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Os
emergentes
Oito anos após o fim do apartheid,
milionários negros vivem como os
brancos na África do Sul
José
Eduardo Barella
Oito
anos depois do fim do apartheid, seis em cada dez negros da África
do Sul ainda estão abaixo da linha de pobreza. A taxa de desemprego
entre eles é quase cinco vezes maior que a observada entre os brancos.
Mas há algo diferente no horizonte: uma novíssima classe
de milionários negros. São empresários, altos executivos,
profissionais liberais, comerciantes e até mesmo líderes
políticos que tiveram uma ascensão meteórica após
a democratização, em 1994, marcada pela transferência
do poder dos brancos para a maioria negra. Em 1996, os negros representavam
apenas 13% dos sul-africanos mais ricos. Hoje, eles já somam 23%
e, aos poucos, começam a ocupar espaços antes reservados
à minoria branca. Trocaram os violentos bairros negros pelos subúrbios
ricos das grandes cidades, nos quais no passado só podiam entrar
como trabalhadores. É comum os novos vizinhos serem confundidos
pelos brancos com empregados, motoristas ou jardineiros, o que cria situações
embaraçosas. Abu Nayiluma, um comerciante negro de 35 anos que
fez fortuna com uma rede de lojas de discos, lavava seu BMW na frente
de casa, num bairro rico de Johannesburgo, quando um homem branco perguntou
se ele não queria ganhar um trocado lavando seu carro em seguida.
Os
clubes de golfe são um bom exemplo da transformação
em curso. Na época do apartheid, os negros limitavam-se a carregar
os tacos dos brancos. Hoje, em alguns deles, grande parte dos jogadores
é formada por negros abastados, que chegam em carros importados
e fecham negócios entre uma tacada e outra exatamente como
os brancos. Muitos desses novos milionários negros admitem o desconforto
de viver com luxo enquanto a maioria, incluindo parentes e amigos, continua
amargando a pobreza e o desemprego. "Carros de luxo e telefone celular
são, para mim, uma forma de celebrar o sucesso", afirma Nayiluma,
o dono das lojas de discos. "Um modo de dizer para os outros negros que
é possível chegar lá." Logo que mudou o regime, houve
casos de enriquecimento suspeito. Pelo menos trinta deputados trocaram
a política pela iniciativa privada. Foram atraídos por empresas
que admitiram negros influentes para obter contratos com o governo. Ou
simplesmente para melhorar sua imagem pública.
Mas a maior parcela dessa nova categoria de milionários tem em
torno de 40 anos e nunca se envolveu com política. É oriunda
da classe média negra que começou a surgir nas grandes cidades
no ocaso do regime racista. Para tentar minimizar o fosso social criado
pelo apartheid, o governo sul-africano estuda conceder alguns privilégios
aos negros. Uma idéia é entregar pelo menos 40% dos incentivos
oficiais destinados à iniciativa privada a empresas controladas
por negros. O assunto é polêmico, pois isso irá afetar
diretamente a minoria branca que ainda ocupa os melhores postos
no mercado de trabalho. "Em alguns setores estratégicos, não
há negros qualificados para substituí-los", disse a VEJA
o analista Ian Marsberg, da empresa de consultoria sul-africana DRI-Wefa.
Um exemplo é o mercado financeiro. Por enquanto, 98% das ações
negociadas na Bolsa de Valores de Johannesburgo ainda estão nas
mãos dos brancos. E não será um decreto que vai mudar
essa situação da noite para o dia.
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