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Cinema
O gato é quem dá as ordens
Preguiçoso e comilão, Garfield
deu
origem a um império que ocupa
integralmente seu criador

Isabela Boscov
AP
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| Jim Davis: 120 batimentos cardíacos
por minuto até a piada "baixar" |
O destino do jovem Jon Arbuckle é passar
a vida cuidando de um gato comilão, preguiçoso, egoísta
e narcisista. E, por ironia, esse terminou por ser também
o destino do criador de ambos, o americano Jim Davis: desde que
lançou a tirinha protagonizada pelo gato Garfield e seu dono
Jon, em 1978, esse ex-menino de fazenda e ex-formando em administração
não tem feito que cuidar das exigências de seu personagem.
Depois de um início vacilante, em que chegou a ser cancelada
dos poucos jornais que a distribuíam, a tirinha Garfield
repentinamente se tornou uma febre da qual o sintoma mais
evidente era aquele boneco Garfield com expressão de espanto
que ia preso com ventosas ao vidro traseiro do carro, um dos símbolos
por excelência da década de 80. Hoje, mesmo passado
esse pico de popularidade, a tirinha mantém seu posto como
a mais publicada e a mais lida do mundo. Sai em cerca de 2.500
veículos em 111 países, contabilizando algo como 260
milhões de leitores, e gera fortunas no licenciamento de
produtos, de bichinhos de pelúcia e canecas com a estampa
do personagem a livros e séries de TV. "É, dá
para levar uma vida confortável", brinca Davis com seu jeito
afável e sua fala mansa, mas firme em sua resolução
de não citar números que venham acompanhados de cifrões.
E esses devem aumentar. Depois de muitas recusas, Davis finalmente
topou transformar seu gato em personagem de cinema, com Garfield
O Filme (veja texto
abaixo), em que atores e mascotes de verdade contracenam
com um Garfield feito em computação gráfica.
"Só me animei a fazer um filme depois de assistir a Monstros
S.A.", disse ele a VEJA. "Nunca quis fazer um desenho animado
convencional, que parecesse um subproduto da Disney. Mas Monstros
provou que personagens peludos podem ser ao mesmo tempo convincentes
e divertidos."
O império Garfield fica recolhido numa
propriedade rural perto de Marion, no Estado de Indiana, onde Jim
Davis nasceu, e que até hoje é mais célebre
por ser também a cidade natal de James Dean. Criado numa
fazenda das redondezas, onde não faltavam gatos, Davis ficava
confinado em casa durante suas crises de asma e, para se
divertir, desenhava. Mas desenhava tão mal que precisava
pôr etiquetas e legendas nas suas criações,
a fim de que elas se tornassem inteligíveis. Dessa deficiência
é que nasceu sua habilidade, a de fazer desenho (departamento
em que, à custa de muito treino, ele melhorou bastante) e
escrita se complementarem. Disso e do poder de síntese: uma
tirinha consiste, grosso modo, de três quadrinhos e um total
de 25 palavras. "É a melhor relação custo-benefício
que existe", diz Davis. "Com um investimento de apenas dez segundos,
o leitor ganha em troca uma gargalhada. Num programa de TV, às
vezes é preciso esperar dez minutos por um sorriso amarelo."
Na outra ponta do processo, a de Davis, a
escala de tempo é bem diferente. O desenhista diz que não
raro fica duas horas inteiras olhando para uma folha de papel em
branco, até que a piada "baixe" nele. Um aparelho de eletrocardiograma,
ao qual Davis foi conectado certa vez a título de curiosidade,
mostrou que a atividade apenas aparenta ser estática: nessas
ocasiões, seus batimentos cardíacos ficam num patamar
de 120 por minuto contra os 60 ou 70 habituais no repouso
e ele transpira profusamente, como se estivesse fazendo ginástica.
No final do dia, está exausto. Por isso mesmo Davis, hoje
com 58 anos, tomou certas resoluções. Primeiro, permanecer
na tranqüilidade de Indiana, onde ele pode almoçar todos
os dias com os três filhos, entre 17 e 25 anos de idade, ou
na casa dos pais, e onde há anos ninguém se lembra
de lhe pedir um autógrafo. Depois, nunca levar o trabalho
para casa o que significa divertir-se não com cinema
ou TV, como a maioria das pessoas, mas com a leitura de revistas
médicas ou de engenharia. E, finalmente, resignar-se com
o fato de que gatos são criaturas caprichosas. "É
como diz o ditado: cachorros têm donos, e gatos têm
funcionários. Esse sou eu eu trabalho para o gato."
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O
cão é o melhor amigo
Divulgação
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| Garfield, no filme: nada de original
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Como o próprio Jim Davis analisa,
o que faz o sucesso de uma tirinha e permite que ela
seja publicada décadas a fio é muito mais
a qualidade do personagem, e a sua coerência,
do que as piadas que ele protagoniza. Veja-se o caso
exatamente de Garfield: comida, descanso e o afeto incondicional
de seu dono, o desaventurado Jon, são os únicos
assuntos de que se ocupa mas, aplicados a ele,
esses temas têm se mostrado inesgotáveis.
O cinema, entretanto, exige algum tipo de contexto ou
enredo. E é aí que Garfield
O Filme (Garfield The Movie, Estados Unidos,
2004), que estréia nesta sexta-feira no país,
subverte a lógica que a tirinha vem pregando
em seus 26 anos de existência e desaponta. Para
que haja história, o gato não pode simplesmente
ficar parado à espera de que as bênçãos
da vida caiam em seu colo, como faz sua versão
de papel. Ele tem de agir e nada é mais
anti-Garfield do que a ação. Contracenando
com atores já de começo pouco expressivos
Breckin Meyer, como Jon, e Jennifer Love Hewitt,
como a veterinária por quem ele é apaixonado
, o Garfield de computação gráfica
sai de sua paz para salvar seu grande rival, o cão
Odie, de um explorador inescrupuloso. Nem a dublagem
de Bill Murray, no original, é capaz de esconder
o fato de que o roteiro repete, lance por lance, dezenas
de outros filmes infantis. Só quem impressiona,
aqui, é o simpaticíssimo Odie. É
o cúmulo da ironia: um filme feito para celebrar
um gato, em que todas as glórias ficam com o
cachorro.
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