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Os
frutos do bem
Atenção para o nome de Maria
Lúcia Dal Farra:
ninguém no
Brasil é melhor poeta do que ela
Carlos Graieb
Claudio Rossi
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| Maria
Lúcia: muito além de Adélia Prado |
No
interior de Sergipe, a Fazenda Lajes Velha desfruta de bastante fama.
Sua sede, das mais antigas, remonta à época colonial. Ela
é, dizem, assombrada por um fantasma, cujos passos ressoam noite
adentro. Também abriga 150 gatos, todos eles descendentes de uma
mesma antepassada. Finalmente, a fazenda é o lar de um casal de
escritores. Francisco Dantas, dono do lugar, escreve austeros romances
regionalistas, como Coivara da Memória. Enquanto isso, sua
mulher, Maria Lúcia Dal Farra, vai registrando seu nome no rol
das melhores poetas brasileiras. Sua estréia, Livro de Auras,
data de 1994. Na semana passada, ela lançou Livro de Possuídos
(Iluminuras; 144 páginas; 24 reais) e confirmou que é
dona de uma voz poética altamente original e depurada.
Talvez a melhor maneira de compreender o que há de especial na
poesia de Maria Lúcia seja compará-la à da já
consagrada Adélia Prado. Em boa parte, o universo de ambas coincide:
a casa e seus afazeres, a vida de província, o erotismo no âmbito
do casamento, a família. São autoras que tematizam a "condição
feminina". Maria Lúcia, contudo, tem uma disposição
analítica que está ausente em Adélia. "Ela se aproxima
de seus temas com o olhar de um ensaísta", observa o crítico
José Miguel Wisnik. Isso se torna claro na segunda e notável
seção de Livro de Possuídos. São
poemas com títulos como Melancia, Maçã ou
Espinafre. Eles não expressam somente o contato de uma mulher
(e de uma cozinheira) com as frutas e os vegetais, mas o pensamento de
alguém capaz de retroceder até Plínio, o Velho, no
século I, para buscar informações sobre história
natural e incorporá-las ao poema. Maria Lúcia é também
dona de um ouvido privilegiado. Poucos autores mostram um domínio
comparável do ritmo do verso livre. Quanto às suas referências,
são das mais variadas: há algo dos surrealistas e de Federico
García Lorca nas imagens que compõe, um pouco da aspereza
de João Cabral de Melo Neto e da doçura de Cecília
Meireles em seus versos. Mas são sempre ecos, que não prejudicam
a independência da autora.
Embora
esse Livro de Possuídos seja apenas sua segunda obra, a
paulista Maria Lúcia não é uma novata no trato com
a poesia. Ela tem 57 anos e aposentou-se há quatro, como professora
de literatura. Tem estudos importantes sobre poetas portugueses, como
Florbela Espanca e Herberto Helder, além de uma tese sobre as relações
entre o pensamento esotérico e a poesia de autores franceses do
século XIX, como Charles Baudelaire, autor de As Flores do Mal.
Redigida no começo dos anos 80, a tese permanece inédita.
"Quando pensei em publicá-la, a reação da universidade
foi negativa", conta ela. "Estávamos na ditadura e os colegas me
tacharam de alienada."
Amigo da escritora, assim como leitor de sua obra, José Miguel
Wisnik acredita que a palavra extravagante se aplica bem a ela.
"Extravagância significa sair dos trilhos. Isso é algo que
Maria Lúcia sempre teve coragem de fazer", diz Wisnik. O desvio
mais importante certamente aconteceu em 1983, quando ela deixou seu posto
na Unicamp e foi morar no Nordeste. O episódio, da maneira como
Maria Lúcia o relata, teve algo de folhetinesco. Durante um seminário
em Aracaju, ela foi apresentada a Francisco Dantas. Antes mesmo de trocar
as primeiras palavras, concluiu que, dali em diante, só seria feliz
ao lado dele. No dia seguinte, ela confessou ao marido, com quem estava
casada havia treze anos, que se apaixonara por um outro homem. Dois dias
depois, telefonou a Dantas para confessar-lhe o seu arrebatamento. O sentimento
era recíproco. "Francisco é belo e áspero", diz,
enlevada. "Exatamente como o cáctus do poema de Manuel Bandeira."
Maria Lúcia Dal Farra é uma poeta em tempo integral.
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ALCACHOFRA
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Não
é em altura que seu arbusto
se
ombreia com o pinheiro:
é
pela fruta.
Íntima
amiga da geometria,
do
pinho tão só se distancia
pela
recusa à agreste armadura.
Nenhum
lampejo de indiferença
machuca-lhe
a vestimenta:
antes
a luz emprega no fabrico da alma
tenra (que lateja),
parente
do alegre bem-me-quer,
do
espelhante girassol.
Pertença
da floricultura e da boa
mesa,
ornamenta o paladar
com
a lembrança das nascentes:
não
são de lâmina as escamas,
mas
(degustáveis) dádivas mediterrâneas
dispostas
no coração em tranca.
Apenas
pequenas setas mantém
(em
íntima contenda)
a
provocar torneios entre língua e
dentes.
Cota de cavaleiro andante,
em
que terna demanda atuas?
Poema
de Livro de Possuídos
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