Edição 1862 . 14 de julho de 2004

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Cinema
O gato é quem dá as ordens

Preguiçoso e comilão, Garfield deu
origem a um império que ocupa
integralmente seu criador


Isabela Boscov


AP
Jim Davis: 120 batimentos cardíacos por minuto até a piada "baixar"

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O destino do jovem Jon Arbuckle é passar a vida cuidando de um gato comilão, preguiçoso, egoísta e narcisista. E, por ironia, esse terminou por ser também o destino do criador de ambos, o americano Jim Davis: desde que lançou a tirinha protagonizada pelo gato Garfield e seu dono Jon, em 1978, esse ex-menino de fazenda e ex-formando em administração não tem feito que cuidar das exigências de seu personagem. Depois de um início vacilante, em que chegou a ser cancelada dos poucos jornais que a distribuíam, a tirinha Garfield repentinamente se tornou uma febre – da qual o sintoma mais evidente era aquele boneco Garfield com expressão de espanto que ia preso com ventosas ao vidro traseiro do carro, um dos símbolos por excelência da década de 80. Hoje, mesmo passado esse pico de popularidade, a tirinha mantém seu posto como a mais publicada e a mais lida do mundo. Sai em cerca de 2.500 veículos em 111 países, contabilizando algo como 260 milhões de leitores, e gera fortunas no licenciamento de produtos, de bichinhos de pelúcia e canecas com a estampa do personagem a livros e séries de TV. "É, dá para levar uma vida confortável", brinca Davis com seu jeito afável e sua fala mansa, mas firme em sua resolução de não citar números que venham acompanhados de cifrões. E esses devem aumentar. Depois de muitas recusas, Davis finalmente topou transformar seu gato em personagem de cinema, com Garfield – O Filme (veja texto abaixo), em que atores e mascotes de verdade contracenam com um Garfield feito em computação gráfica. "Só me animei a fazer um filme depois de assistir a Monstros S.A.", disse ele a VEJA. "Nunca quis fazer um desenho animado convencional, que parecesse um subproduto da Disney. Mas Monstros provou que personagens peludos podem ser ao mesmo tempo convincentes e divertidos."

O império Garfield fica recolhido numa propriedade rural perto de Marion, no Estado de Indiana, onde Jim Davis nasceu, e que até hoje é mais célebre por ser também a cidade natal de James Dean. Criado numa fazenda das redondezas, onde não faltavam gatos, Davis ficava confinado em casa durante suas crises de asma – e, para se divertir, desenhava. Mas desenhava tão mal que precisava pôr etiquetas e legendas nas suas criações, a fim de que elas se tornassem inteligíveis. Dessa deficiência é que nasceu sua habilidade, a de fazer desenho (departamento em que, à custa de muito treino, ele melhorou bastante) e escrita se complementarem. Disso e do poder de síntese: uma tirinha consiste, grosso modo, de três quadrinhos e um total de 25 palavras. "É a melhor relação custo-benefício que existe", diz Davis. "Com um investimento de apenas dez segundos, o leitor ganha em troca uma gargalhada. Num programa de TV, às vezes é preciso esperar dez minutos por um sorriso amarelo."

Na outra ponta do processo, a de Davis, a escala de tempo é bem diferente. O desenhista diz que não raro fica duas horas inteiras olhando para uma folha de papel em branco, até que a piada "baixe" nele. Um aparelho de eletrocardiograma, ao qual Davis foi conectado certa vez a título de curiosidade, mostrou que a atividade apenas aparenta ser estática: nessas ocasiões, seus batimentos cardíacos ficam num patamar de 120 por minuto – contra os 60 ou 70 habituais no repouso – e ele transpira profusamente, como se estivesse fazendo ginástica. No final do dia, está exausto. Por isso mesmo Davis, hoje com 58 anos, tomou certas resoluções. Primeiro, permanecer na tranqüilidade de Indiana, onde ele pode almoçar todos os dias com os três filhos, entre 17 e 25 anos de idade, ou na casa dos pais, e onde há anos ninguém se lembra de lhe pedir um autógrafo. Depois, nunca levar o trabalho para casa – o que significa divertir-se não com cinema ou TV, como a maioria das pessoas, mas com a leitura de revistas médicas ou de engenharia. E, finalmente, resignar-se com o fato de que gatos são criaturas caprichosas. "É como diz o ditado: cachorros têm donos, e gatos têm funcionários. Esse sou eu – eu trabalho para o gato."

 

O cão é o melhor amigo


Divulgação
Garfield, no filme: nada de original

Como o próprio Jim Davis analisa, o que faz o sucesso de uma tirinha e permite que ela seja publicada décadas a fio é muito mais a qualidade do personagem, e a sua coerência, do que as piadas que ele protagoniza. Veja-se o caso exatamente de Garfield: comida, descanso e o afeto incondicional de seu dono, o desaventurado Jon, são os únicos assuntos de que se ocupa – mas, aplicados a ele, esses temas têm se mostrado inesgotáveis. O cinema, entretanto, exige algum tipo de contexto ou enredo. E é aí que Garfield ­ O Filme (Garfield – The Movie, Estados Unidos, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país, subverte a lógica que a tirinha vem pregando em seus 26 anos de existência e desaponta. Para que haja história, o gato não pode simplesmente ficar parado à espera de que as bênçãos da vida caiam em seu colo, como faz sua versão de papel. Ele tem de agir – e nada é mais anti-Garfield do que a ação. Contracenando com atores já de começo pouco expressivos – Breckin Meyer, como Jon, e Jennifer Love Hewitt, como a veterinária por quem ele é apaixonado –, o Garfield de computação gráfica sai de sua paz para salvar seu grande rival, o cão Odie, de um explorador inescrupuloso. Nem a dublagem de Bill Murray, no original, é capaz de esconder o fato de que o roteiro repete, lance por lance, dezenas de outros filmes infantis. Só quem impressiona, aqui, é o simpaticíssimo Odie. É o cúmulo da ironia: um filme feito para celebrar um gato, em que todas as glórias ficam com o cachorro.

 
 
 
 
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