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A súbita conversão
de Mr. O'Neill
Com apoio
dos EUA, FMI dá ajuda
privilegiada ao Brasil e libera
empréstimo de 30 bilhões de
dólares para amaciar o período
de transição até o próximo governo
AFP
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Reuters
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| O'Neill:
palavras duras para o Brasil antes e, depois, apoio. Malan e Fraga:
credibilidade foi decisiva para um acordo rápido |

Veja também |
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O que fez
Paul O'Neill, secretário do Tesouro dos Estados Unidos, passar
em poucos dias de crítico mordaz a garoto-propaganda da economia
brasileira? Há tempos ele não perde uma chance de estocar
os mecanismos de ajuda financeira do Fundo Monetário Internacional
(FMI) e do Banco Mundial a países endividados. Com certa dose de
razão, diga-se. Afinal, quase 50% dos recursos desses organismos
saem do bolso dos contribuintes americanos, por cuja integridade o secretário
do Tesouro tem o dever de zelar. Mas o fato é que Mr. O'Neill acabou
fazendo na semana passada, durante sua visita ao Brasil, um veemente elogio
público aos condutores das finanças públicas brasileiras.
Em São Paulo, num encontro com jornalistas, O'Neill mostrou gráficos
muito convincentes do equilíbrio fiscal do país. Em alguns
momentos, brandindo alegremente o documento de capa verde-amarela nas
mãos, o americano parecia um fã agitando uma bandeirinha
brasileira. Menos de 48 horas depois da visita do secretário, o
FMI liberou um empréstimo de 30 bilhões de dólares
para o Brasil. Seis bilhões na mão e o restante ao longo
de 2003, com a condição de que o novo presidente mantenha
intactas as políticas estabilizadoras atuais. Em troca do empréstimo,
o Fundo não impôs novas exigências. Determinou que
o Brasil mantenha a meta de superávit primário (receitas
menos despesas do país, excluindo os juros) de 3,75% do produto
interno bruto até 2005. O piso das reservas internacionais do país
também dá mais fôlego para enfrentar o humor do mercado
e segurar a cotação do câmbio. Até agora o
Banco Central precisava ter em caixa pelo menos 15 bilhões de dólares.
A partir do acordo, bastam 5 bilhões de dólares.
A ação
de ajuda foi tão fulminante que até mesmo nos Estados Unidos
despertou uma desconfiança específica, exposta de modo mais
claro pelo economista Paul Krugman em sua coluna nos jornais: "O FMI ajudou
o Brasil ou os Estados Unidos?". Ajudou a ambos. Os números mostram
que as economias brasileira e americana atingiram um grau de entrelaçamento
tal que, atualmente, aquilo que é ruim para o Brasil passa também
a ser um transtorno para os EUA. No dia do anúncio do empréstimo
do FMI ao Brasil, as bolsas americanas subiram, segundo um jornal de economia
dos Estados Unidos, "num ritmo de samba". Que uma gripe das bolsas americanas
gera pneumonia no Brasil é sabido. Nunca se deu atenção
à possibilidade inversa. Pois bem, aconteceu. A notícia
do empréstimo do FMI ao Brasil provocou um efeito positivo em Wall
Street. Mais do que positivo, eufórico. As razões para isso
são sólidas e têm desta vez pouco a ver com as percepções
dos mercados em relação à solidez da economia brasileira.
Para começo de conversa, empresas e bancos americanos têm
enorme quantidade de capital de risco passeando pelo Brasil. O economista
Paul Erdman calcula que só o Citibank e o FleetBoston têm,
juntos, 20 bilhões de dólares em capital de risco no mercado
brasileiro. Empresas americanas já combalidas por fraudes contábeis
ou pelo ambiente recessivo em seu país de origem, como a WorldCom,
dona da brasileira Embratel, a General Motors e a gigante de energia AES,
fizeram investimentos bilionários no Brasil nos últimos
quatro anos. O patrimônio total das empresas americanas no país
ultrapassa os 200 bilhões de reais.
Marco de Bari
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| Linha
de montagem da GM: Brasil é o terceiro mercado da empresa |
Portanto, quando o Brasil recebe algum tipo de ajuda financeira internacional,
essas companhias se beneficiam dele da mesma forma que os brasileiros.
Elas apostaram no modelo de capitalismo proposto pela globalização
ao longo dos anos 90 tanto quanto os contribuintes e o governo brasileiros.
"O acordo com o FMI representa um crédito dado à democracia
brasileira e à política econômica adotada pelo Brasil.
Ficou demonstrado que o país é importante para o mundo",
diz Mario Marconini, diretor executivo do Centro Brasileiro de Relações
Internacionais (Cebri). "Das 500 maiores empresas americanas, 420 têm
subsidiárias no Brasil", lembra Rubens Barbosa, embaixador brasileiro
nos Estados Unidos. Segundo a consultoria A.T. Kearney, nos últimos
cinco anos, o Brasil recebeu cerca de 150 bilhões de dólares
em investimentos diretos estrangeiros. Deste total, 20% vieram dos EUA.
No ano passado, o Brasil ocupou a terceira posição no ranking
mundial de investimentos externos. Os Estados Unidos também teriam
muito a perder com o aprofundamento da crise brasileira. As empresas americanas
com interesses no país fizeram um lobby aberto junto ao FMI e ao
Tesouro americano para que o acordo saísse rapidamente. A Câmara
Americana de Comércio mandou a George W. Bush um manifesto em que
lembra ao presidente americano o fato de que as economias dos dois países
são hoje muito mais interdependentes que há cinco anos.
Tecnicamente
o acordo foi acertado em apenas uma semana, embora as negociações
políticas tenham tomado quase um mês. Pela rapidez do pedido
à aprovação, pelo volume de recursos e pelo fato
de se tratar de uma ajuda a um governo a poucos meses de seu fim, ficou
clara também uma guinada de atitudes do próprio FMI. Depois
das experiências decepcionantes da aplicação do receituário
ortodoxo do Fundo na Ásia e principalmente na Rússia e na
Argentina, a hierarquia do FMI passou a ter apenas o Brasil como vitrine
de sua ideologia econômica baseada na austeridade fiscal e na submissão
dos governos à disciplina implacável dos mercados. Por essa
ótica, a ajuda-relâmpago ao Brasil teria tido também
um componente de instinto de preservação da burocracia do
Fundo. O jornal inglês Financial Times, em seu editorial
de quinta-feira passada, tocou diretamente nessa ferida: "Um fracasso
do acordo destruirá não apenas a frágil economia
brasileira, como também a própria razão de ser do
FMI".
Antonio Milena
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| Batons
produzidos pela Avon: maior força de vendas está no Brasil |
Criado em 1944 justamente para prever e prevenir o alastramento de crises
financeiras, o FMI é um clube formado por cerca de 180 países-membros
que contribuem com cotas em dinheiro calculadas de acordo com a riqueza
de cada um. A cota dos Estados Unidos chegou a um valor acumulado de 55
bilhões de dólares no ano passado. Quando um membro pede
ajuda e o Fundo concorda com o empréstimo ele cobra juros sempre
abaixo do mercado. O Brasil vai pagar 2,2% de juros ao ano pelo empréstimo
obtido na última semana.
O professor
Joseph Stiglitz, ganhador do Prêmio Nobel de Economia e uma das
maiores pedras no sapato do FMI, sustenta há tempos que o Fundo
vem produzindo mais estragos do que aprimoramentos nas economias que pretende
ajudar. Stiglitz também considera decisiva a cartada do Fundo na
semana passada. "Os economistas do FMI já erraram muito. Não
resistiriam a mais uma decepção", disse Stiglitz.
Boa parte
do impacto apaziguador do anúncio do acordo foi neutralizada na
sexta-feira com a boataria no mercado financeiro dando conta da desistência
de José Serra de sua candidatura à Presidência. O
dólar fechou o dia de negócios em alta, a 3,02 reais. A
bolsa caiu 3%, perdendo quase todo o ganho do dia anterior. Ficou claro
que, mesmo com o dinheiro do empréstimo do FMI pingando nos cofres,
a travessia da campanha eleitoral até a posse do novo presidente
será marcada pela volatilidade. VEJA ouviu na semana passada os
cinco maiores bancos brasileiros e uma dezena de analistas financeiros.
Na média, eles estão prevendo que o dólar estará
custando 2,60 reais em dezembro, quando a campanha terá passado
e o novo presidente já terá anunciado seus planos de governo.
O economista Gustavo Loyola, da consultoria Tendências, ex-presidente
do Banco Central, construiu um cenário do que pode ocorrer no Brasil
durante esse processo de travessia. Loyola não acredita em rupturas
radicais que coloquem em perigo as conquistas econômicas trazidas
pela estabilidade. "O Ciro é o mais imprevisível, mas mesmo
assim não acredito que ele desestabilizaria o país", diz
Loyola. Um governo Lula, na visão dele, manteria a estabilidade
com um grau grande de intervencionismo do Estado na economia. Serra seria
o governo da continuidade, mas também com doses grandes de intervencionismo.
O cenário
mostra um mundo exterior com aversão ao risco. Os países
ricos continuarão com suas políticas restritivas de empréstimos,
e as empresas brasileiras com endividamento em moeda forte terão
crescente dificuldade de rolagem de seus empréstimos mesmo
quando a cotação do dólar apontar para baixo. Os
bancos americanos são obrigados por imposição do
Federal Reserve (Fed) a "diminuir sua exposição" nos países
emergentes sempre que uma crise surge no horizonte. Em jargão financeiro
isso significa que eles não podem, mantido o atual estado de desconfiança,
continuar emprestando no mesmo ritmo a empresas latino-americanas, mesmo
que desejem. Essa determinação do Fed está sendo
levada a ferro e fogo pelos bancos americanos a um ponto que estrangulou
completamente as linhas de crédito para as empresas dos países
emergentes. "Como não terá poder sobre o ambiente externo
e continuará precisando de capitais, o novo governo, seja qual
for, deverá manter a austeridade e aprofundar as reformas", diz
Loyola. A autonomia do Banco Central e o rearranjo tributário que
barateie as exportações são as mais urgentes e prováveis
dessas reformas.
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Criação
do FMI
AP
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Ano:
1994
Local: na cidade de Bretton Woods, nos Estados Unidos
Objetivo:
estabelecer cooperação econômica internacional
para evitar políticas econômicas desastrosas, como
as que levaram à Grande Depressão dos anos 30
Número
de países-membros: 184
Quem manda mais: Estados Unidos, com 17% dos votos, seguidos
da Alemanha e do Japão, com 6%, e Reino Unido e França,
com 5%. O Brasil tem 1,4%
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