
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|

Na televisão
(e também fora dela),
a forma como os candidatos se
apresentam é tão importante
quanto aquilo que eles dizem

João
Gabriel de Lima

Veja também |
|
|
|
Quando vão
a um debate, candidatos se armam de estatísticas, preparam perguntas
capciosas, esmiuçam a biografia dos adversários. Tudo isso,
no entanto, não é tão efetivo quanto parece. Para
uma parte significativa da audiência, o que conta é o grau
de segurança que os presidenciáveis passam, a veemência
de seus gestos, a simpatia pessoal. Numa palavra, a imagem que conseguem
transmitir. Para se ter uma idéia de como a maioria dos eleitores
enxerga os candidatos, VEJA encomendou ao Instituto Vox Populi uma pesquisa
qualitativa sobre o debate de domingo passado na TV Bandeirantes. Foram
selecionados, em São Paulo, dez homens e mulheres entre 25 e 45
anos, pertencentes à classe C, a mais requisitada nesse tipo de
pesquisa por seu pensamento corresponder ao da média do eleitorado.
Todos tinham também em comum o fato de integrar a fatia dos indecisos.
No grupo de discussão, foram mostrados trechos do debate, primeiro
com a televisão sem som, e depois com som. O dado mais curioso
da pesquisa é que nenhum dos temas levantados pelos presidenciáveis
isso mesmo, nenhum foi discutido pelos integrantes do grupo.
Nenhuma estatística foi questionada, ninguém concordou nem
discordou de nada do que foi dito, poucos se deram conta dos assuntos
que estavam em pauta. Para avaliar Lula, Ciro, Serra e Garotinho, inclusive
conferindo-lhes notas (veja quadros ao longo desta reportagem), as
pessoas basearam-se unicamente no que viram. Não houve praticamente
nenhuma diferença entre a avaliação com som e o julgamento
sem som. Em resumo: a forma prevaleceu sobre o conteúdo.
Durante a
pesquisa, todos ouviam calados quando Ciro Gomes e Lula falavam. O grupo
se dispersava nas intervenções de Serra e Garotinho. "Isso
é um indício do maior carisma dos primeiros", analisa a
psicóloga Elizabeth Andrade Fontenelle, do Vox Populi, mediadora
do encontro. No caso de Ciro Gomes, considerado o melhor pelo grupo recrutado
pelo instituto de pesquisa, ficou evidente que a comparação
com o ex-presidente Fernando Collor de Mello pode estar mais carregada
de positividade do que de aspectos negativos. Assim como Collor em 1989,
ele passa a impressão de elegância, juventude e capacidade
para atingir seus objetivos. Aos olhos dos eleitores, Lula, que ficou
em segundo lugar, é o sujeito que saiu do nada e "chegou lá".
Sua indignação soa, agora, mais parecida com a do chefe
de família da classe média que tenta esticar o salário
no fim do mês do que a de um incendiário que prega a revolução
socialista.
Essas constatações
que vieram à tona na pesquisa embutem um ponto complexo e que sofreu
mutações no decorrer da história: a de como se delineia
e se fixa a imagem pública de um líder político.
Até o surgimento da moderna democracia, no final do século
XVIII, tiranos e reis impunham-se, no mais das vezes, pelo medo que inspiravam.
Se houvesse marqueteiros na Roma antiga, eles muito provavelmente aconselhariam
aos imperadores que caprichassem nas expressões ameaçadoras
era o que fazia Calígula, que costumava treinar caretas
ao espelho, antes de aparecer em público. Mesmo os príncipes
do Renascimento, responsáveis pelo patrocínio de delicadas
e transformadoras obras de arte e arquitetura, eram instados a reiterar
uma imagem enérgica e cruel. Os conselhos de Maquiavel, em seu
famoso livro O Príncipe, são exemplares nesse sentido.
Evidentemente,
com o desenvolvimento dos sistemas políticos representativos, a
imagem pública dos líderes teve de ganhar outros contornos.
Ela não deveria mais aterrorizar, e sim convencer. Esse convencimento
se dá no plano psicológico de duas formas: pela identificação
com o homem do povo ou pela personificação de suas aspirações
mais nobres. Dificilmente por ambas ao mesmo tempo. Para reforçar
a identificação, alguns usam roupas baratas, como fazia
Jânio Quadros. Outros exageram no sotaque caipira, como Orestes
Quércia e José Dirceu, e comem coxinha no boteco, recurso
generalizado entre os políticos brasileiros. Uma imagem que corresponde
a aspirações elevadas é a do presidente Fernando
Henrique Cardoso. Por mais que os eleitores o desaprovem, é impossível
negar que sua cultura, refinamento e desenvoltura no cenário internacional
são tudo aquilo que, no íntimo, boa parte dos brasileiros
gostaria de ter.
Dentro dessa
linha de raciocínio, o caso de Lula merece reflexão. Ex-operário
que se manteve umbilicalmente ligado a suas origens, o petista não
precisa recorrer a expedientes artificiais para garantir uma identificação
imediata com a maioria dos eleitores brasileiros. Por sua trajetória
bem-sucedida na política, podia representar também uma aspiração.
Não era o que ocorria, pelo menos até pouco tempo atrás,
porque sua imagem desgrenhada, tão ao gosto dos intelectuais de
esquerda, incomodava o eleitor mais pobre. Este via em Lula uma pessoa
tão igual a ele que não parecia ser capaz de realizar saltos
mais ambiciosos. O petista perdeu três eleições seguidas,
uma para Collor e duas para Fernando Henrique, e agora vem operando uma
mudança radical de imagem. A conselho de seu marqueteiro, anda
sempre com bons ternos, tem visitado e recebido estadistas estrangeiros,
discute economia com empresários tudo devidamente registrado
pela mídia impressa e televisiva. A mudança de estilo já
começa a dar resultados nos grupos qualitativos. Na pesquisa encomendada
por VEJA, afirmações como "venceu na vida" e "chegou a vez
dele" apareceram mais do que frases do tipo "gente como a gente".
Na era da
indústria cultural, o cuidado com a imagem pública tem de
ser redobrado. Isso porque, por obra de fotógrafos e diretores
de televisão, ela pode ganhar uma autonomia indesejada, desgrudando-se
da personalidade de carne e osso que a gerou e voltando-se contra ela.
O exemplo clássico é o do presidente americano Franklin
Delano Roosevelt, que governou de 1933 a 1945. Ele pilotou o New Deal,
o ambicioso projeto socioeconômico que tirou os Estados Unidos da
Grande Depressão, levou o país à vitória na
II Guerra e consolidou a liderança americana no mundo. Fez tudo
isso preso a uma cadeira de rodas, vítima da poliomielite. Seus
assessores, no entanto, proibiam que o presidente fosse fotografado na
cadeira. A despeito de todas as realizações e da personalidade
carismática de Roosevelt, eles achavam que exibir o seu problema
físico o fragilizaria perante a população.
Os métodos
de aferição da força ou da fraqueza de uma imagem
pública foram sendo aperfeiçoados à medida que se
fortalecia a modalidade conhecida como marketing político. Hoje,
um dos procedimentos mais utilizados pelos institutos que fazem pesquisas
qualitativas em época de eleições é o "retrato
chinês". Os participantes dos grupos de discussão são
chamados a comparar cada candidato com um animal, um prato, um estilo
musical, uma marca de carro etc. O importante é que os eleitores
efetivamente consigam montar o retrato. Isso configura quão forte
é a imagem do político. No grupo formado a pedido de VEJA,
Serra e Garotinho apareceram com retratos pouco definidos. Ainda por encomenda
da revista, o Instituto Vox Populi reuniu um segundo grupo de discussão,
composto de meninas e meninos de 9 a 12 anos, pertencentes à classe
B. Na avaliação das crianças, o império da
imagem revela-se em estado puro. Elas julgam unicamente pelo que vêem,
porque não têm informações prévias sobre
os candidatos. Entre os quatro presidenciáveis, Lula foi considerado
"o mais chato" e também "o mais sério" (veja quadro abaixo).
Para os pequenos, ele seria também o mais rico, por ser o que
mais apareceria na televisão. "Quem vai muito à TV só
pode ter muito dinheiro", disse um deles. Garotinho seria "o mais legal",
um adulto que provavelmente brincaria com crianças (detalhe: ninguém
sabia no grupo que o candidato do PSB é pai de nove filhos). Ciro
e Serra obtiveram pouca repercussão. Se a eleição
fosse feita entre as crianças, Lula ficaria em primeiro lugar,
Garotinho em segundo, Ciro em terceiro e Serra em quarto. Apesar de pouco
simpático, o candidato do PT, para elas, tem "mais cara de presidente".
Não deixa de ser uma outra boa notícia para os marqueteiros
de Lula.
|
AS
CRIANÇAS E OS POLÍTICOS
Meninas e meninos de 9 a 12 anos, moradores de São Paulo,
foram convidados a fazer colagens sobre os principais candidatos
à Presidência, a partir do que viram num trecho do
debate. Abaixo, os resultados:
Eles
acham que Lula...
...é
o mais rico
...é
elegante
...é
o mais chato
Se
fosse um professor, seria...
...o de matemática. Não deixaria que os alunos fizessem
bagunça

Eles
acham que Serra...
...é
elegante
...cansativo
como um professor
...é
a cara de São Paulo
Se
fosse um professor, seria...
...o de ciências. Explica tudo detalhadamente

Eles
acham que Ciro...
...é
elegante
...tem
uma casa bonita e organizada
...tem
um cabelo esquisito
Se
fosse um professor, seria...
...o de português. Faz questão de falar bonito

Eles
acham que Garotinho...
...é
o mais legal
...gosta
de brincar com crianças
...é
alegre e descontraído
Se
fosse um professor, seria...
...o de educação artística. Deixaria a bagunça
correr solta na classe
Fonte:
Vox Populi
|
|
|
 |
|
 |

|
 |