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A
cultura me deprime
"Um
dos sintomas mais evidentes
da pobreza cultural de nosso tempo
é o interesse pelos anos 60 e 70, um
dos períodos mais abomináveis
da
história da humanidade"
Eu mexo com cultura. Tanto faz se sou bom ou ruim no meu trabalho. O que
importa é que, nos últimos vinte anos, só me ocupei
disso, como autor e como crítico. Assombrosamente, até arrumei
um jeito de ganhar a vida com cultura. É por isso que me deprime
constatar que se trata do ambiente mais pobre que existe. O mais irrelevante.
O mais oco. O mais fútil.
A imprensa é um bom parâmetro para medir a pobreza do ambiente.
Por zelo profissional, sempre folheio os cadernos de cultura dos principais
jornais do país. De uns dez dias para cá, deparei com as
seguintes matérias de capa: Juca de Oliveira, depois do sucesso
de seu papel como o cientista Albieri, em O Clone, está
escrevendo uma peça sobre a vida caipira. Agora já é
possível comprar em DVD preciosidades como Buffy A Caça-Vampiros
e Arquivo X. Erasmo Carlos e Wanderléa voltam a se apresentar
juntos. O autor do filme Hedwig, "a história de um transexual
caído em desgraça, numa jornada em busca de plenitude",
concede uma entrevista telefônica.
Lendo os exemplos acima, você pode achar que os únicos culpados
pelo descrédito da cultura são os editores dos jornais brasileiros.
Mas o problema é muito mais amplo. Dê uma olhada na imprensa
estrangeira. O jornal inglês The Guardian destaca a volta
do grupo pop Status Quo. O jornal francês Le Monde exalta
os filmes de série B americanos. A revista americana Time
fala do sucesso dos programas inspirados no velho Namoro na TV. A
revista inglesa The Economist acredita que, hoje em dia, há
mais criatividade na TV do que no cinema.
Um dos sintomas mais evidentes da pobreza cultural de nosso tempo é
o interesse despertado pelos anos 60 e 70, um dos períodos mais
abomináveis da história da humanidade. Nos jornais, encontrei
reportagens sobre o grupo Velvet Underground e Jerry Lewis, sobre o movimento
artístico Fluxus e o retorno à moda do skate. Nessa onda
dos anos 60 e 70, até o artista plástico brasileiro Hélio
Oiticica foi reexumado, merecendo um artigo supostamente elogioso no New
York Times: "Oiticica pretendia ser um Andy Warhol brasileiro... Sua
arte revela uma ingenuidade que é ao mesmo tempo encantadora e
anacronística... Pode soar antiquado, mas, naquele tempo, e especialmente
de onde ele vinha, tudo isso era radical e novo". Traduzindo: só
num lugar primitivo como o Brasil um imitador como Oiticica podia ser
considerado um inovador.
Numa semana em que jornais do mundo inteiro debatiam as bombas no Oriente
Médio, a crise econômica na América Latina, a iminência
de um segundo surto recessivo nos Estados Unidos, as conversas de paz
entre as duas Coréias, o fim da guerra civil sudanesa e a possível
descoberta da proteína que causa a metástase do câncer,
as páginas de cultura não forneceram um único assunto
que valesse dez minutos de conversa despretensiosa, numa mesa de restaurante.
O ambiente cultural se acostumou à idéia de que não
tem nada de relevante para acrescentar à realidade. Esse papel
passou a ser cumprido sobretudo pelos economistas, que cultivam o gosto
pela polêmica e pelo paradoxo, gerando as melhores discussões
na sociedade. Quanto à cultura, tornou-se um blefe.
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