|
|
Arte
Vermeer no mercado
Tela do grande pintor holandês do
século XVII alcança 30 milhões de
dólares em leilão na Inglaterra

Sérgio Martins
Reuters
 |
A DONZELA E O FALSÁRIO
Por muito tempo, duvidou-se da autoria de Jovem Sentada
ao Virginal. O maior responsável por isso foi Hans
von Meegeren, o mais famoso falsificador do século XX
|
Poucos mestres da pintura são tão
cultuados quanto Johannes Vermeer (1632-1675). Entre os holandeses,
somente Rembrandt rivaliza com ele em popularidade e não
seria errado dizer que, pelo menos no momento, se encontra em desvantagem.
Nos últimos cinco anos, Vermeer foi tema de uma exposição
que atraiu multidões ao Metropolitan Museum de Nova York
e à National Gallery de Londres, de uma ópera assinada
pelo diretor britânico Peter Greenaway, do romance best-seller
Moça com Brinco de Pérola, de Tracy Chevalier,
e de um filme de mesmo nome que teve indicações ao
Oscar. Na semana passada, um novo acontecimento chamou atenção
sobre esse artista extraordinário. Jovem Sentada ao Virginal,
provavelmente a última pintura em que Vermeer trabalhou,
foi arrematada num leilão da Sotheby's de Londres por 30
milhões de dólares. O valor fica distante do recorde
de 104 milhões de dólares alcançado recentemente
pelo quadro Menino com Cachimbo, do modernista Pablo Picasso,
mas ainda assim é formidável. Jovem Sentada ao
Virginal tem dimensões reduzidas (25 por 22 centímetros),
não é considerada uma das obras-primas de Vermeer
e, ainda por cima, foi objeto de uma grande controvérsia
sobre sua autenticidade. Por causa disso, muitos especialistas acreditavam
que ela seria vendida por bem menos do que realmente foi.
Jovem Sentada ao Virginal foi a primeira
obra de Vermeer a entrar no mercado desde 1921. Tudo indica que
será a única pelas próximas décadas.
Das 35 outras pinturas atribuídas ao artista, 34 pertencem
a museus e uma à rainha Elizabeth II, da Inglaterra. Antes
de ir a leilão, Jovem Sentada ao Virginal fazia parte
da coleção do belga Frédéric Rolin,
que lutou dez anos para estabelecer definitivamente a autenticidade
da pintura, posta em dúvida num escândalo da década
de 1940 que envolveu o mais famoso falsificador do século
XX, o holandês Han van Meegeren (1889-1947).
Meegeren começou sua carreira de trambiques
antes da II Guerra Mundial. Sentindo-se menosprezado no meio artístico,
decidiu vingar-se burlando críticos, historiadores e marchands.
Seu truque preferido era imitar o estilo de Vermeer e, embora suas
falsificações não resistissem a uma análise
detalhada, ele conseguiu vender várias telas uma delas
ao alemão Hermann Goering, o chefão nazista. Justamente
por negociar com nazistas, Meegeren foi capturado pelos aliados
no fim da II Guerra e submetido a um julgamento espetacular, cujo
maior resultado foi fazer com que o mundo da arte reavaliasse diversos
Vermeers. Nesse processo, Jovem Sentada ao Virginal foi considerada
uma obra de autoria duvidosa possivelmente realizada por
um discípulo ou contemporâneo do mestre holandês.
Foi preciso restaurar o quadro, submetê-lo a raios X, analisar
seus pigmentos e compará-lo detalhadamente com outras obras
de Vermeer para que sua autenticidade fosse restabelecida.
Esses estudos recentes convenceram a maior
parte dos especialistas, mas não fizeram com que eles se
entusiasmassem com o quadro. "Ainda não acho que seja um
dos melhores Vermeers", disse Frits Duparc, diretor de um dos principais
museus holandeses, à revista The Economist na semana
passada. É uma opinião compartilhada por muitos. Faltariam
a Jovem Sentada ao Virginal a sutileza, o erotismo e a atmosfera
enigmática de obras-primas como Moça com Brinco
de Pérola. Mas esses juízos críticos obviamente
não perturbaram o comprador do quadro, que decidiu permanecer
anônimo embora se especule que ele seja o americano
Stephen Wynn, dono de um cassino de Las Vegas. Mais aflitiva para
ele deve ser outra curiosa característica de Vermeer: sua
fama de atrair ladrões. O holandês teve uma de suas
telas, Mulher Escrevendo uma Carta com Sua Empregada, roubada
duas vezes ao longo do século XX.
|