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Bateu,
levou
Em
Nunca Mais, Jennifer Lopez
propõe uma saída polêmica para
o problema da violência doméstica

Isabela
Boscov

Veja também |
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Passados
alguns anos de idílio conjugal, Jennifer Lopez descobre que seu
marido tem não uma, mas várias amantes. Reclama e, em vez
de ouvir um pedido de desculpas, leva primeiro um tapa, depois um soco
e então um chute - com a promessa de que, de onde esses vieram,
há muitos mais por vir. Como tantas outras mulheres vítimas
da violência doméstica, a protagonista de Nunca Mais
(Enough, Estados Unidos, 2002), que estréia nesta sexta-feira
no país, hesita em chamar a polícia. Ela tem medo da reação
do marido e acredita que é preciso poupar a filha pequena do trauma
de ver o pai algemado ou atrás das grades. Ao contrário
do que seria o mais sensato, Jennifer não procura a Justiça
nem quando fica claro que seu ex quer botar as mãos nela a qualquer
custo. Cansada de fugir - ou talvez de usar o péssimo corte de
cabelo que adota para se disfarçar -, ela decide dar o troco na
mesma moeda. Submete-se a um treinamento-relâmpago em artes marciais,
invade a casa do tirano e o surra sem dó, bem mais do que seria
desculpável. Pode ser uma boa catarse, mas é também
um bocado fantasioso, e eticamente muito discutível. Jennifer,
entenda-se, não quer só que o marido violento deixe de existir.
Quer espancá-lo com o mesmo sadismo com que ele a atormentou. Some-se
a isso um ingrediente de demonização social - a protagonista
era uma garçonete modesta até cometer a imprudência
de se casar com um príncipe yuppie - e tem-se em Nunca Mais
um exemplar bizarro de uma certa vertente vingativa do feminismo.
Van Redim
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| Jennifer,
com seu penteado de fugir do marido: curso rápido de artes marciais |
Não que não haja um certo gostinho em ver uma mulher revidar.
Especialmente se ela estiver coberta de razão, como a tenente Ripley
de Alien ou a Sarah Connor da série Exterminador do Futuro.
Grandes admiradores da força feminina - moral, antes de tudo -,
os diretores Ridley Scott e James Cameron foram pioneiros em combinar
a figura da "mãe coragem" à do herói de
ação. Com a sobrevivência e a continuidade ameaçadas,
as personagens interpretadas por Sigourney Weaver e Linda Hamilton se
vêem na contingência de partir para o pugilato. Além
das armas de praxe da mulher em perigo - a astúcia, a presença
de espírito e a discrição -, elas descobriam contar
com uma musculatura que ainda era uma relativa novidade no final dos anos
70 e início dos 80, quando esses filmes foram feitos.
A tenente Ripley e Sarah Connor também contavam com a sorte, por
assim dizer, de não ter nenhuma ligação emocional
- nem tampouco filhos ou conta conjunta - com os alienígenas e
robôs empenhados em destruí-las. Num pequeno clássico
de 1948, Uma Vida por um Fio, o diretor Anatole Litvak mostra o
pânico de uma personagem que tem todos esses pontos contra ela.
Barbara Stanwyck faz uma milionária inválida, presa à
sua cama. Ao ouvir uma conversa numa linha cruzada, descobre que o marido
planeja um assassinato, e que ela é a vítima pretendida.
Sua única arma de defesa será sua inteligência. Litvak
habilmente ressalta os verdadeiros motivos por trás da agressão
- que aqui fica apenas subentendida, como convinha a uma época
mais recatada - de um homem contra uma mulher: a covardia e a impotência
(ou ao menos o medo dela), no sentido mais amplo da palavra. Burt Lancaster,
que faz o marido de Barbara, é um fracassado. Seus negócios
dão errado, ele deve dinheiro a tipos desprezíveis e tem
de abaixar a cabeça para todo mundo. A única pessoa a quem
ele pode impor sua virilidade, e de quem ele pode tirar dinheiro, é
a mulher.
Para homens assim, previsivelmente não há susto maior do
que ter essa virilidade questionada. É isso o que faz Robert De
Niro se descontrolar e bater na mulher, a ex-garota de programa Sharon
Stone, no Cassino de Martin Scorsese. Até filmes chinfrins
como Dormindo com o Inimigo - no qual Julia Roberts se livrava
de um marido abusivo com algumas braçadas e um acidente providencial
- sabem que é aí que mora o perigo. É dessa forma
também que começam as desventuras de Susan Sarandon e Geena
Davis em Thelma & Louise: um caubói interpreta mal o
flerte de Geena, fica enfurecido com a rejeição dela, tenta
dobrá-la à força e a coisa acaba em morte - por puro
acidente. Agora, Jennifer Lopez vem propor que esse tipo trágico
de acaso vire método (aliás, completamente desaconselhado
do ponto de vista jurídico): segundo Nunca Mais, não
há nada mais eficaz do que imitar o pior do comportamento masculino
e se tornar uma mulher não de pulso, mas de punhos.
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Mais
tapas que beijos
Fox Film
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Cic

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| Sigourney,
em Aliens 2: um cruzamento de "mãe coragem" com herói
de ação |
Barbara,
com Burt Lancaster, em Uma Vida por um Fio: armada apenas
de astúcia |
Universal Pictures
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De Niro e Sharon, em Cassino:
o medo da impotência |
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