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Edição 1 764 - 14 de agosto de 2002
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A cultura me deprime

"Um dos sintomas mais evidentes
da pobreza cultural de nosso tempo
é o interesse pelos anos 60 e 70, um
dos períodos mais
abomináveis da
história da humanidade"

Eu mexo com cultura. Tanto faz se sou bom ou ruim no meu trabalho. O que importa é que, nos últimos vinte anos, só me ocupei disso, como autor e como crítico. Assombrosamente, até arrumei um jeito de ganhar a vida com cultura. É por isso que me deprime constatar que se trata do ambiente mais pobre que existe. O mais irrelevante. O mais oco. O mais fútil.

A imprensa é um bom parâmetro para medir a pobreza do ambiente. Por zelo profissional, sempre folheio os cadernos de cultura dos principais jornais do país. De uns dez dias para cá, deparei com as seguintes matérias de capa: Juca de Oliveira, depois do sucesso de seu papel como o cientista Albieri, em O Clone, está escrevendo uma peça sobre a vida caipira. Agora já é possível comprar em DVD preciosidades como Buffy – A Caça-Vampiros e Arquivo X. Erasmo Carlos e Wanderléa voltam a se apresentar juntos. O autor do filme Hedwig, "a história de um transexual caído em desgraça, numa jornada em busca de plenitude", concede uma entrevista telefônica.

Lendo os exemplos acima, você pode achar que os únicos culpados pelo descrédito da cultura são os editores dos jornais brasileiros. Mas o problema é muito mais amplo. Dê uma olhada na imprensa estrangeira. O jornal inglês The Guardian destaca a volta do grupo pop Status Quo. O jornal francês Le Monde exalta os filmes de série B americanos. A revista americana Time fala do sucesso dos programas inspirados no velho Namoro na TV. A revista inglesa The Economist acredita que, hoje em dia, há mais criatividade na TV do que no cinema.

Um dos sintomas mais evidentes da pobreza cultural de nosso tempo é o interesse despertado pelos anos 60 e 70, um dos períodos mais abomináveis da história da humanidade. Nos jornais, encontrei reportagens sobre o grupo Velvet Underground e Jerry Lewis, sobre o movimento artístico Fluxus e o retorno à moda do skate. Nessa onda dos anos 60 e 70, até o artista plástico brasileiro Hélio Oiticica foi reexumado, merecendo um artigo supostamente elogioso no New York Times: "Oiticica pretendia ser um Andy Warhol brasileiro... Sua arte revela uma ingenuidade que é ao mesmo tempo encantadora e anacronística... Pode soar antiquado, mas, naquele tempo, e especialmente de onde ele vinha, tudo isso era radical e novo". Traduzindo: só num lugar primitivo como o Brasil um imitador como Oiticica podia ser considerado um inovador.

Numa semana em que jornais do mundo inteiro debatiam as bombas no Oriente Médio, a crise econômica na América Latina, a iminência de um segundo surto recessivo nos Estados Unidos, as conversas de paz entre as duas Coréias, o fim da guerra civil sudanesa e a possível descoberta da proteína que causa a metástase do câncer, as páginas de cultura não forneceram um único assunto que valesse dez minutos de conversa despretensiosa, numa mesa de restaurante. O ambiente cultural se acostumou à idéia de que não tem nada de relevante para acrescentar à realidade. Esse papel passou a ser cumprido sobretudo pelos economistas, que cultivam o gosto pela polêmica e pelo paradoxo, gerando as melhores discussões na sociedade. Quanto à cultura, tornou-se um blefe.

 
 
   
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