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Luiz
Felipe de Alencastro
Nosso
povo ultramarino
"O
Brasil deve estar pronto, para que todos
os
seus cidadãos se realizem aqui e
agora"
Ilustração Ale Setti
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Fato inédito, a emigração de brasileiros não
tem sido suficientemente meditada. O contingente residindo legal e ilegalmente
no exterior oscila entre 2 e 3 milhões de indivíduos, ultrapassando
1,5% da população nacional. Ao mesmo tempo, o Censo 2000
aponta a existência de 733.000 estrangeiros regularmente residentes
no país, enquanto os clandestinos somariam 50.000 pessoas. Desse
modo, o número de emigrados é três vezes maior que
o de estrangeiros no Brasil. É essa relação estatística
que constitui o ineditismo histórico do fenômeno: em nosso
país, os imigrantes sempre haviam superado o número de emigrantes.
O impacto econômico da emigração latino-americana
é considerável. Daí o interesse dos governos da região
em estreitar os vínculos com seus cidadãos emigrados. No
México, o presidente Vicente Fox anunciou a criação
de uma agência para se ocupar dos 22 milhões de mexicanos
que vivem nos EUA. Dá para entender por quê: as remessas
dos mexicanos que trabalham nos EUA subiram para 6,8 bilhões de
dólares em 1999, correspondentes a 1,4% do PIB do México.
No Brasil, o caso é outro, visto que os emigrantes se espalham
mundo afora. A Procuradoria da República dos Direitos do Cidadão
tem um site no qual podem ser registradas denúncias sobre violação
de direitos no exterior (www.prdf.mpf.gov.br/brasileirosnoexterior).
No mês de maio, essa mesma procuradoria promoveu, em Lisboa, o I
Encontro de Brasileiros no Exterior. Entre as propostas sugeridas, encontra-se
a criação de uma secretaria federal de emigração
e o desenvolvimento do ensino da língua portuguesa. As remessas
de nossos emigrantes corresponderam, em 1999, a 1,9 bilhão de dólares.
Algo em torno de 0,3% do PIB nacional. Contudo, três quartos da
soma provieram do Japão, onde estão 13% dos emigrantes,
em contraste com os 30% residentes no Paraguai e os 38,4% nos EUA. Sem
entrar na especificidade de cada comunidade, convém ver mais de
perto o caso dos EUA, em que os diversos aspectos do assunto aparecem
com maior nitidez.
Mais abertos à diferença cultural que qualquer outro país,
os EUA possuem um sistema federalista que facilita a organização
dos emigrantes em nichos regionais. Um site de Boston registra dezesseis
igrejas de cultos brasileiros. Mas geralmente os brasileiros se inserem
no movimento dos "latinos" (hispanic), que configuram um movimento migratório
sem paralelo. As conseqüências da ascensão dos brasileiros
no bojo da vaga latina terão grande importância num futuro
próximo. Outro dia, o metrô de Nova York mostrava um dentre
os muitos sinais dessa florescente cultura ibero-americana: um cartaz
anunciava, num importante canal de TV hispânico, a nova novela brasileira,
El Clone.
Por todos esses motivos, o governo brasileiro vem dando atenção
crescente às comunidades emigradas. É mais do que justo
atender nossos cidadãos onde quer que estejam. Resta que, como
todos os outros países subdesenvolvidos confrontados com o problema,
o Brasil segue um percurso patético. Assim, o país se propõe,
por óbvio interesse econômico, a dar a seus cidadãos
que labutam no estrangeiro as garantias civis e os benefícios sociais
cuja ausência motivou, muitas vezes, a emigração desses
mesmos cidadãos.
No fim do século retrasado, quando os dirigentes do país
apostavam tudo na imigração européia, Joaquim Nabuco
escreveu o artigo "O Brasil é dos brasileiros!". Nele, Nabuco
não defendia a exclusão dos estrangeiros, idéia alheia
a seu pensamento progressista. Defendia, isso sim, a construção
de um Brasil que estivesse pronto para os que nele nascessem e vivessem.
E não um país do futuro, pensado para ser desfrutado por
uma comunidade adventícia, formada por imigrantes filtrados pela
elite brasileira.
A idéia continua atual, só que noutro contexto. O Brasil
deve estar pronto, para que todos os seus cidadãos se realizem
aqui e agora. Não pode ser uma pátria madrasta, que leva
seus cidadãos a se expatriar e depois sai correndo atrás
do prejuízo.
Luiz
Felipe de Alencastro é professor titular da
Universidade de Paris Sorbonne (abomey@uol.com.br)
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