Edição 1862 . 14 de julho de 2004

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O príncipe dos canalhas

O francês Louis-Ferdinand Céline é o
caso mais extremado – mas não o
único – do casamento entre gênio
e perversidade


Jerônimo Teixeira


AP
Nazistas marcham sobre Paris: para Céline, eles eram moderados

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Trecho do livro

O doutor Louis-Ferdinand Destouches estava em plena embaixada alemã de Paris, cercado de nazistas, quando começou a imitar os trejeitos e convulsões típicos dos discursos de Hitler. O médico francês ousou atacar o anti-semitismo do führer, mas não porque se opusesse ao genocídio: sua paródia pretendia demonstrar que a política racial dos nazistas era moderada. O ardor com que Destouches pregou a matança de judeus foi tal que ele teve de ser puxado pela gola para interromper sua peroração – consta que até provocou desmaios entre as senhoras presentes. Destouches ficaria conhecido como Louis-Ferdinand Céline (1894-1961), nome literário com que assinou pelo menos uma obra-prima da literatura francesa moderna – o romance Viagem ao Fim da Noite, de 1932 – e também três panfletos tão odiosos quanto sua performance na embaixada alemã. Recém-lançada no Brasil, De Castelo em Castelo (tradução de Rosa Freire d'Aguiar; Companhia das Letras; 432 páginas; 52 reais), uma de suas últimas obras, é de uma desfaçatez assustadora. Na mesma linha de Norte, outra obra tardia de Céline, o livro narra as desventuras do escritor depois que os aliados libertaram a França e ele se viu obrigado a fugir do país para não ser preso ou morto pela resistência. Em nenhum momento, Céline demonstra o mínimo sinal de arrependimento.

Céline é um caso extremo da conjunção de gênio artístico e abjeção moral. Mas não é o único: os totalitarismos do século passado exerceram um fascínio mórbido sobre intelectuais e artistas. O fascismo e o comunismo respondiam, de certo modo, a um ímpeto revolucionário que não é incomum entre escritores. O fascismo, além disso, também apelou para a personalidade autocrática que é própria de muitos artistas – enganosamente, parecia uma doutrina mais apropriada ao individualismo do que a democracia, sempre tão suscetível à "vulgaridade popular". Até no Brasil, o fascismo seduziu autores como o jovem Vinicius de Moraes (que depois oscilaria para a esquerda). E não custa lembrar que o integralismo, patética versão nacional dos extremismos de direita, tinha como líder um escritor – se bem que hoje ninguém mais leia os romances e poemas de Plínio Salgado.

Na Itália, o escritor D'Annunzio e o poeta futurista Marinetti aderiram ao fascismo. E Mussolini teria um porta-voz de maior gênio: o americano Ezra Pound, um dos mais inventivos poetas do modernismo, ajudou na propaganda fascista, fazendo transmissões radiofônicas em inglês. Repatriado da Europa depois da II Guerra Mundial para ser julgado por traição, Pound foi considerado mentalmente incapaz de responder às acusações – passaria mais de dez anos internado em manicômios (e Céline se queixava dos catorze meses em que esteve preso na Dinamarca...). Na Alemanha, Martin Heidegger, talvez o filósofo mais influente do século XX, filiou-se ao Partido Nazista em 1933. Terminada a II Guerra Mundial, a estratégia do autor de Ser e Tempo para limpar seu nome foi bastante covarde: silenciou sobre o assunto.

Entre os que aderiram ao comunismo, é difícil distinguir o que foi legítimo estrabismo ideológico do que foi pura má-fé. O filósofo, dramaturgo e romancista francês Jean-Paul Sartre – um dos personagens mais odiados por Céline, que o chamava de Tartre (tártaro) – voltou de viagens à União Soviética e à China elogiando os regimes locais. O dramaturgo e poeta alemão Bertolt Brecht aderiu até ao culto da personalidade de Stalin. Quando o tirano morreu, em 1953, Brecht escreveu um artigo lamentando o fato. Stalin, dizia o autor de Mãe Coragem, encarnava a esperança dos oprimidos de todo o mundo. De 1950 a 1956, quando morreu, Brecht viveu na Alemanha Oriental, onde dirigia a própria companhia teatral. Mas foi cauteloso: tinha cidadania austríaca, o que lhe permitia viajar livremente ao exterior, prerrogativa com a qual o comunista comum não contava.

A canalhice ideológica de Céline, porém, é hors-concours. Ninguém além dele conseguiu se exceder tanto na arte quanto na infâmia. Mesmo De Castelo em Castelo, livro delirante e irregular, tem momentos de grande poder literário, como a morte de um cachorro do autor – única página terna do livro – ou a passagem entre heróica e irônica em que o marechal Pétain, o infame líder da França colaboracionista, enfrenta um bombardeio inglês em seu exílio no castelo (daí o título do livro) de Sigmaringen, cidadezinha da Baviera. No geral, porém, o que sobressai é o ressentimento inesgotável do autor contra tudo e todos – os inimigos que o difamam, os amigos que o abandonam, o editor que não lhe paga. Anistiado, Céline estava de volta à França quando escreveu o livro, nos anos 50. Não era tolo de repisar a tecla anti-semita. De Castelo em Castelo, porém, é uma boa amostra de seu ódio.

 

Pequena galeria da infâmia literária


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Céline: o grande autor que nunca se retratou pelos panfletos anti-semitas que assinou Brecht: Stalin era "a esperança dos oprimidos" Heidegger: silêncio sobre a filiação ao nazismo


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Antonio Andrade
Pound: propaganda fascista para os americanos Plínio Salgado: mediocridade em política e literatura
 
 
 
 
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