Edição 1862 . 14 de julho de 2004

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Saúde
O preço da dedicação

O stress de quem cuida de alguém doente
na família pode levar a males mais graves

 
Fotos Denise Adans
Gloria e o filho Silvio: "Dor maior seria vê-lo sofrer sozinho"

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Os males sofridos por quem cuida de familiares doentes

Em 2001, a paulistana Maria Rosa Clini, professora aposentada então com 65 anos, começou a estranhar o comportamento da mãe, Eurídice, e levou-a ao médico. O diagnóstico foi mal de Alzheimer, doença degenerativa que causa demência. Nos dois anos seguintes, Maria Rosa abandonou hábitos como ir à igreja e ao cabeleireiro e dedicou a vida a cuidar da mãe, que passou a apresentar comportamento agressivo, não dormia mais que uma hora seguida e precisou de ajuda para os hábitos higiênicos. No início deste ano, a professora internou-a numa clínica de repouso. Não havia outro jeito: o stress a que Maria Rosa estava submetida fez com que ela própria adquirisse um rosário de doenças, de lúpus a hipertensão, de depressão a hipoglicemia. "Às vezes me acho um monstro, mas não agüentava mais", ela diz.

Maria Rosa com a mãe, Eurídice: "Eu já não agüentava mais"

Cuidar de uma pessoa doente na família pode trazer recompensas psicológicas – é um ato de amor extremo. Mas, segundo estudos, é também uma forma garantida de arruinar a própria saúde. Uma pesquisa recente da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, conclui que quem se dedica a esse tipo de assistência tem risco 63% maior de ter morte prematura. Além disso, tende a desenvolver depressão, baixa resistência do sistema imunológico, pressão alta, insônia e artrite. Na Ohio State University, também nos Estados Unidos, pesquisadores descobriram que o hormônio do stress interleukin-6, ligado a doenças do coração e diabetes, está presente em quantidade seis vezes maior nas pessoas que cuidam intensivamente de parentes enfermos. Levantar uma pessoa idosa da poltrona ou da cama é também caminho certo para dores nos ombros e nas costas e pode provocar lesões graves. "Ao contrário do que ocorre com os enfermeiros profissionais, os familiares se envolvem emocionalmente com a situação e tendem a considerar a doença do outro como se fosse sua, o que potencializa os efeitos colaterais de quem cuida", diz a psicóloga especializada em stress Ana Maria Rossi, de São Paulo.

A paulistana Gloria Ribeiro da Silva recebeu um diagnóstico de câncer ósseo no ano passado e surpreendeu-se quando o médico associou a doença aos cuidados que ela dispensa dia e noite ao filho Silvio, de 7 anos, paraplégico devido a uma meningite contraída aos 50 dias de vida. Na época, ela abandonou a profissão de manicure e pouco tempo depois passou a sofrer de pressão alta e depressão. "Tenho seqüelas que nunca mais vão me deixar", ela avalia. "Dói cuidar de meu filho, mas dor maior seria vê-lo sofrendo sozinho."

 
 
 
 
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