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DVD
Mais para conde,
menos para vermelho
O Leopardo continua
o maior filme de
Visconti e o que melhor explica o diretor

Isabela Boscov
Divulgação
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| A burguesa e o príncipe: ela o usa, e ele
também |
O príncipe Fabrizio de Salina e sua
família chegam ao seu palácio de verão, no
vilarejo de Donnafugata, com festa, banda e missa. Emparedados,
um a um, pelos braços altos das poltronas da igreja e esbranquiçados
pela poeira da viagem, Fabrizio, sua mulher e seus sete filhos mais
parecem, porém, cadáveres num velório
o que é uma aproximação razoável com
a realidade. É disso, afinal, que trata O Leopardo
(Il Gattopardo, Itália/França, 1963)
da passagem de nobres como Salina a uma dimensão fantasmagórica.
Lançado agora em DVD, numa cópia lindamente restaurada
e repleta de extras, O Leopardo reafirma também sua
condição de peça-chave para entender o diretor
Luchino Visconti e sua obra. Celebrizado com o apelido de "conde
vermelho", por ser ao mesmo tempo comunista (em pensamento, frise-se,
e não no desapego ao luxo e ao privilégio) e membro
de uma das famílias mais ricas e aristocráticas da
Itália, Visconti imprimiu a O Leopardo um tom menos
amargurado que aquele presente no romance original de Giuseppe di
Lampedusa. Com uma visão desapaixonada da história
e de sua própria vida, o príncipe Fabrizio (Burt Lancaster)
vai da constatação de que sua estirpe está
condenada aos esforços práticos para que ela sobreviva
parcialmente. Sua meta é facilitar o casamento de seu sobrinho
favorito, Tancredi (Alain Delon), com Angelica (Claudia Cardinale),
filha de um burguês rico um plano que ele segue com
brilhantismo e não pouca admiração pela vitalidade
e beleza resplandecente de Angelica, tão diversa da apatia
e macilência de suas próprias filhas.
Divulgação
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| Claudia, como Angelica: beleza sem berço,
mas resplandecente |
O curioso em rever O Leopardo é quanto soa diferente
hoje aquilo que, nos anos 60, parecia produto de uma postura ideológica
consideravelmente mais à esquerda que a do escritor. Reapreciado
a distância, com todas as suas três horas de duração
e seus cenários e figurinos magníficos, o filme irmana
Visconti com Lampedusa, bem mais do que com seus pares políticos.
Ainda que a descendência do príncipe deixe a desejar,
ele próprio é o auge da espécie culto,
vigoroso, inteligente, astuto, ciente do passado e presciente acerca
do futuro. Sua investida na aliança entre seu sobrinho e
a burguesa é benigna, e é notável a delicadeza
com que ele se deixa usar por Angelica, dançando com ela
na famosa cena do baile para consagrar publicamente sua ascensão
social. Mas que não reste dúvida: é o príncipe
que dá as cartas aqui, e seu espírito é o que
merece sobreviver. Certo estava o americano Burt Lancaster, que
depois de muito procurar um modelo no qual calcar os maneirismos
do príncipe Fabrizio se deu conta de que ele estava ali,
bem à sua frente o próprio Luchino Visconti,
que deixou em O Leopardo uma espécie de carta de amor
a si mesmo.
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