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Edição 1 764 - 14 de agosto de 2002
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Roberto Pompeu de Toledo

Três vezes solidão

O que há em comum entre
o israelense Shimon Peres,
o americano
Colin Powell
e o nosso Roberto Freire

Que faz Shimon Peres no governo Ariel Sharon? Que faz Colin Powell no governo George W. Bush? Por último, e descendo ao nosso nível: que faz o senador Roberto Freire na campanha de Ciro Gomes? Eis três homens de diferentes nacionalidades e experiências, diferentes formações e ideologias, ora irmanados em um traço comum: a solidão.

Shimon Peres descende (talvez seja o último descendente) da melhor linhagem política produzida por Israel – aquela que vem do patriarca David Ben-Gurion, fundador do Estado e seu primeiro primeiro-ministro. Peres iniciou-se na política pelas mãos de Ben-Gurion, de quem foi jovem assessor. O Israel desses começos era a terra do sonho e da esperança. Vivia-se a fase do kibutz e do renascimento do hebraico. Ninguém começa a vida num período como esse, e pelas mãos de um professor como esse, sem se embeber de uma visão humanista, e de um afilado sentido da história. Peres ocupa já há décadas o primeiro plano da política israelense. Sempre esteve do lado melhor – o lado negociador, o que sabe que não há saída senão encontrar um modo de convivência com os árabes. No entanto, ei-lo agora, aos 79 anos, exposto ao risco de pôr a biografia a perder. Por força da coligação entre seu partido, o Trabalhista, e o direitista Likud, é o ministro das Relações Exteriores de um governo que, não bastasse ter como principal marca a destruição, o assassinato e o espezinhamento do inimigo, é ainda responsável por atrair contra Israel uma das maiores ondas de terrorismo já sofridas pelo país.

Colin Powell é o personagem de melhor perfil no atual governo dos Estados Unidos. General de carreira impecável, foi incluído em listas de potenciais candidatos a presidente repetidas vezes, desde que se destacou como chefe do Estado-Maior das Forças Armadas na Guerra do Golfo. Apesar da formação militar e das experiências belicistas, é dono de visão mansa e pacífica do mundo. Para culminar, tem o charme de ser negro. Foi natural, sendo assim, que lhe coubesse o posto de secretário de Estado, de onde se chefia a diplomacia americana, em vez do de secretário da Defesa, de onde se comanda a máquina militar. No entanto, ei-lo um secretário de Estado que perde todas as paradas – era a favor da ratificação do Tratado de Kioto sobre poluição atmosférica e Bush foi contra; era a favor de deixar a porta aberta para algum tipo de negociação com Yasser Arafat e Bush a fechou, para citar apenas dois entre muitos casos. Powell, formado na escola da disciplina, não torna públicas suas divergências com o restante do governo. Engole os sapos e segue em frente. Pode ser, porém, que não vá além da melancólica conclusão de que não serviu senão de enfeite a um governo em que o que vale é a prepotência estulta dos falcões.

Roberto Freire é das figuras mais respeitáveis da política brasileira. Sua formação é marxista, e seu berço foi o Partido Comunista Brasileiro. Por aí se vê que, errado ou certo, goste-se ou não do caminho que escolheu, pertence à espécie dos que ingressam na política pela porta da utopia, não da dos negócios e oportunidades. Isso faz toda a diferença, na política. Separa os bons dos maus. No entanto, ei-lo, na qualidade de presidente do PPS, o partido que lançou Ciro Gomes, na zeladoria da hospedaria de mãe-joana em que se transformou essa candidatura – um ajuntamento de avulsos e oportunistas, amancebamento de antípodas que reúne da fina flor do coronelismo do Nordeste ao que resta do caudilhismo do Sul. Na semana passada, como se faltasse a cereja que coroa o bolo, assistiu-se à adesão da figura memorável do deputado Inocêncio Oliveira. Ele mesmo: o homem que usou o Dnocs para abrir poços em suas propriedades, o matreiro mestre do toma-lá-dá-cá das votações do Congresso. Inocêncio Oliveira é das figuras mais bufas da política, e das menos dignas do nome de inocêncio. Não passaria pela mente de Roberto Freire, nem em pesadelos, que um dia teria a seu lado tal companheiro, por sinal que pernambucano como ele próprio, e representante mais típico de uma ordem que, a vida inteira, quis mudar.

A pergunta inicial, "que faz o senador Roberto Freire na campanha de Ciro Gomes?", tem respostas. O que faz é esperar que sua atual situação pessoal, penosa como a de alguém que tivesse sido surpreendido por um bando de intrusos a lhe invadir a casa, obrigando-o a abrigar-se no quartinho dos fundos, possa ser revertida. Que a sigla que fundou para substituir o histórico PCB venha a sobreviver com dignidade, sem ser confundida com legenda de aluguel nem com plataforma de aventuras narcisistas. Que os apoios de hoje não se traduzam em influência amanhã. E que as alianças esdrúxulas não venham a contaminar irremediavelmente o que se planejou como ação governamental. A experiência passada e a presente correlação de forças dentro da candidatura Ciro Gomes apontam no entanto para a direção contrária, em cada um desses itens. Roberto Freire está unido a Shimon Peres e a Colin Powell não na solidão do poder. É na solidão da falta de poder.

   
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