isso não apenas deixou de ser possível como se tornou prejudicial ao Brasil. O país optou livremente pela inserção no comércio mundial e no fluxo internacional de capitais. Uma escolha que se fez necessária diante da brutal carência de financiamento, no passado, que hoje tem se mostrado correta. Os sinais mais evidentes do acerto estão sendo vistos agora, quando, mesmo sacudido por uma crise política sem precedentes, o país mantém bons indicadores de performance da economia. A opção por participar do mercado global obriga os países a seguir determinadas regras de convivência que Garotinho e sua equipe desconhecem. No caso brasileiro, a manutenção do superávit primário (que se traduz pela obrigação do governo de gastar menos dinheiro do que arrecada com impostos) é um passaporte para a comunidade internacional. Todos os países endividados viram-se nessa contingência. A Irlanda manteve durante anos a fio um superávit equivalente a 8% de seu produto interno bruto. Com essa sinalização de responsabilidade, a economia irlandesa tornou-se um paradeiro de capitais internacionais, e o resultado foi um frondoso crescimento econômico. A Irlanda, na média, cresceu acima de 6% ao ano, na década passada. O desemprego, que alcançava 15% da população economicamente ativa, caiu a 4%. Mais casos de sucesso podem ser encontrados em outros continentes. Na América do Sul, Chile e Brasil são exemplos de perseverança no caminho da estabilidade

Monica Imbuzeiro/Ag. O Globo
ABAIXO A GLOBALIZAÇÃO
Darc Costa acredita que a soberania está ameaçada


Com fórmulas ultrapassadas e discurso econômico utópico, Garotinho pode ter a chance de conquistar parte da esquerda brasileira órfã do quadrilhismo de resultados do anarcossindicalismo petista. O laboratório populista de Garotinho é o Rio de Janeiro, que ele governa direta ou indiretamente desde 1999. O eixo da atuação de Garotinho no Rio foi subsidiar comida, alojamento e diversão para os mais pobres. São os programas "tudo a 1 real". Nada mais típico. E perigoso. Quando se aposta não na elevação do padrão de consumo das massas, mas em satisfazê-las com migalhas, as políticas públicas acabam por perpetuar a pobreza. "Garotinho e sua mulher fazem governos em que se destacam ações de apelo populista, sem apego ou compromissos programáticos", afirma Marcus Figueiredo, cientista político, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). O ex-governador do Rio é, atualmente, o mais destacado representante de uma linhagem de políticos populistas bons de palanque que eventualmente empolgam as massas. Mas não reside somente aí sua força – e o temor que causa em seus adversários. Anthony Garotinho tem repetido seu discurso diariamente em uma rede de 180 emissoras de rádio populares que transmitem sua mensagem para vinte estados brasileiros. Além disso, tem espaço em um programa semanal da TV Bandeirantes e desponta como o candidato único dos evangélicos à Presidência. Essa plataforma já se assenta, segundo as pesquisas de intenção de voto mais recentes, em 13% das preferências dos eleitores. Esse patamar é o que os especialistas chamam de "recall" – ou seja, a lembrança que os eleitores têm da superexposição de Garotinho na última campanha presidencial, em que ele teve 18% dos votos.

É uma posição privilegiada no grid de largada para a próxima corrida eleitoral, na qual terá vantagens até então inesperadas. A começar pelo esvaziamento do PT, do qual herdará uma significativa parcela dos votos, ainda impossível de quantificar. Também terá a seu favor as mudanças promovidas nas regras eleitorais. Principalmente a que proíbe a utilização de imagens externas nos programas de TV. Os candidatos terão de falar aos telespectadores de dentro do estúdio, sem as técnicas de edição de imagens, que, nos últimos tempos, transformaram os programas eleitorais em sofisticadas peças de propaganda. Entre os potenciais presidenciáveis, Garotinho, um ex-radialista, é talvez o que fica mais à vontade em debates e diante das câmeras. Para viabilizar sua candidatura pelo PMDB, Garotinho precisa amalgamar as diversas alas do partido, mas seu cacife eleitoral já o coloca em lugar de destaque na disputa interna. Garotinho é uma granada populista com o pino pronto a ser arrancado.

 

 
 
 
 
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