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Estranha
América
O banquete antropofágico do
argentino Juan José Saer na
época dos Descobrimentos
Moacyr
Scliar

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Trata-se
do melhor escritor argentino contemporâneo. Quem o diz é
também grande escritor, e também argentino: Ricardo Piglia.
Falamos de Juan José Saer, autor de O Enteado, publicado
originalmente em 1983 e agora lançado no Brasil (tradução
de José Feres Sabino; Iluminuras; 189 páginas; 25 reais).
Saer é professor universitário e vive em Rennes, na França,
onde leciona na Faculdade de Letras. Sua obra abrange poesia, ensaio,
contos e romance, caso de O Enteado, cuja leitura permite entender
o enorme prestígio de que desfruta. Temos aqui um texto intrigante.
Narrado na primeira pessoa e em flashback o anônimo personagem,
agora idoso, evoca um episódio da juventude , o livro transporta-nos
para a época dos Descobrimentos. Mas trata-se de uma referência
apenas vaga: não há menção a nomes, ou datas,
ou lugares.
O
Enteado conta a história de um rapaz que se alista como grumete
numa expedição à Índia. Rumando para Oeste,
a expedição chega à América, onde seus integrantes
são atacados por índios, mortos e devorados num longamente
descrito banquete antropofágico, ao qual se segue uma orgia, também
minuciosamente comentada. O rapaz é mantido cativo pelos índios,
que posteriormente o liberam. Ele volta a viver no meio dos brancos, perseguido
pelas lembranças de sua vivência na tribo. Saer se inspirou
num episódio verídico, ocorrido em 1516 com o grumete Francisco
del Puerto, que viveu mais de dez anos entre os indígenas da atual
Argentina. Termina aí, porém, toda a verossimilhança.
Porque o autor não pretende, em absoluto, fazer ficção
histórica. Também não se trata de uma aproximação
antropológica ao tema indígena. Não há estudo
do comportamento de índios, nem de sua cultura, nem de sua língua.
Os nativos de Saer comportam-se como uma espécie de personagem
coletivo, um ser multiforme, com muitas cabeças, muitos corpos
e muitos órgãos sexuais. Essa entidade enigmática,
na verdade, é o ponto de partida para uma meditação
sobre a relação com o Outro, com o Estranho. Duplamente
caro a Saer, que é filho de imigrantes sírios e mora atualmente
na Europa, o estranhamento é o tema dessa obra, que justifica o
entusiasmo da crítica internacional e deveria garantir o do público
brasileiro.
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A
céu aberto
"Dessas
costas vazias me restou, sobretudo, a abundância de céu.
Mais de uma vez me senti diminuído sob esse azul dilatado:
na praia amarela, éramos como formigas no centro de um deserto.
E se, agora que sou velho, passo meus dias nas cidades, é
porque nelas a vida é horizontal, porque as cidades dissimulam
o céu. Lá, de noite, ao contrário, dormíamos
a céu aberto, quase achatados pelas estrelas. Estavam como
ao alcance da mão e eram grandes, inumeráveis, sem
muito negrume entre uma e outra, quase faiscantes, como se o céu
tivesse sido a parede perfurada de um vulcão em atividade,
que deixasse entrever, por seus orifícios, a incandescência
interna."
Trecho de O Enteado
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