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De olhos bem abertos
Al
Pacino é o homem bom que
dorme mal em Insônia, o novo
feito do diretor Chris Nolan

Isabela
Boscov
Divulgação
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| Pacino,
como o detetive Will Dormer: sob a luz onipresente do Ártico
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Veja também |
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Diz uma personagem
de Insônia (Insomnia, Estados Unidos, 2002)
que só dois tipos de pessoas conseguem sobreviver na imensidão
gelada do Alasca: as que nasceram lá ou as que estão fugindo
de alguma coisa. Em princípio, o policial Will Dormer (Al Pacino)
e seu parceiro Hap (Martin Donovan) não se encaixam em nenhuma
das duas categorias. No suspense que estréia nesta sexta-feira
no país, eles são detetives de Los Angeles que vão
à cidade de Nightmute, quase no Ártico, colaborar com a
polícia local na busca ao homem que matou brutalmente uma adolescente.
Mas Dormer e Hap têm outros motivos para se enfiar em Nightmute.
Hap está sob investigação. Se admitir seus erros,
vai manchar também a reputação de Dormer - e todos
os criminosos que ele prendeu voltarão às ruas. Dormer não
quer que Hap confesse. Por isso, sente um misto de culpa e alívio
quando, poucas horas depois de sua chegada ao Alasca, mata acidentalmente
o parceiro. O veterano começa, então, a fazer uma matemática
complicada: somar mentiras na esperança de que elas resultem em
uma verdade - a prisão do homem que ele tem a incumbência
de encontrar. Dormer atribui a morte de Hap ao assassino que ele está
perseguindo, o escritor de mistérios Walter Finch (Robin Williams)
- sobre cuja identidade o roteiro não faz nenhum segredo. Substitui
provas do crime por outras, dispensa mandados de busca, oculta informações
dos outros policiais e, por fim, chega ao extremo de fazer um acordo com
Finch. As olheiras de Pacino, que ficam mais fundas a cada cena, não
são só resultado de sua incapacidade de dormir nas noites
ensolaradas do verão ártico. São uma manifestação
física de seu dilema moral.
Insônia
–
adaptado de um thriller norueguês –
é o terceiro, e muito aguardado, filme do diretor Chris Nolan,
que virou celebridade com o sucesso-surpresa Amnésia. Seu filme
anterior chamou a atenção pela habilidade com que manipulava
uma estrutura inusitada. A história era contada de trás
para a frente, de maneira a colocar o espectador na situação
peculiar vivida pelo protagonista –
um homem cujas memórias não duram mais do que alguns minutos.
Amnésia, que rendeu mais de cinco vezes o seu custo de 4,5
milhões de dólares, colocou seu diretor no mapa, entusiasmou
cineastas como Steven Soderbergh –
que, junto com George Clooney, é o produtor do novo filme - e assegurou
um orçamento de 50 milhões de dólares e um elenco
de primeira linha para Insônia. Nolan fez o melhor uso possível
dessas vantagens. Em vez de tentar superar seu truque anterior com outro
mais mirabolante, partiu para provar que é um cineasta de fato,
capaz de extrair o máximo de significado e interesse de uma história
sob muitos pontos de vista clássica.
O que não
quer dizer que ela seja convencional. Insônia é uma
espécie de noir branco: seus personagens são repletos
de zonas escuras, mas tentam escondê-las da melhor maneira possível
sob a luz onipresente do Ártico. Nolan é também um
roteirista talentoso, que mantém o suspense mesmo com todas as
cartas na mesa. Por fim, é um diretor de atores inspirado. Sob
seu comando, Al Pacino controla seu histrionismo para compor uma de suas
atuações mais complexas e Hilary Swank (de Meninos Não
Choram) mostra nuances insuspeitadas como uma policial cujo entusiasmo
será temperado pelas suas descobertas. O verdadeiro milagre de
Nolan, contudo, foi colocar rédeas nos exageros de Robin Williams
e torná-lo perturbador e discreto no papel de um assassino. Um
diretor com esse poder é capaz de qualquer outra coisa –
até de sobreviver em Hollywood.
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