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Edição 1 764 - 14 de agosto de 2002
Entrevista: Tahar Ben Jelloun

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Entre dois mundos

O respeitado escritor marroquino ataca
os preconceitos e procura criar uma
ponte entre o Ocidente e o Islã

Carlos Graieb

Se existe um fosso entre as civilizações do Ocidente e do Islã, poucos intelectuais têm feito mais esforços para estreitá-lo do que o marroquino Tahar Ben Jelloun, de 58 anos. Num vaivém contínuo entre seu país natal e a França, onde fixou residência, ele tem procurado traduzir e interpretar as queixas que surgem de lado a lado. Além de uma abundante produção jornalística, também dedica seu tempo a criar obras de caráter didático, como O Racismo Explicado à Minha Filha ou O Islã Explicado às Crianças. Mas o empenho político de Ben Jelloun não deve ocultar outro fato: ele é um poeta e romancista consagrado. Já recebeu a mais importante honraria literária francesa, o Prêmio Goncourt, e é um best-seller no mundo árabe. Uma de suas coletâneas de contos foi há pouco publicada no Brasil: O Primeiro Amor É Sempre o Último, um retrato da guerra dos sexos à maneira muçulmana. "Freqüentemente me perguntam se minhas raízes literárias são mais marroquinas ou francesas. Na verdade, acho que os autores de que me sinto mais próximo são mesmo os latino-americanos, como Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa", diz Ben Jelloun, que nesta entrevista fala de xenofobia na Europa, antiamericanismo no Oriente Médio – e amor.

Veja – Se um jovem marroquino lhe perguntasse hoje se deveria ou não emigrar para a França, o que o senhor diria?
Ben Jelloun – Eu certamente procuraria dissuadi-lo se ele pensasse em emigrar clandestinamente. Há todo tipo de argumento contrário a essa forma de emigração, a começar pelo político – não invada um país que vem dando mostras muito claras de que não deseja sua presença. As circunstâncias em que a travessia para a Europa é feita também são cada vez mais assustadoras. Não passa uma semana sem que a televisão espanhola, sintonizada facilmente no Marrocos, mostre imagens de africanos e magrebinos detidos quando tentavam entrar na Espanha ilegalmente ou afogados quando a barca precária em que navegavam afundou. O que me espanta, contudo, é o fato de as pessoas continuarem emigrando, apesar de todos os perigos e de saberem que não terão uma vida fácil se conseguirem chegar ao seu destino. Isso é o sinal claro de um desespero muito grande.

Veja – O que causa esse desespero?
Ben Jelloun – O fato de países como o Marrocos, nas condições geopolíticas atuais, terem se transformado em verdadeiros fabricantes de pobres. Por que isso acontece? Por causa, é claro, de uma antiga história de concentração de riqueza, que faz com que uma parcela ínfima da população detenha uma fatia imensa da riqueza desses países. Mas, sem o desejo de soar ressentido, gostaria de apontar também para a responsabilidade e o egoísmo dos europeus, que freqüentemente conduzem sua política econômica de maneira a sufocar o crescimento das nações pobres que lhes estão próximas. Recentemente vimos o Marrocos ser fragorosamente derrotado numa negociação sobre cotas de venda de pescados – o país foi obrigado a aceitar uma cota bem mais baixa do que seria de seu interesse. Também vimos a Espanha impor barreiras de importação contra nossos produtos agrícolas. É hipócrita torcer pelo desenvolvimento marroquino e ao mesmo tempo tomar medidas que sufocam esse desenvolvimento. O problema é que, quando as iniciativas marroquinas se tornam impossíveis, o marroquino perde seu sustento e sente a necessidade de partir para onde haja emprego.

Veja – O que mudou na vida dos imigrantes depois do 11 de setembro?
Ben Jelloun – Houve um recrudescimento do medo, da raiva e da desconfiança dirigidos contra eles. E, como vem sendo fartamente noticiado, tornaram-se muito mais audíveis as vozes de extrema direita que falam contra o imigrante. É preciso dizer que esse movimento de inclinação para a direita vem crescendo já há vinte anos. Mas o 11 de setembro criou o ambiente propício para que ele ganhasse força mesmo em países como a Holanda, onde o número de imigrantes está longe de ser tão grande quanto na França ou na Bélgica.

Veja – Fala-se na possibilidade de a Europa harmonizar suas leis de imigração. O senhor crê que isso seja possível?
Ben Jelloun – Acho muito difícil. A França, por exemplo, ainda mantém uma relação de metrópole com países como a Argélia e o Marrocos. Já a Itália não tem nenhum antecedente nesse campo. Como harmonizar memórias que são tão diferentes? Os magrebinos têm direito de reclamar muito mais da França do que podem fazê-lo em relação à Itália ou à Holanda.

Veja – Além de muita retórica, os políticos de extrema direita também lançam mão de estatísticas sobre criminalidade, para defender medidas rigorosas contra a imigração. Eles não têm um bom argumento aí?
Ben Jelloun – Quanto à retórica, gostaria de registrar que ela é muito grosseira e, ao mesmo tempo, muito eficaz. Quanto às estatísticas de criminalidade, é preciso observar os fatos de perto para interpretá-las melhor. Vejamos o exemplo da França. Lá, a delinqüência de fato cresceu entre os imigrantes. Na maior prisão de Marselha, quase 70% da população carcerária é de origem não-francesa. Mas é preciso notar que não estamos falando de crimes graves, que envolvem assassinatos ou máfias organizadas. São coisas como furtos de automóveis, roubos de carteiras – enfim, o varejo da delinqüência. E isso se explica por motivos pelos quais a França também tem responsabilidade. Em 1974, o então presidente francês Valéry Giscard d'Estaing tomou medidas favoráveis ao chamado reagrupamento familiar – ou seja, a possibilidade de os imigrantes que trabalhavam na França trazerem seus parentes do estrangeiro. Foi um gesto generoso, mas sem planejamento. Antes, era preciso criar condições de vida e educação para aqueles que viriam e cresceriam no país. Em vez disso, deixaram essas pessoas entregues à sua própria sorte, vivendo em condições urbanas precárias. Há, por exemplo, um número incrível de repetência escolar entre os imigrantes. Apenas 4% dos estudantes que entram na universidade na França, hoje em dia, são de origem estrangeira. O número se mostra mais preocupante quando se sabe que, entre os franceses com o mesmo nível de remuneração dos estrangeiros, 25% dos jovens conseguem chegar à universidade. As crianças não chegam ao ensino superior por duas razões básicas: como os pais em geral são analfabetos, eles não incentivam os filhos a continuar na escola. Além disso, as crianças vivem em cômodos muito pequenos e não têm privacidade para estudar. Nenhum governo francês desde d'Estaing tomou medida alguma para cuidar desse problema, e hoje o país paga a conta. Tudo o que eles fizeram ficou no plano da repressão. E a repressão é política de curto prazo, que não tem efeitos duradouros.

Veja – Qual sua opinião sobre o líder francês de extrema direita Jean-Marie Le Pen?
Ben Jelloun – Ele é um político astuto e malicioso. Le Pen é verdadeiramente racista, acredita de fato na inferioridade de certos homens em relação a outros. É um homem de má-fé, que utiliza táticas de comunicação muito bem estudadas, apresentando-se como um guru que tem todas as respostas, embora tecnicamente seus argumentos sejam absurdos. Quando ele afirma que enviará todos os imigrantes para casa, não profere mais que uma bravata. Num país em que 8% da força de trabalho é formada por imigrantes, se isso acontecesse a economia entraria imediatamente em colapso. Le Pen diz absurdos, mas com tal ênfase e brio demagógicos que as pessoas acreditam nele.

Veja – Repetindo o título de um de seus livros, como explicar o preconceito a uma criança?
Ben Jelloun – Se você está falando a uma criança privilegiada, é preciso estimular sua imaginação, colocá-la na posição de alguém que seria vítima de discriminação. É precis explicar o preconceito a uma criança?
Ben Jelloun – Se você está falando a uma criança privilegiada, é preciso estimular sua imaginação, colocá-la na posição de alguém que seria vítima de discriminação. É preciso perguntar se ela aceitaria ser privada de sobremesa só porque é árabe. Em meu livro, e nas palestras que dou pela França, é isso que procuro fazer: pôr as crianças numa posição de identificação, fazê-las sentir que não tolerariam ser submetidas àquilo que seus vizinhos muitas vezes têm de agüentar. É uma técnica simples e eficaz. Para a criança que é vítima de preconceito, insisto na necessidade de discutir, de dialogar. Acima de tudo, tento insuflar confiança nela. O mais importante é impedir que se sinta uma vítima, que afunde no ressentimento ou na apatia, pois nesse caso endossará os preconceitos e contribuirá para a sua perpetuação.

Veja – O intelectual palestino Edward Said costuma dizer que o fundamentalismo "é menos um retorno às raízes da religião islâmica do que uma reação aos governos corruptos do Oriente". O senhor concorda com essa idéia?
Ben Jelloun – Concordo, e acrescentaria que o fundamentalismo é também uma reação extremada ao Ocidente e à conivência dos governos ocidentais com os ditadores do mundo árabe-muçulmano. Os líderes fundamentalistas são demagogos. Eles sabem perfeitamente que não existe algo como "a volta às raízes do Islã". Utilizam as crenças das pessoas para tecer discursos ideológicos e implementar políticas retrógradas. De certa maneira, estão próximos de Le Pen, que também faz uso do medo e da ignorância para atingir seus fins políticos.

Veja – Qual o papel do problema palestino no relacionamento entre o mundo muçulmano e o Ocidente?
Ben Jelloun – Absolutamente central. O nó do problema é a causa palestina, e o apoio sistemático que os Estados Unidos dão a tudo o que os israelenses fazem. O que ocorreu no campo de refugiados de Jenin deixou os árabes furiosos, mais ainda porque nem os Estados Unidos nem a Europa se empenharam para que houvesse uma investigação séria a respeito. Nada disso, evidentemente, serve de justificativa para atentados terroristas. Atos como esses não podem ser justificados de maneira nenhuma. Há uma diferença, no entanto, entre justificar um ato extremo e tentar compreendê-lo. Eu posso compreender por que um jovem palestino que viu sua casa ser dinamitada ou que não pode estudar nem trabalhar acaba se tornando um homem-bomba. Diante da falta de oportunidades, você se transforma em candidato a qualquer coisa, mesmo a essa morte absurda. É preciso colocar-se na pele desse jovem sem futuro. Mas são raras as pessoas no Ocidente que procuram fazer essa ginástica intelectual.

Veja – Em seu livro de contos, recentemente publicado no Brasil, uma das personagens femininas pergunta-se: "Por que, em nosso povo, quase nunca existe harmonia entre o homem e a mulher?" É assim mesmo que ocorre entre os muçulmanos?
Ben Jelloun – A reflexão dessa personagem é verdadeira. Se, de um certo ponto de vista, os sexos estão sempre em guerra, no Islã essa guerra é acentuada pela falta de justiça em relação às mulheres. Se um homem e uma mulher se apresentarem diante de um tribunal num país muçulmano, ela, de saída, já está em desvantagem. Alterar essa situação é um dos maiores desafios para os países islâmicos. Por causa dessa desigualdade perante as instituições, homens e mulheres também vivem suas relações amorosas, seus encontros mais íntimos, como disputas de força. Não há negociação. Na Europa, se um homem e uma mulher se sentem incapazes de conviver, eles negociam uma separação, uma reparação. Nos países muçulmanos, não há diálogo. Há tomada de poder.

Veja – Parece haver uma contradição no que diz respeito ao sexo nos países árabes. Fala-se muito a respeito da sexualidade, ao mesmo tempo que sua vivência é problemática.
Ben Jelloun – Há, de fato, uma espécie de contradição que termina freqüentemente em violência. Quando somos crianças, aprendemos que no islamismo a discussão sobre a sexualidade é autorizada e mesmo encorajada. "Não há pudor em falar da sexualidade no Islã" é um bordão muito conhecido. E há muitos textos clássicos, feitos por grandes teólogos dos séculos XIV ou XVI, que têm por tema o erotismo. Eles são francos e claros. Por outro lado, há algo que é comum a todas as sociedades mediterrâneas, e não apenas às islâmicas: o que poderíamos chamar de "medo do feminino". Temos irmãos ciumentos de suas irmãs, pais obcecados por suas filhas, maridos que temem patologicamente a infidelidade de sua mulher. Lembro-me de um caso ocorrido há cerca de um ano, na França, no qual um imigrante marroquino matou sua filha com as próprias mãos porque ela queria casar-se com um católico. "Eu não pude suportar a idéia de que ela se casaria com alguém não-muçulmano", disse ele.

Veja – A poligamia ainda existe no Marrocos?
Ben Jelloun – Sim, mas é extremamente rara e malvista. Hoje, as mulheres podem incluir em seu contrato de casamento uma cláusula contra essa prática. Ou seja, elas mesmas podem proibi-la. Para dizer a verdade, acho que a idéia da poligamia é muito mais excitante para os ocidentais do que para os muçulmanos.

 
 
   
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