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Roberto
Pompeu de Toledo
Três
vezes solidão
O
que há em comum
entre
o
israelense Shimon
Peres,
o americano Colin
Powell
e
o nosso Roberto Freire
Que
faz Shimon Peres no governo Ariel Sharon? Que faz Colin Powell no governo
George W. Bush? Por último, e descendo ao nosso nível: que
faz o senador Roberto Freire na campanha de Ciro Gomes? Eis três
homens de diferentes nacionalidades e experiências, diferentes formações
e ideologias, ora irmanados em um traço comum: a solidão.
Shimon Peres descende (talvez seja o último descendente) da melhor
linhagem política produzida por Israel aquela que vem do
patriarca David Ben-Gurion, fundador do Estado e seu primeiro primeiro-ministro.
Peres iniciou-se na política pelas mãos de Ben-Gurion, de
quem foi jovem assessor. O Israel desses começos era a terra do
sonho e da esperança. Vivia-se a fase do kibutz e do renascimento
do hebraico. Ninguém começa a vida num período como
esse, e pelas mãos de um professor como esse, sem se embeber de
uma visão humanista, e de um afilado sentido da história.
Peres ocupa já há décadas o primeiro plano da política
israelense. Sempre esteve do lado melhor o lado negociador, o que
sabe que não há saída senão encontrar um modo
de convivência com os árabes. No entanto, ei-lo agora, aos
79 anos, exposto ao risco de pôr a biografia a perder. Por força
da coligação entre seu partido, o Trabalhista, e o direitista
Likud, é o ministro das Relações Exteriores de um
governo que, não bastasse ter como principal marca a destruição,
o assassinato e o espezinhamento do inimigo, é ainda responsável
por atrair contra Israel uma das maiores ondas de terrorismo já
sofridas pelo país.
Colin Powell é o personagem de melhor perfil no atual governo dos
Estados Unidos. General de carreira impecável, foi incluído
em listas de potenciais candidatos a presidente repetidas vezes, desde
que se destacou como chefe do Estado-Maior das Forças Armadas na
Guerra do Golfo. Apesar da formação militar e das experiências
belicistas, é dono de visão mansa e pacífica do mundo.
Para culminar, tem o charme de ser negro. Foi natural, sendo assim, que
lhe coubesse o posto de secretário de Estado, de onde se chefia
a diplomacia americana, em vez do de secretário da Defesa, de onde
se comanda a máquina militar. No entanto, ei-lo um secretário
de Estado que perde todas as paradas era a favor da ratificação
do Tratado de Kioto sobre poluição atmosférica e
Bush foi contra; era a favor de deixar a porta aberta para algum tipo
de negociação com Yasser Arafat e Bush a fechou, para citar
apenas dois entre muitos casos. Powell, formado na escola da disciplina,
não torna públicas suas divergências com o restante
do governo. Engole os sapos e segue em frente. Pode ser, porém,
que não vá além da melancólica conclusão
de que não serviu senão de enfeite a um governo em que o
que vale é a prepotência estulta dos falcões.
Roberto Freire é das figuras mais respeitáveis da política
brasileira. Sua formação é marxista, e seu berço
foi o Partido Comunista Brasileiro. Por aí se vê que, errado
ou certo, goste-se ou não do caminho que escolheu, pertence à
espécie dos que ingressam na política pela porta da utopia,
não da dos negócios e oportunidades. Isso faz toda a diferença,
na política. Separa os bons dos maus. No entanto, ei-lo, na qualidade
de presidente do PPS, o partido que lançou Ciro Gomes, na zeladoria
da hospedaria de mãe-joana em que se transformou essa candidatura
um ajuntamento de avulsos e oportunistas, amancebamento de antípodas
que reúne da fina flor do coronelismo do Nordeste ao que resta
do caudilhismo do Sul. Na semana passada, como se faltasse a cereja que
coroa o bolo, assistiu-se à adesão da figura memorável
do deputado Inocêncio Oliveira. Ele mesmo: o homem que usou o Dnocs
para abrir poços em suas propriedades, o matreiro mestre do toma-lá-dá-cá
das votações do Congresso. Inocêncio Oliveira é
das figuras mais bufas da política, e das menos dignas do nome
de inocêncio. Não passaria pela mente de Roberto Freire,
nem em pesadelos, que um dia teria a seu lado tal companheiro, por sinal
que pernambucano como ele próprio, e representante mais típico
de uma ordem que, a vida inteira, quis mudar.
A pergunta inicial, "que faz o senador Roberto Freire na campanha de Ciro
Gomes?", tem respostas. O que faz é esperar que sua atual situação
pessoal, penosa como a de alguém que tivesse sido surpreendido
por um bando de intrusos a lhe invadir a casa, obrigando-o a abrigar-se
no quartinho dos fundos, possa ser revertida. Que a sigla que fundou para
substituir o histórico PCB venha a sobreviver com dignidade, sem
ser confundida com legenda de aluguel nem com plataforma de aventuras
narcisistas. Que os apoios de hoje não se traduzam em influência
amanhã. E que as alianças esdrúxulas não venham
a contaminar irremediavelmente o que se planejou como ação
governamental. A experiência passada e a presente correlação
de forças dentro da candidatura Ciro Gomes apontam no entanto para
a direção contrária, em cada um desses itens. Roberto
Freire está unido a Shimon Peres e a Colin Powell não na
solidão do poder. É na solidão da falta de poder.
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