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Edição 1 764 - 14 de agosto de 2002
Internacional Arábia Saudita

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Dilema na pátria
de Bin Laden

Fanatismo islâmico complica as
relações dos EUA com seu melhor
aliado no Golfo, a Arábia Saudita

José Eduardo Barella

Os atentados de 11 de setembro colocaram os Estados Unidos diante de um dilema: como lidar com o Reino da Arábia Saudita, seu principal aliado no mundo árabe? Quinze dos dezenove terroristas eram cidadãos sauditas. Osama bin Laden, chefão da Al Qaeda, nasceu numa proeminente família do reino. Dos 564 terroristas capturados no Afeganistão e mantidos prisioneiros na base de Guantánamo, 150 são sauditas. O dinheiro coletado nas mesquitas sauditas financia a propagação do fundamentalismo islâmico no exterior e paga os explosivos usados nos atentados suicidas em cafés e ônibus israelenses. Os sauditas proibiram o uso de suas bases por aviões americanos que iam bombardear o Afeganistão. Também não vão permitir que os Estados Unidos usem seu território para atacar o Iraque. Na semana passada, um documento colocado em discussão no Pentágono esquentou o assunto ao propor que a Casa Branca passe a tratar a Arábia Saudita como seu pior inimigo no Oriente Médio. "Os sauditas são ativos em todos os níveis da cadeia do terror", diz o relatório preparado pela Rand Organization, um influente centro de pesquisas conservador. "De planejadores a financiadores, de recrutadores a soldados, de ideólogos a entusiastas." A sugestão dos autores era a que Riad recebesse um ultimato: ou pára de apoiar o terrorismo, ou seus poços de petróleo e seus investimentos nos Estados Unidos serão confiscados.

O governo americano apressou-se em declarar que não endossava a proposta. Problema com a Arábia Saudita é a última coisa que o presidente George W. Bush deseja num momento em que os Estados Unidos afiam as garras para depor o ditador iraquiano Saddam Hussein. Os dois países mantêm sólida amizade desde que o petróleo começou a jorrar como água no Golfo Pérsico, nos anos 40. A Arábia Saudita representa o principal mercado dos produtos americanos no Oriente Médio. Os Estados Unidos importam 1,5 milhão de barris de petróleo saudita por dia e, como clientes preferenciais, têm desconto de 1 dólar por barril – o que significa um abatimento anual de meio bilhão de dólares. Já os sauditas têm uma dívida de gratidão. Há doze anos, quando Saddam Hussein invadiu o Kuwait e ameaçou incendiar os poços de petróleo do Golfo, os americanos lideraram uma aliança militar que, na prática, salvou a pele da família real saudita.

A pergunta no ar, evidentemente, é se o reino é mesmo o berço do terrorismo islâmico ou se o surgimento de Osama bin Laden foi acidental. A resposta: o país que abriga um quarto das reservas mundiais de petróleo é uma versão menos rústica do mesmo tipo de fundamentalismo que, aplicado no miserável Afeganistão, causou horror ao mundo. Na Arábia Saudita não há repulsa por tecnologia, como havia no Talibã. Mas, da mesma forma, as mulheres só saem à rua cobertas dos pés à cabeça. Os sauditas mandam seus filhos estudar em universidades americanas e européias. Mas punem com chibatadas quem não respeita as normas da seita wahabita, a mesma severa versão do Islã que inspirou os mulás afegãos. Essa ambigüidade não chega a surpreender. Como berço do profeta Maomé, a Arábia Saudita é a terra santa dos muçulmanos. Com uma espada na mão, o xeque Abdul Aziz ibn Saud criou o país nos anos 30 e deu ao reino seu próprio nome. A dinastia Saud proclamou-se guardiã dos lugares santos de Meca e exerce seu poder em nome da defesa dos preceitos do wahabismo.

O fundamentalismo islâmico sempre ditou os padrões de comportamento da população. Teatros, boates e cinemas são proibidos na Arábia Saudita, assim como o consumo de bebidas alcoólicas. As mulheres andam com o corpo totalmente coberto e sofrem várias restrições. Não podem dirigir, conversar ou andar em público ao lado de um saudita. Homens e mulheres são impedidos de trabalhar juntos, exceto nos hospitais. A censura está presente até nas capas de CDs de cantoras ocidentais – cuja foto recebe uma tarja preta. Em Riad, o governo abriu um parque só para mulheres, para que elas possam passear com os filhos pequenos. As contradições entre o rigor religioso e o mundo moderno são bem visíveis nos luxuosos shopping centers. Para driblar a proibição de relacionamento dos dois sexos, os vendedores das lojas são todos estrangeiros. Mas os estabelecimentos não têm provadores, pois as mulheres poderiam ser vistas sem o manto. Para facilitar-lhes a vida, um shopping de Riad criou um andar só para elas, acessível por um elevador exclusivo. Ali estão disponíveis lojas, salão de beleza, academia de ginástica e até banco. O atendimento e a segurança são feitos por mulheres, vestidas com roupas ocidentais. É comum uma saudita chegar coberta da cabeça aos pés, entrar num vestiário do piso exclusivo e sair passeando de jeans e camiseta.

A segregação acaba criando situações curiosas. Nas cerimônias de casamento, o noivo se reúne com os parentes e amigos num salão. Em outro, a noiva recebe as mulheres. O casal só se junta para as fotos ao lado do bolo. No McDonald's e em outras lanchonetes e restaurantes, as mulheres entram numa fila própria e, depois de ser atendidas, desaparecem no "setor familiar" – uma sala fechada, pois os homens não podem vê-las comendo. A polícia religiosa está atenta ao mínimo deslize em público. Às vezes com resultados trágicos. Em março, durante um incêndio numa escola feminina, impediu que as alunas deixassem o prédio por estarem sem os mantos. Quinze adolescentes morreram carbonizadas. Ficar de olho no relógio é uma necessidade. Quando chega a hora da reza – os muçulmanos a fazem cinco vezes por dia –, lojas, supermercados e restaurantes diminuem as luzes e trancam as portas. Quinze minutos depois, tudo volta ao normal.

A riqueza e a modernização das últimas décadas produziram arranha-céus no deserto e uma elite acostumada a viver de forma nababesca. Mas o preço internacional do petróleo caiu, a população triplicou e a renda per capita despencou em duas décadas de 28.600 para 7.000 dólares, igual à dos argentinos. Desacostumados ao trabalho num país em que a riqueza brotava sozinha do solo, os sauditas são considerados preguiçosos e indisciplinados. A maioria trabalha em repartições públicas, enquanto os 6 milhões de estrangeiros ocupam 90% dos postos do setor privado. O pouco empenho dos sauditas em pegar no batente parece buscar inspiração na família real – uma legião de 7.000 príncipes, a maioria ocupando cargos estratégicos no governo. Incluindo os agregados, a parentela real chega a 30.000 pessoas, concentra mais de 40% da renda nacional e não tem pudor em esbanjar dinheiro – hábito herdado dos tempos de bonança dos petrodólares.

A monarquia saudita vive hoje um processo sucessório. O trono é passado de irmão para irmão, entre os 44 filhos do fundador da nação. Ainda restam 25 filhos vivos, todos com mais de 60 anos. Na prática, a Arábia Saudita é um país de jovens governado por velhos. O rei Fahd, de 79 anos, sofreu um derrame em 1995 e está afastado do poder. Seu meio-irmão, príncipe Abdullah, de 78 anos, encarregado de comandar o governo, cortou benefícios de quase 4.000 príncipes para amenizar os gastos da casa real. As iniciativas de Abdullah não impediram que o rei Fahd, mesmo doente, confirmasse sua viagem de férias para Marbella, cidade de praia na Espanha, onde a família possui um palácio de verão de 120 milhões de dólares. Pelo menos 2.000 parentes voaram da Arábia Saudita na semana passada para acompanhar o descanso real. Os gastos diários da delegação, incluindo hotéis, restaurantes, butiques de luxo e aluguel de carros importados, deverão injetar cerca de 5 milhões de dólares na economia de Marbella – o que explica o apelido de reino da fantasia que acompanha a família real saudita.

 
 
   
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