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Edição 1 764 - 14 de agosto de 2002
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A súbita conversão
de Mr. O'Neill

Com apoio dos EUA, FMI dá ajuda
privilegiada ao Brasil e libera
empréstimo de 30 bilhões de
dólares para amaciar o período
de transição até o próximo governo


AFP
Reuters
O'Neill: palavras duras para o Brasil antes e, depois, apoio. Malan e Fraga: credibilidade foi decisiva para um acordo rápido


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O que fez Paul O'Neill, secretário do Tesouro dos Estados Unidos, passar em poucos dias de crítico mordaz a garoto-propaganda da economia brasileira? Há tempos ele não perde uma chance de estocar os mecanismos de ajuda financeira do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial a países endividados. Com certa dose de razão, diga-se. Afinal, quase 50% dos recursos desses organismos saem do bolso dos contribuintes americanos, por cuja integridade o secretário do Tesouro tem o dever de zelar. Mas o fato é que Mr. O'Neill acabou fazendo na semana passada, durante sua visita ao Brasil, um veemente elogio público aos condutores das finanças públicas brasileiras. Em São Paulo, num encontro com jornalistas, O'Neill mostrou gráficos muito convincentes do equilíbrio fiscal do país. Em alguns momentos, brandindo alegremente o documento de capa verde-amarela nas mãos, o americano parecia um fã agitando uma bandeirinha brasileira. Menos de 48 horas depois da visita do secretário, o FMI liberou um empréstimo de 30 bilhões de dólares para o Brasil. Seis bilhões na mão e o restante ao longo de 2003, com a condição de que o novo presidente mantenha intactas as políticas estabilizadoras atuais. Em troca do empréstimo, o Fundo não impôs novas exigências. Determinou que o Brasil mantenha a meta de superávit primário (receitas menos despesas do país, excluindo os juros) de 3,75% do produto interno bruto até 2005. O piso das reservas internacionais do país também dá mais fôlego para enfrentar o humor do mercado e segurar a cotação do câmbio. Até agora o Banco Central precisava ter em caixa pelo menos 15 bilhões de dólares. A partir do acordo, bastam 5 bilhões de dólares.

A ação de ajuda foi tão fulminante que até mesmo nos Estados Unidos despertou uma desconfiança específica, exposta de modo mais claro pelo economista Paul Krugman em sua coluna nos jornais: "O FMI ajudou o Brasil ou os Estados Unidos?". Ajudou a ambos. Os números mostram que as economias brasileira e americana atingiram um grau de entrelaçamento tal que, atualmente, aquilo que é ruim para o Brasil passa também a ser um transtorno para os EUA. No dia do anúncio do empréstimo do FMI ao Brasil, as bolsas americanas subiram, segundo um jornal de economia dos Estados Unidos, "num ritmo de samba". Que uma gripe das bolsas americanas gera pneumonia no Brasil é sabido. Nunca se deu atenção à possibilidade inversa. Pois bem, aconteceu. A notícia do empréstimo do FMI ao Brasil provocou um efeito positivo em Wall Street. Mais do que positivo, eufórico. As razões para isso são sólidas e têm desta vez pouco a ver com as percepções dos mercados em relação à solidez da economia brasileira. Para começo de conversa, empresas e bancos americanos têm enorme quantidade de capital de risco passeando pelo Brasil. O economista Paul Erdman calcula que só o Citibank e o FleetBoston têm, juntos, 20 bilhões de dólares em capital de risco no mercado brasileiro. Empresas americanas já combalidas por fraudes contábeis ou pelo ambiente recessivo em seu país de origem, como a WorldCom, dona da brasileira Embratel, a General Motors e a gigante de energia AES, fizeram investimentos bilionários no Brasil nos últimos quatro anos. O patrimônio total das empresas americanas no país ultrapassa os 200 bilhões de reais.

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Portanto, quando o Brasil recebe algum tipo de ajuda financeira internacional, essas companhias se beneficiam dele da mesma forma que os brasileiros. Elas apostaram no modelo de capitalismo proposto pela globalização ao longo dos anos 90 tanto quanto os contribuintes e o governo brasileiros. "O acordo com o FMI representa um crédito dado à democracia brasileira e à política econômica adotada pelo Brasil. Ficou demonstrado que o país é importante para o mundo", diz Mario Marconini, diretor executivo do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri). "Das 500 maiores empresas americanas, 420 têm subsidiárias no Brasil", lembra Rubens Barbosa, embaixador brasileiro nos Estados Unidos. Segundo a consultoria A.T. Kearney, nos últimos cinco anos, o Brasil recebeu cerca de 150 bilhões de dólares em investimentos diretos estrangeiros. Deste total, 20% vieram dos EUA. No ano passado, o Brasil ocupou a terceira posição no ranking mundial de investimentos externos. Os Estados Unidos também teriam muito a perder com o aprofundamento da crise brasileira. As empresas americanas com interesses no país fizeram um lobby aberto junto ao FMI e ao Tesouro americano para que o acordo saísse rapidamente. A Câmara Americana de Comércio mandou a George W. Bush um manifesto em que lembra ao presidente americano o fato de que as economias dos dois países são hoje muito mais interdependentes que há cinco anos.

Tecnicamente o acordo foi acertado em apenas uma semana, embora as negociações políticas tenham tomado quase um mês. Pela rapidez do pedido à aprovação, pelo volume de recursos e pelo fato de se tratar de uma ajuda a um governo a poucos meses de seu fim, ficou clara também uma guinada de atitudes do próprio FMI. Depois das experiências decepcionantes da aplicação do receituário ortodoxo do Fundo na Ásia e principalmente na Rússia e na Argentina, a hierarquia do FMI passou a ter apenas o Brasil como vitrine de sua ideologia econômica baseada na austeridade fiscal e na submissão dos governos à disciplina implacável dos mercados. Por essa ótica, a ajuda-relâmpago ao Brasil teria tido também um componente de instinto de preservação da burocracia do Fundo. O jornal inglês Financial Times, em seu editorial de quinta-feira passada, tocou diretamente nessa ferida: "Um fracasso do acordo destruirá não apenas a frágil economia brasileira, como também a própria razão de ser do FMI".

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Criado em 1944 justamente para prever e prevenir o alastramento de crises financeiras, o FMI é um clube formado por cerca de 180 países-membros que contribuem com cotas em dinheiro calculadas de acordo com a riqueza de cada um. A cota dos Estados Unidos chegou a um valor acumulado de 55 bilhões de dólares no ano passado. Quando um membro pede ajuda e o Fundo concorda com o empréstimo ele cobra juros sempre abaixo do mercado. O Brasil vai pagar 2,2% de juros ao ano pelo empréstimo obtido na última semana.

O professor Joseph Stiglitz, ganhador do Prêmio Nobel de Economia e uma das maiores pedras no sapato do FMI, sustenta há tempos que o Fundo vem produzindo mais estragos do que aprimoramentos nas economias que pretende ajudar. Stiglitz também considera decisiva a cartada do Fundo na semana passada. "Os economistas do FMI já erraram muito. Não resistiriam a mais uma decepção", disse Stiglitz.

Boa parte do impacto apaziguador do anúncio do acordo foi neutralizada na sexta-feira com a boataria no mercado financeiro dando conta da desistência de José Serra de sua candidatura à Presidência. O dólar fechou o dia de negócios em alta, a 3,02 reais. A bolsa caiu 3%, perdendo quase todo o ganho do dia anterior. Ficou claro que, mesmo com o dinheiro do empréstimo do FMI pingando nos cofres, a travessia da campanha eleitoral até a posse do novo presidente será marcada pela volatilidade. VEJA ouviu na semana passada os cinco maiores bancos brasileiros e uma dezena de analistas financeiros. Na média, eles estão prevendo que o dólar estará custando 2,60 reais em dezembro, quando a campanha terá passado e o novo presidente já terá anunciado seus planos de governo. O economista Gustavo Loyola, da consultoria Tendências, ex-presidente do Banco Central, construiu um cenário do que pode ocorrer no Brasil durante esse processo de travessia. Loyola não acredita em rupturas radicais que coloquem em perigo as conquistas econômicas trazidas pela estabilidade. "O Ciro é o mais imprevisível, mas mesmo assim não acredito que ele desestabilizaria o país", diz Loyola. Um governo Lula, na visão dele, manteria a estabilidade com um grau grande de intervencionismo do Estado na economia. Serra seria o governo da continuidade, mas também com doses grandes de intervencionismo.

O cenário mostra um mundo exterior com aversão ao risco. Os países ricos continuarão com suas políticas restritivas de empréstimos, e as empresas brasileiras com endividamento em moeda forte terão crescente dificuldade de rolagem de seus empréstimos – mesmo quando a cotação do dólar apontar para baixo. Os bancos americanos são obrigados por imposição do Federal Reserve (Fed) a "diminuir sua exposição" nos países emergentes sempre que uma crise surge no horizonte. Em jargão financeiro isso significa que eles não podem, mantido o atual estado de desconfiança, continuar emprestando no mesmo ritmo a empresas latino-americanas, mesmo que desejem. Essa determinação do Fed está sendo levada a ferro e fogo pelos bancos americanos a um ponto que estrangulou completamente as linhas de crédito para as empresas dos países emergentes. "Como não terá poder sobre o ambiente externo e continuará precisando de capitais, o novo governo, seja qual for, deverá manter a austeridade e aprofundar as reformas", diz Loyola. A autonomia do Banco Central e o rearranjo tributário que barateie as exportações são as mais urgentes e prováveis dessas reformas.


 

Criação do FMI


AP

Ano: 1994

Local: na cidade de Bretton Woods, nos Estados Unidos

Objetivo: estabelecer cooperação econômica internacional para evitar políticas econômicas desastrosas, como as que levaram à Grande Depressão dos anos 30

Número de países-membros: 184

Quem manda mais: Estados Unidos, com 17% dos votos, seguidos da Alemanha e do Japão, com 6%, e Reino Unido e França, com 5%. O Brasil tem 1,4%



 
 
   
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