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Dilema
na pátria
de Bin Laden
Fanatismo islâmico complica as
relações
dos EUA com seu melhor
aliado
no Golfo, a Arábia Saudita
José Eduardo Barella
Os atentados de 11 de setembro colocaram os Estados Unidos diante de um
dilema: como lidar com o Reino da Arábia Saudita, seu principal
aliado no mundo árabe? Quinze dos dezenove terroristas eram cidadãos
sauditas. Osama bin Laden, chefão da Al Qaeda, nasceu numa proeminente
família do reino. Dos 564 terroristas capturados no Afeganistão
e mantidos prisioneiros na base de Guantánamo, 150 são sauditas.
O dinheiro coletado nas mesquitas sauditas financia a propagação
do fundamentalismo islâmico no exterior e paga os explosivos usados
nos atentados suicidas em cafés e ônibus israelenses. Os
sauditas proibiram o uso de suas bases por aviões americanos que
iam bombardear o Afeganistão. Também não vão
permitir que os Estados Unidos usem seu território para atacar
o Iraque. Na semana passada, um documento colocado em discussão
no Pentágono esquentou o assunto ao propor que a Casa Branca passe
a tratar a Arábia Saudita como seu pior inimigo no Oriente Médio.
"Os sauditas são ativos em todos os níveis da cadeia do
terror", diz o relatório preparado pela Rand Organization, um influente
centro de pesquisas conservador. "De planejadores a financiadores, de
recrutadores a soldados, de ideólogos a entusiastas." A sugestão
dos autores era a que Riad recebesse um ultimato: ou pára de apoiar
o terrorismo, ou seus poços de petróleo e seus investimentos
nos Estados Unidos serão confiscados.
O governo americano apressou-se em declarar que não endossava a
proposta. Problema com a Arábia Saudita é a última
coisa que o presidente George W. Bush deseja num momento em que os Estados
Unidos afiam as garras para depor o ditador iraquiano Saddam Hussein.
Os dois países mantêm sólida amizade desde que o petróleo
começou a jorrar como água no Golfo Pérsico, nos
anos 40. A Arábia Saudita representa o principal mercado dos produtos
americanos no Oriente Médio. Os Estados Unidos importam 1,5 milhão
de barris de petróleo saudita por dia e, como clientes preferenciais,
têm desconto de 1 dólar por barril o que significa
um abatimento anual de meio bilhão de dólares. Já
os sauditas têm uma dívida de gratidão. Há
doze anos, quando Saddam Hussein invadiu o Kuwait e ameaçou incendiar
os poços de petróleo do Golfo, os americanos lideraram uma
aliança militar que, na prática, salvou a pele da família
real saudita.
A pergunta no ar, evidentemente, é se o reino é mesmo o
berço do terrorismo islâmico ou se o surgimento de Osama
bin Laden foi acidental. A resposta: o país que abriga um quarto
das reservas mundiais de petróleo é uma versão menos
rústica do mesmo tipo de fundamentalismo que, aplicado no miserável
Afeganistão, causou horror ao mundo. Na Arábia Saudita não
há repulsa por tecnologia, como havia no Talibã. Mas, da
mesma forma, as mulheres só saem à rua cobertas dos pés
à cabeça. Os sauditas mandam seus filhos estudar em universidades
americanas e européias. Mas punem com chibatadas quem não
respeita as normas da seita wahabita, a mesma severa versão do
Islã que inspirou os mulás afegãos. Essa ambigüidade
não chega a surpreender. Como berço do profeta Maomé,
a Arábia Saudita é a terra santa dos muçulmanos.
Com uma espada na mão, o xeque Abdul Aziz ibn Saud criou o país
nos anos 30 e deu ao reino seu próprio nome. A dinastia Saud proclamou-se
guardiã dos lugares santos de Meca e exerce seu poder em nome da
defesa dos preceitos do wahabismo.
O fundamentalismo islâmico sempre ditou os padrões de comportamento
da população. Teatros, boates e cinemas são proibidos
na Arábia Saudita, assim como o consumo de bebidas alcoólicas.
As mulheres andam com o corpo totalmente coberto e sofrem várias
restrições. Não podem dirigir, conversar ou andar
em público ao lado de um saudita. Homens e mulheres são
impedidos de trabalhar juntos, exceto nos hospitais. A censura está
presente até nas capas de CDs de cantoras ocidentais cuja
foto recebe uma tarja preta. Em Riad, o governo abriu um parque só
para mulheres, para que elas possam passear com os filhos pequenos. As
contradições entre o rigor religioso e o mundo moderno são
bem visíveis nos luxuosos shopping centers. Para driblar a proibição
de relacionamento dos dois sexos, os vendedores das lojas são todos
estrangeiros. Mas os estabelecimentos não têm provadores,
pois as mulheres poderiam ser vistas sem o manto. Para facilitar-lhes
a vida, um shopping de Riad criou um andar só para elas, acessível
por um elevador exclusivo. Ali estão disponíveis lojas,
salão de beleza, academia de ginástica e até banco.
O atendimento e a segurança são feitos por mulheres, vestidas
com roupas ocidentais. É comum uma saudita chegar coberta da cabeça
aos pés, entrar num vestiário do piso exclusivo e sair passeando
de jeans e camiseta.
A segregação acaba criando situações curiosas.
Nas cerimônias de casamento, o noivo se reúne com os parentes
e amigos num salão. Em outro, a noiva recebe as mulheres. O casal
só se junta para as fotos ao lado do bolo. No McDonald's e em outras
lanchonetes e restaurantes, as mulheres entram numa fila própria
e, depois de ser atendidas, desaparecem no "setor familiar" uma
sala fechada, pois os homens não podem vê-las comendo. A
polícia religiosa está atenta ao mínimo deslize em
público. Às vezes com resultados trágicos. Em março,
durante um incêndio numa escola feminina, impediu que as alunas
deixassem o prédio por estarem sem os mantos. Quinze adolescentes
morreram carbonizadas. Ficar de olho no relógio é uma necessidade.
Quando chega a hora da reza os muçulmanos a fazem cinco
vezes por dia , lojas, supermercados e restaurantes diminuem as
luzes e trancam as portas. Quinze minutos depois, tudo volta ao normal.
A riqueza e a modernização das últimas décadas
produziram arranha-céus no deserto e uma elite acostumada a viver
de forma nababesca. Mas o preço internacional do petróleo
caiu, a população triplicou e a renda per capita despencou
em duas décadas de 28.600 para 7.000 dólares, igual à
dos argentinos. Desacostumados ao trabalho num país em que a riqueza
brotava sozinha do solo, os sauditas são considerados preguiçosos
e indisciplinados. A maioria trabalha em repartições públicas,
enquanto os 6 milhões de estrangeiros ocupam 90% dos postos do
setor privado. O pouco empenho dos sauditas em pegar no batente parece
buscar inspiração na família real uma legião
de 7.000 príncipes, a maioria ocupando cargos estratégicos
no governo. Incluindo os agregados, a parentela real chega a 30.000 pessoas,
concentra mais de 40% da renda nacional e não tem pudor em esbanjar
dinheiro hábito herdado dos tempos de bonança dos
petrodólares.
A monarquia saudita vive hoje um processo sucessório. O trono é
passado de irmão para irmão, entre os 44 filhos do fundador
da nação. Ainda restam 25 filhos vivos, todos com mais de
60 anos. Na prática, a Arábia Saudita é um país
de jovens governado por velhos. O rei Fahd, de 79 anos, sofreu um derrame
em 1995 e está afastado do poder. Seu meio-irmão, príncipe
Abdullah, de 78 anos, encarregado de comandar o governo, cortou benefícios
de quase 4.000 príncipes para amenizar os gastos da casa real.
As iniciativas de Abdullah não impediram que o rei Fahd, mesmo
doente, confirmasse sua viagem de férias para Marbella, cidade
de praia na Espanha, onde a família possui um palácio de
verão de 120 milhões de dólares. Pelo menos 2.000
parentes voaram da Arábia Saudita na semana passada para acompanhar
o descanso real. Os gastos diários da delegação,
incluindo hotéis, restaurantes, butiques de luxo e aluguel de carros
importados, deverão injetar cerca de 5 milhões de dólares
na economia de Marbella o que explica o apelido de reino da fantasia
que acompanha a família real saudita.
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