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Livros
O príncipe dos canalhas
O francês Louis-Ferdinand Céline
é o
caso mais extremado mas não o
único do casamento entre gênio
e perversidade

Jerônimo Teixeira
AP
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| Nazistas marcham sobre Paris: para Céline,
eles eram moderados |
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O doutor Louis-Ferdinand Destouches estava
em plena embaixada alemã de Paris, cercado de nazistas, quando
começou a imitar os trejeitos e convulsões típicos
dos discursos de Hitler. O médico francês ousou atacar
o anti-semitismo do führer, mas não porque se
opusesse ao genocídio: sua paródia pretendia demonstrar
que a política racial dos nazistas era moderada. O ardor
com que Destouches pregou a matança de judeus foi tal que
ele teve de ser puxado pela gola para interromper sua peroração
consta que até provocou desmaios entre as senhoras
presentes. Destouches ficaria conhecido como Louis-Ferdinand Céline
(1894-1961), nome literário com que assinou pelo menos uma
obra-prima da literatura francesa moderna o romance Viagem
ao Fim da Noite, de 1932 e também três panfletos
tão odiosos quanto sua performance na embaixada alemã.
Recém-lançada no Brasil, De Castelo em Castelo
(tradução de Rosa Freire d'Aguiar; Companhia das Letras;
432 páginas; 52 reais), uma de suas últimas obras,
é de uma desfaçatez assustadora. Na mesma linha de
Norte, outra obra tardia de Céline, o livro narra
as desventuras do escritor depois que os aliados libertaram a França
e ele se viu obrigado a fugir do país para não ser
preso ou morto pela resistência. Em nenhum momento, Céline
demonstra o mínimo sinal de arrependimento.
Céline é um caso extremo da
conjunção de gênio artístico e abjeção
moral. Mas não é o único: os totalitarismos
do século passado exerceram um fascínio mórbido
sobre intelectuais e artistas. O fascismo e o comunismo respondiam,
de certo modo, a um ímpeto revolucionário que não
é incomum entre escritores. O fascismo, além disso,
também apelou para a personalidade autocrática que
é própria de muitos artistas enganosamente,
parecia uma doutrina mais apropriada ao individualismo do que a
democracia, sempre tão suscetível à "vulgaridade
popular". Até no Brasil, o fascismo seduziu autores como
o jovem Vinicius de Moraes (que depois oscilaria para a esquerda).
E não custa lembrar que o integralismo, patética versão
nacional dos extremismos de direita, tinha como líder um
escritor se bem que hoje ninguém mais leia os romances
e poemas de Plínio Salgado.
Na Itália, o escritor D'Annunzio e
o poeta futurista Marinetti aderiram ao fascismo. E Mussolini teria
um porta-voz de maior gênio: o americano Ezra Pound, um dos
mais inventivos poetas do modernismo, ajudou na propaganda fascista,
fazendo transmissões radiofônicas em inglês.
Repatriado da Europa depois da II Guerra Mundial para ser julgado
por traição, Pound foi considerado mentalmente incapaz
de responder às acusações passaria mais
de dez anos internado em manicômios (e Céline se queixava
dos catorze meses em que esteve preso na Dinamarca...). Na Alemanha,
Martin Heidegger, talvez o filósofo mais influente do século
XX, filiou-se ao Partido Nazista em 1933. Terminada a II Guerra
Mundial, a estratégia do autor de Ser e Tempo para
limpar seu nome foi bastante covarde: silenciou sobre o assunto.
Entre os que aderiram ao comunismo, é
difícil distinguir o que foi legítimo estrabismo ideológico
do que foi pura má-fé. O filósofo, dramaturgo
e romancista francês Jean-Paul Sartre um dos personagens
mais odiados por Céline, que o chamava de Tartre (tártaro)
voltou de viagens à União Soviética
e à China elogiando os regimes locais. O dramaturgo e poeta
alemão Bertolt Brecht aderiu até ao culto da personalidade
de Stalin. Quando o tirano morreu, em 1953, Brecht escreveu um artigo
lamentando o fato. Stalin, dizia o autor de Mãe Coragem,
encarnava a esperança dos oprimidos de todo o mundo.
De 1950 a 1956, quando morreu, Brecht viveu na Alemanha Oriental,
onde dirigia a própria companhia teatral. Mas foi cauteloso:
tinha cidadania austríaca, o que lhe permitia viajar livremente
ao exterior, prerrogativa com a qual o comunista comum não
contava.
A canalhice ideológica de Céline,
porém, é hors-concours. Ninguém além
dele conseguiu se exceder tanto na arte quanto na infâmia.
Mesmo De Castelo em Castelo, livro delirante e irregular,
tem momentos de grande poder literário, como a morte de um
cachorro do autor única página terna do livro
ou a passagem entre heróica e irônica em que
o marechal Pétain, o infame líder da França
colaboracionista, enfrenta um bombardeio inglês em seu exílio
no castelo (daí o título do livro) de Sigmaringen,
cidadezinha da Baviera. No geral, porém, o que sobressai
é o ressentimento inesgotável do autor contra tudo
e todos os inimigos que o difamam, os amigos que o abandonam,
o editor que não lhe paga. Anistiado, Céline estava
de volta à França quando escreveu o livro, nos anos
50. Não era tolo de repisar a tecla anti-semita. De Castelo
em Castelo, porém, é uma boa amostra de seu ódio.
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