Edição 1862 . 14 de julho de 2004

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Arte
Vermeer no mercado

Tela do grande pintor holandês do
século XVII alcança 30 milhões de
dólares em leilão na Inglaterra


Sérgio Martins


Reuters
A DONZELA E O FALSÁRIO
Por muito tempo, duvidou-se da autoria de Jovem Sentada ao Virginal. O maior responsável por isso foi Hans von Meegeren, o mais famoso falsificador do século XX

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Poucos mestres da pintura são tão cultuados quanto Johannes Vermeer (1632-1675). Entre os holandeses, somente Rembrandt rivaliza com ele em popularidade – e não seria errado dizer que, pelo menos no momento, se encontra em desvantagem. Nos últimos cinco anos, Vermeer foi tema de uma exposição que atraiu multidões ao Metropolitan Museum de Nova York e à National Gallery de Londres, de uma ópera assinada pelo diretor britânico Peter Greenaway, do romance best-seller Moça com Brinco de Pérola, de Tracy Chevalier, e de um filme de mesmo nome que teve indicações ao Oscar. Na semana passada, um novo acontecimento chamou atenção sobre esse artista extraordinário. Jovem Sentada ao Virginal, provavelmente a última pintura em que Vermeer trabalhou, foi arrematada num leilão da Sotheby's de Londres por 30 milhões de dólares. O valor fica distante do recorde de 104 milhões de dólares alcançado recentemente pelo quadro Menino com Cachimbo, do modernista Pablo Picasso, mas ainda assim é formidável. Jovem Sentada ao Virginal tem dimensões reduzidas (25 por 22 centímetros), não é considerada uma das obras-primas de Vermeer e, ainda por cima, foi objeto de uma grande controvérsia sobre sua autenticidade. Por causa disso, muitos especialistas acreditavam que ela seria vendida por bem menos do que realmente foi.

Jovem Sentada ao Virginal foi a primeira obra de Vermeer a entrar no mercado desde 1921. Tudo indica que será a única pelas próximas décadas. Das 35 outras pinturas atribuídas ao artista, 34 pertencem a museus e uma à rainha Elizabeth II, da Inglaterra. Antes de ir a leilão, Jovem Sentada ao Virginal fazia parte da coleção do belga Frédéric Rolin, que lutou dez anos para estabelecer definitivamente a autenticidade da pintura, posta em dúvida num escândalo da década de 1940 que envolveu o mais famoso falsificador do século XX, o holandês Han van Meegeren (1889-1947).

Meegeren começou sua carreira de trambiques antes da II Guerra Mundial. Sentindo-se menosprezado no meio artístico, decidiu vingar-se burlando críticos, historiadores e marchands. Seu truque preferido era imitar o estilo de Vermeer e, embora suas falsificações não resistissem a uma análise detalhada, ele conseguiu vender várias telas – uma delas ao alemão Hermann Goering, o chefão nazista. Justamente por negociar com nazistas, Meegeren foi capturado pelos aliados no fim da II Guerra e submetido a um julgamento espetacular, cujo maior resultado foi fazer com que o mundo da arte reavaliasse diversos Vermeers. Nesse processo, Jovem Sentada ao Virginal foi considerada uma obra de autoria duvidosa – possivelmente realizada por um discípulo ou contemporâneo do mestre holandês. Foi preciso restaurar o quadro, submetê-lo a raios X, analisar seus pigmentos e compará-lo detalhadamente com outras obras de Vermeer para que sua autenticidade fosse restabelecida.

Esses estudos recentes convenceram a maior parte dos especialistas, mas não fizeram com que eles se entusiasmassem com o quadro. "Ainda não acho que seja um dos melhores Vermeers", disse Frits Duparc, diretor de um dos principais museus holandeses, à revista The Economist na semana passada. É uma opinião compartilhada por muitos. Faltariam a Jovem Sentada ao Virginal a sutileza, o erotismo e a atmosfera enigmática de obras-primas como Moça com Brinco de Pérola. Mas esses juízos críticos obviamente não perturbaram o comprador do quadro, que decidiu permanecer anônimo – embora se especule que ele seja o americano Stephen Wynn, dono de um cassino de Las Vegas. Mais aflitiva para ele deve ser outra curiosa característica de Vermeer: sua fama de atrair ladrões. O holandês teve uma de suas telas, Mulher Escrevendo uma Carta com Sua Empregada, roubada duas vezes ao longo do século XX.

 
 
 
 
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