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99|00|01|02 |
A
temperatura sobe e
os candidatos se
engalfinham na disputa com promessas,
mentiras
e denúncias
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Mauricio Lima e Sandra Brasil
O boneco Pinóquio, cujo nariz crescia a cada mentira, forneceu a inspiração. Agora, é Serróquio contra Ciróquio. A campanha entrou numa fase em que José Serra se armou para bombardear não as idéias de Ciro Gomes, candidato que o vem demolindo nas pesquisas, mas a reputação do adversário. Percebendo o movimento, os aliados de Ciro decidiram contra-atacar na mesma moeda. Durante a semana, um chamou o outro de mentiroso sempre que a oportunidade surgiu. "Vamos mostrar que este cidadão é o Ciróquio", definiu o deputado Geddel Vieira Lima, do PMDB da Bahia. O outro lado tenta criar o Serróquio.
O comitê de Serra entrou na guerra com profissionalismo. Contratou assessores acostumados a preparar dossiês. A turma vai conferir o teor de cada declaração dada por Ciro. Objetivo: ignorar as verdadeiras e colocar uma lente de aumento nas afirmações imprecisas ou equivocadas. Na semana passada, o comitê tucano atribuía a Ciro seis mentiras. Uma delas: tentando explicar por que decidiu aliar-se ao ex-senador Antonio Carlos Magalhães, a quem chamava de "pau de galinheiro", o candidato do PPS disse que os ataques se encerraram após a morte do deputado Luís Eduardo Magalhães, filho de ACM. Descobriu-se que não é nada disso. Luís Eduardo morreu em 1998, e a frase do "pau de galinheiro" foi dita por Ciro no ano seguinte.
Ciróquio para cá, Serróquio para lá. Em outdoors, José Serra tem se apresentado como o responsável pelo seguro-desemprego. Não é verdade. "Se o seguro-desemprego tem um pai, é Sarney", afirmou o ex-ministro do Trabalho de José Sarney Almir Pazzianotto, ex-presidente do Tribunal Superior do Trabalho. O seguro-desemprego foi criado em 1986. Coube a Serra, durante a elaboração da nova Constituição, dois anos depois, criar uma fonte de financiamento estável para o benefício. "O Boeing 747 é muito melhor que o 14 Bis, mas quem inventou o avião foi Santos Dumont", diz Pazzianotto. Por enquanto, de acordo com os números do Ibope, Ciro Gomes está ganhando a guerra.
Se
for eleito, prometo...
Paulo Jares![]() |
| Lula prometeu fazer plataformas no Brasil: idéia interessante, mas jamais testada pelos estaleiros nacionais |
Durante o debate da Rede Bandeirantes, os quatro candidatos ao Palácio do Planalto fizeram juntos dezessete promessas diferentes. O campeão foi José Serra, com sete. Ciro Gomes ficou em segundo lugar, com quatro. Lula e Garotinho empataram com três promessas cada um. Existem promessas de todos os tipos. Por recomendação dos marqueteiros, os candidatos costumam evitar a discussão sobre o que exatamente estão propondo e de que forma, com que recursos, pretendem cumprir o prometido. Em alguns casos, as propostas são tão vagas que o eleitor não dispõe dos elementos para aferir a sua consistência. Não passam de promessas que refletem um desejo que, de acordo com a assessoria do candidato, pode sensibilizar a opinião pública. Serra falou num programa de estágio para jovens, Lula defendeu o fomento às cooperativas de crédito e Ciro propôs a criação de um fundo para sustentar a pré-escola. Quem for contra uma delas que se apresente.
O problema
é quando se entra nos detalhes. Anthony Garotinho defendeu um aumento
do salário mínimo. Ao explicar os detalhes, no entanto,
o candidato do PSB falou em elevar o mínimo de 200 reais para 280
reais. Trata-se de um aumento real de 40% de uma só vez. O salário
mínimo recebe reajustes anuais. Para chegar a 40% de aumento real,
o governo federal levou oito anos. Seria adorável que fosse possível
governar assim, e melhor ainda se o salário mínimo pudesse
ser de 1.000 reais. Acontece que cada real
a mais no salário mínimo custa 180 milhões de reais
por ano à Previdência. Os tais 40% de aumento propostos por
Garotinho ampliariam o rombo da Previdência Social de 50 bilhões
de reais por ano para algo como 65 bilhões. Ou seja, criariam um
buraco adicional nas contas previdenciárias da ordem de 30%. O
dinheiro necessário para implementar a promessa é equivalente
a tudo o que o governo gasta com educação durante um ano
e um terço da economia nas contas públicas prometida no
acordo firmado com o Fundo Monetário Internacional na semana passada.
"O acordo com o FMI iria para o espaço", diz o economista Raul
Velloso, de Brasília, especializado em contas públicas.
Jorge Araujo/Folha Imagem![]() |
| Serra fala em 8 milhões de empregos: só se o Brasil dobrar a atual taxa de crescimento |
Existe um outro tipo de proposta eleitoral, que não é irreal,
mas malandrinha. José Serra prometeu gerar 8 milhões de
empregos, e é possível conferir os detalhes de seu projeto
no programa de governo. O problema é que, para que isso aconteça,
o Brasil deve crescer 4,5% do PIB ao ano. E mais: se o país crescer
a essa taxa, os tais 8 milhões de empregos serão criados
naturalmente, sem necessidade da mão do governo. O tucano foi o
único candidato que falou em obra pública, um recurso conhecido
dos políticos para seduzir eleitores. Serra disse que pretende
concluir a pavimentação da Rodovia CuiabáSantarém.
A estrada, que tem 1.770 quilômetros
de extensão, é considerada estratégica para a economia
brasileira. Metade dela foi capeada em 1985. O restante aguarda asfalto
até hoje. Em 1994, durante a campanha, o então candidato
Fernando Henrique Cardoso também disse que, se eleito, terminaria
a rodovia. Oito anos se passaram, os buracos da pista cresceram, as pontes
estão em estado precário e tudo o que se fez foram alguns
remendos. Para concluir a rodovia, o governo precisava de 500 milhões
de reais, dinheiro que não existia. Aliás, não existe
até hoje.
Os campeões das pesquisas também fizeram das suas. Ciro, ao falar da mudança no sistema de previdência (veja item "Sangue, suor e lágrimas", abaixo), e Lula, ao falar de seus planos para gerar empregos. O candidato petista prometeu que, se eleito, vai deixar de comprar plataformas de petróleo no exterior para fabricá-las no Brasil. A idéia soa espetacular, mas a tecnologia disponível no Brasil permite que apenas a parte mais simples de uma plataforma, como os alojamentos e as instalações onde ficam os trabalhadores, possa ser feita aqui. A parte mais complexa, como os cascos responsáveis pela flutuação, exige uma tecnologia apurada, que os estaleiros nacionais nunca tiveram oportunidade de testar. O custo certamente seria muito mais alto e a eficiência, uma incógnita. São promessas de início de campanha.
Sangue, suor e lágrimas
Políticos em campanha costumam dar destaque às promessas que rendem voto. Falam sobre emprego, casa própria e combate à criminalidade. São ações necessárias, mas condicionadas à eliminação de alguns entraves da economia como a legislação trabalhista, que parece proteger o emprego, mas na verdade desestimula a contratação; a carga tributária, que suga 34% do PIB do país; e os gastos previdenciários. Sem mexer nesses vespeiros, a economia não voltará a crescer, e não haverá recursos para o cumprimento das promessas. Os políticos evitam tratar desses assuntos porque são complexos e, numa leitura apressada, podem ser compreendidos como a supressão de direitos conquistados pela sociedade.
No debate da Rede Bandeirantes, apenas Ciro Gomes se atreveu a discutir um desses entraves, o da Previdência. Mas vendeu sonho ao fazê-lo. Hoje, a Previdência requer 130 bilhões de reais por ano para pagar os aposentados da iniciativa privada e os do governo. Mas arrecada só 80 bilhões. Ciro prometeu eliminar o rombo de 50 bilhões criando um novo modelo previdenciário. No atual, os trabalhadores da ativa recolhem para um caixa coletivo, do qual se sacam as aposentadorias. O presidenciável defendeu um sistema consagrado internacionalmente pelo qual cada pessoa na ativa manteria uma conta-poupança individual. O conjunto das contas formaria um fundo que financiaria o futuro dos cotistas.
Correto do ponto de vista lógico, o sistema requer uma fortuna para entrar em vigor. Numa fase de transição que duraria até trinta anos, os aposentados pelo regime atual não receberiam do fundo, mas do Tesouro Nacional. Ou seja, ao mesmo tempo que financiaria sua aposentadoria, o contribuinte precisaria também bancar o custo dos aposentados de hoje. Ciro disse que a transição custaria 8% do PIB. Só que é 8% do PIB por ano, durante trinta anos! A transição custaria entre 200% e 240% do PIB aos cofres públicos. Impagável.
Espelho,
espelho meu...
Fotos Antonio Milena![]() |
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| O
PUNHO DA CAMISA DE SERRA As mangas da camisa estavam compridas demais, para desespero dos marqueteiros |
O
COLARINHO DE LULA
O colarinho italiano, escolhido por Lula, é desaconselhado para quem, como ele, tem o pescoço largo e curto |
A
COR DA CAMISA DE GAROTINHO Garotinho escolheu usar camisa azul, decisão arriscada segundo os especialistas |
O
NÓ DA GRAVATA DE CIRO GOMES Fino e curto demais para o tipo de camisa que o candidato escolheu |
Para os eleitores, o debate dos presidenciáveis da Rede Bandeirantes começou às 9 e meia da noite de domingo. Para os candidatos, os preparativos começaram bem mais cedo. Em 1989, Lula chegou aos estúdios da televisão para o debate final com Fernando Collor praticamente direto de um compromisso político. Descobriu ali, depois de perder a batalha, que encontros desse tipo se assemelham a jogos de futebol. É preciso treinar, desenvolver táticas de ataque e defesa e estar descansado para a refrega. Desta vez, Lula seguiu o manual. No sábado, a cúpula da campanha submeteu o candidato a um treinamento intensivo. O trabalho consiste em reunir numa sala um grupo de assessores que fazem para o candidato toda sorte de perguntas, das mais generosas às mais duras. Cabe a ele dar as respostas e depois fazer ajustes conforme a avaliação do grupo. O encontro durou sete horas.
Afiado no conteúdo, veio a fase do relaxamento. No começo da tarde do dia do debate, Lula seguiu para outro hotel, onde se submeteu a uma sessão de massagem que durou uma hora. Em seguida, o candidato petista dormiu mais de uma hora. Chegado o momento de se vestir, Lula colocou a roupa selecionada pela assessoria: terno escuro, camisa branca de colarinho aberto, tipo italiano, e gravata de tom avermelhado. A escolha das cores não foi aleatória. O marqueteiro Duda Mendonça havia despachado dois produtores para fotografar o estúdio da Bandeirantes. Queria conhecer a cor do cenário. No mesmo dia, cinco pessoas reuniram-se para analisar as fotos e escolher, no guarda-roupa montado para Lula, a melhor combinação com a cor das paredes do estúdio da TV Bandeirantes.
Com o tucano José Serra, a produção não foi menos rigorosa. O treinamento das perguntas ocorreu em duas etapas uma três dias antes do debate e outra na tarde do próprio domingo. Precavido, antes de sair de casa Serra não fez a barba com lâminas, mas com barbeador elétrico, para evitar cortes. Orientado pela figurinista argentina Lidia Fá, Serra chegou ao estúdio da emissora usando terno azul-marinho da grife italiana Ermenegildo Zegna e gravata bordô com detalhes em prata e branco, da Aramis. Das oito gravatas apresentadas por Lidia, Serra optou pela bordô. Mas acabou vestindo outra ao entrar em cena, pois Lidia temia que os desenhos do modelo chamassem muito a atenção, por causa da luz forte do estúdio. A figurinista selecionou então uma gravata azul-escura com desenhos discretos, da Gucci. Serra fez a troca no camarim da Band.
Quando o tucano começou a gesticular durante o debate, Lidia notou algo imprevisto. As mangas da camisa nova estavam compridas demais e os punhos saíam do paletó a cada movimento. "Só percebi na hora do debate. Não vai acontecer de novo. Comecei a trabalhar na campanha na semana do debate. Vou encomendar camisas sob medida para ele num camiseiro", explica a figurinista.
Ciro Gomes chegou à emissora já maquiado. A responsável pelo visual do candidato foi a mulher dele, a atriz Patrícia Pillar. Ela ajudou a escolher o terno marinho, a gravata bordô com listras discretas e a camisa branca. A escolha mostrou-se acertada, mas os olhares mais observadores recomendam ajustes da próxima vez. O nó da gravata ficou curto e fino para o tipo de colarinho selecionado. "Não me preocupei com a roupa do Ciro porque ele usa ternos escuros e gravatas discretas. De modo geral, ele já era elegante, e melhorou depois que começou a namorar a Patrícia", diz seu marqueteiro Einhart Jacome da Paz.
Existem algumas regras não escritas a respeito da forma como os candidatos devem vestir-se. E uma delas é evitar o uso das camisas azuis, pelo simples motivo de que, se o candidato ficar tenso e começar a suar, a parte molhada ficará visível, o que não acontece com camisa branca. O suor denuncia o nervosismo. Dos quatro candidatos, Garotinho foi o único que se aventurou a vestir camisa azul. Por precaução, escolheu uma tonalidade de azul bem clara. Enquanto era maquiado, tinha a seu lado uma assessora de primeira linha: a filha Clarissa, estudante de comunicação social. "Você poderia retocar aqui, porque ele ainda está com um pouco de olheira", pediu a filha ao maquiador. Garotinho foi o candidato que teve menos tempo para se preparar para o debate. Ele foi internado num hospital na noite de sexta-feira, depois que seu palanque desabou durante comício no Rio de Janeiro. Só teve alta na manhã do domingo, treze horas e meia antes do início do debate.
Todos
pelo
FMI
João Wainer/Folha Imagem![]() |
| Lula: posição clara de apoio ao acordo do governo brasileiro com o FMI |
Os processos eleitorais costumam ser pródigos em discussões
desfocadas a respeito da forma de gerir o dinheiro do governo. Nesta eleição,
pelo menos até agora, deve-se registrar uma mudança no tom
da discussão. E para melhor. Durante o debate da Rede Bandeirantes,
o candidato José Serra questionou Lula sobre sua posição
a respeito da ida ao FMI. O candidato petista defendeu o movimento do
governo, pois a medida iria acalmar o mercado. Durante a semana, Lula
esteve na Bolsa de Valores de São Paulo e brincou com os anfitriões,
comentando que sua chegada jogou o Ibovespa para cima.
Em outro momento do debate, Serra e Garotinho travaram uma discussão animada. Em tema, não o conjunto de obras que um ou outro se vangloria de ter realizado. Debatia-se ali para saber qual dos dois tinha sido mais responsável no manejo do orçamento público, quem havia sido mais fiel à Lei de Responsabilidade Fiscal. Como o candidato Ciro Gomes não teve a oportunidade de defender o acordo com o FMI durante o programa, aproveitou uma entrevista no dia seguinte para afirmar que seria a última pessoa a atrapalhar as negociações. Como se vê, há uma inédita convergência de idéias sobre aspectos básicos da economia entre os candidatos. Esse é um ponto positivo desta campanha. E não está tendo o merecido destaque.
O fardo de FHC
Quando a campanha começou, acreditava-se que o candidato do governo defenderia Fernando Henrique dos ataques desferidos pelas demais candidaturas. Mas isso não está acontecendo. Em suas aparições, José Serra faz reparos à política econômica, propõe mudanças na área de educação e cobra uma ação mais eficaz do governo no combate à criminalidade.
O comitê de Serra já recebeu recados do Palácio do Planalto reclamando da atitude. A relação entre o Planalto e seu candidato já virou motivo de piada em Brasília. Serra criou a figura inédita do candidato oficial "de oposição". No debate, afirmou que não era candidato do governo e sim de seu governo, o governo de José Serra. Já FHC criou uma espécie de "governo de oposição". Sim, porque primeiro a equipe econômica irritou os eleitores mais abastados fazendo um ajuste nos fundos de renda fixa, ação que reduziu a remuneração de alguns investimentos. Depois, incomodou as camadas menos favorecidas reajustando o preço do gás. E, na semana passada, anunciou o acordo com o FMI no dia em que Serra divulgava seu programa de governo. Resultado: ninguém prestou muita atenção. As manchetes concentraram-se no pacotão do FMI e Serra falou ao vento.
As
telhas de vidro de Ciro
Antonio Gauderio/Folha Imagem![]() |
| Numa semana de constrangimentos para Ciro Gomes, camelô se recusa a cumprimentá-lo em São Paulo |
As pessoas foram apresentadas na semana passada a uma faceta até
então desconhecida do candidato Ciro Gomes, a de contar mentirolas.
Sem que ninguém lhe tivesse perguntado, Ciro afirmou durante o
debate dos presidenciáveis na Rede Bandeirantes que estudou a vida
inteira em escolas públicas. Também repetiu no debate o
que já havia dito em entrevista de rádio no mês de
maio que no período em que foi ministro da Fazenda pagava
salário mínimo correspondente a 100 dólares. No caso
das escolas, nem mesmo os interlocutores mais próximos de Ciro
entenderam por que ele não disse apenas que estudou a maior parte
de sua vida em escola pública. Afinal, durante três anos
ele esteve matriculado em colégios privados. Um foi o Sobralense,
em Sobral, e o outro o Marista, de Fortaleza. No caso do salário
mínimo, foi desmentido na hora por José Serra, que deu no
ar o valor certo do mínimo do ministro Ciro: 82 dólares.
Como o atual salário equivale a 69 dólares, considerado
o câmbio de 2,90 reais por dólar, as coisas pioraram para
quem é obrigado a viver com essa quantia. Com a opção
pela mentirola, Ciro prejudicou-se sem motivo algum para fazê-lo.
Esse não foi o primeiro deslize eleitoral cometido por Ciro Gomes. Na primeira eleição que disputou, para deputado estadual, em 1982, Ciro recorreu a um expediente muito conhecido no interior do Nordeste. Na eleição daquele ano, Ciro Gomes foi condenado pela 2ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Ceará por assinar bilhetes autorizando uma loja da cidade de Sobral, reduto político de sua família, a entregar material de construção a eleitores. Depois, para piorar, não pagou a conta e mandou o dono da loja cobrar na prefeitura, cujo titular era seu pai. No texto do acórdão dos juízes, está escrito que, "atendendo a solicitações do réu", o dono da loja entregava material de construção a "pessoas simples, pobres, eleitores, no período pré-eleitoral". No trecho mais contundente do acórdão, os juízes do tribunal afirmam que "é justo formar o juízo de que o réu agiu em nome próprio, eis que o fornecimento dos materiais foi autorizado por ele, em favor de eleitores, durante a campanha eleitoral".
Dono de um depósito de material de construção, Atualpa Parente era um modesto fornecedor da prefeitura de Sobral. Pouco antes da campanha, Parente passou a receber bilhetes assinados por Ciro para que liberasse mercadorias a consumidores que o procuravam na loja. Ciro tinha acabado de se licenciar do cargo de procurador do município de Sobral para se candidatar a deputado. No depoimento que prestou, o comerciante disse que os bilhetes começaram a chegar pouco antes da eleição, em setembro, e terminaram dias antes do pleito. Como ele era fornecedor da prefeitura e Ciro tinha grande influência na administração do pai, Parente obedecia. No depoimento anexado ao processo, Parente diz que Ciro chegou a comparecer pessoalmente à loja cercado por eleitores. Mas, em geral, costumava mandar as autorizações por escrito. Na lista de materiais requisitados estavam fios, mangueiras, tampas, canos, vasos, telhas e tijolos.
Depois da eleição, o comerciante sentiu-se ludibriado porque Ciro não assumiu a responsabilidade pelo pagamento, e na prefeitura ninguém quis arcar com as despesas. Parente tomou coragem e entrou com o processo. Reuniu três testemunhos e provas, mas perdeu em primeira instância. O comerciante recorreu da decisão e o processo ganhou nova direção graças aos bilhetes assinados pelo próprio Ciro. Os juízes do Tribunal de Justiça confirmaram a veracidade dos bilhetes apresentados e condenaram Ciro por 4 votos a 1. Muitos são difíceis de ler, porque estão escritos por gente com baixo nível de instrução. Mas alguns estão em bom estado de conservação e foram fundamentais para a comprovação da história de Parente. Numa análise dos bilhetes, é possível notar que as pessoas escreviam no papel o material de que precisavam e Ciro ratificava o pedido com um curto bilhete, com sua assinatura embaixo. Num deles, datado de 16 de setembro de 1982, existem duas caligrafias. Uma pessoa escreveu, num português incorreto, o pedido: 50 metros de fio, seis tomadas e outro item incompreensível. Ao lado, é possível observar também o valor da transação: 9.500 cruzeiros. Em valores de hoje, essa fatura equivaleria a exatos 171,20 reais. Embaixo da caligrafia da primeira pessoa, Ciro escreveu: "Sr. Atualpa, peço-lhe fornecer o material acima". Em seguida, datou a operação e assinou. Na semana passada, VEJA procurou o candidato para entrevistá-lo sobre o processo, que terminou quando ele pagou o que devia ao comerciante. A assessoria de Ciro informou que ele nada tem a declarar sobre o episódio.
Com
reportagem de
Felipe Patury e Malu Gaspar
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