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Edição 1 764 - 14 de agosto de 2002
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Bateu, levou

Em Nunca Mais, Jennifer Lopez
propõe uma saída polêmica para
o problema da violência doméstica

Isabela Boscov


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Trailer do filme

Passados alguns anos de idílio conjugal, Jennifer Lopez descobre que seu marido tem não uma, mas várias amantes. Reclama e, em vez de ouvir um pedido de desculpas, leva primeiro um tapa, depois um soco e então um chute - com a promessa de que, de onde esses vieram, há muitos mais por vir. Como tantas outras mulheres vítimas da violência doméstica, a protagonista de Nunca Mais (Enough, Estados Unidos, 2002), que estréia nesta sexta-feira no país, hesita em chamar a polícia. Ela tem medo da reação do marido e acredita que é preciso poupar a filha pequena do trauma de ver o pai algemado ou atrás das grades. Ao contrário do que seria o mais sensato, Jennifer não procura a Justiça nem quando fica claro que seu ex quer botar as mãos nela a qualquer custo. Cansada de fugir - ou talvez de usar o péssimo corte de cabelo que adota para se disfarçar -, ela decide dar o troco na mesma moeda. Submete-se a um treinamento-relâmpago em artes marciais, invade a casa do tirano e o surra sem dó, bem mais do que seria desculpável. Pode ser uma boa catarse, mas é também um bocado fantasioso, e eticamente muito discutível. Jennifer, entenda-se, não quer só que o marido violento deixe de existir. Quer espancá-lo com o mesmo sadismo com que ele a atormentou. Some-se a isso um ingrediente de demonização social - a protagonista era uma garçonete modesta até cometer a imprudência de se casar com um príncipe yuppie - e tem-se em Nunca Mais um exemplar bizarro de uma certa vertente vingativa do feminismo.


Van Redim
Jennifer, com seu penteado de fugir do marido: curso rápido de artes marciais


Não que não haja um certo gostinho em ver uma mulher revidar. Especialmente se ela estiver coberta de razão, como a tenente Ripley de Alien ou a Sarah Connor da série Exterminador do Futuro. Grandes admiradores da força feminina - moral, antes de tudo -, os diretores Ridley Scott e James Cameron foram pioneiros em combinar a figura da "mãe coragem" à do herói de ação. Com a sobrevivência e a continuidade ameaçadas, as personagens interpretadas por Sigourney Weaver e Linda Hamilton se vêem na contingência de partir para o pugilato. Além das armas de praxe da mulher em perigo - a astúcia, a presença de espírito e a discrição -, elas descobriam contar com uma musculatura que ainda era uma relativa novidade no final dos anos 70 e início dos 80, quando esses filmes foram feitos.

A tenente Ripley e Sarah Connor também contavam com a sorte, por assim dizer, de não ter nenhuma ligação emocional - nem tampouco filhos ou conta conjunta - com os alienígenas e robôs empenhados em destruí-las. Num pequeno clássico de 1948, Uma Vida por um Fio, o diretor Anatole Litvak mostra o pânico de uma personagem que tem todos esses pontos contra ela. Barbara Stanwyck faz uma milionária inválida, presa à sua cama. Ao ouvir uma conversa numa linha cruzada, descobre que o marido planeja um assassinato, e que ela é a vítima pretendida. Sua única arma de defesa será sua inteligência. Litvak habilmente ressalta os verdadeiros motivos por trás da agressão - que aqui fica apenas subentendida, como convinha a uma época mais recatada - de um homem contra uma mulher: a covardia e a impotência (ou ao menos o medo dela), no sentido mais amplo da palavra. Burt Lancaster, que faz o marido de Barbara, é um fracassado. Seus negócios dão errado, ele deve dinheiro a tipos desprezíveis e tem de abaixar a cabeça para todo mundo. A única pessoa a quem ele pode impor sua virilidade, e de quem ele pode tirar dinheiro, é a mulher.

Para homens assim, previsivelmente não há susto maior do que ter essa virilidade questionada. É isso o que faz Robert De Niro se descontrolar e bater na mulher, a ex-garota de programa Sharon Stone, no Cassino de Martin Scorsese. Até filmes chinfrins como Dormindo com o Inimigo - no qual Julia Roberts se livrava de um marido abusivo com algumas braçadas e um acidente providencial - sabem que é aí que mora o perigo. É dessa forma também que começam as desventuras de Susan Sarandon e Geena Davis em Thelma & Louise: um caubói interpreta mal o flerte de Geena, fica enfurecido com a rejeição dela, tenta dobrá-la à força e a coisa acaba em morte - por puro acidente. Agora, Jennifer Lopez vem propor que esse tipo trágico de acaso vire método (aliás, completamente desaconselhado do ponto de vista jurídico): segundo Nunca Mais, não há nada mais eficaz do que imitar o pior do comportamento masculino e se tornar uma mulher não de pulso, mas de punhos.

 

Mais tapas que beijos


Fox Film

Cic

Sigourney, em Aliens 2: um cruzamento de "mãe coragem" com herói de ação Barbara, com Burt Lancaster, em Uma Vida por um Fio: armada apenas de astúcia


Universal Pictures





De Niro e Sharon, em Cassino:
o medo da impotência


   
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