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Cidades
O rato que ruge
Um retrato do habitante mais abominado
de Nova York, Londres, Tóquio, São Paulo...

Marcelo Marthe
Habitantes de qualquer grande cidade do planeta
conhecem o Rattus norvegicus a popular ratazana de
esgoto. Onde quer que haja uma aglomeração humana,
lá estará esse bicho oportunista, espalhando germes
que são uma ameaça à saúde pública.
Curiosamente, os estudos sobre ele são escassos. Um livro
recém-lançado nos Estados Unidos ajuda a suprir essa
lacuna. Para escrever Rats, o jornalista Robert Sullivan
observou os ratos de Nova York com o mesmo rigor dos naturalistas
que investigam a vida selvagem. Munido de óculos infravermelhos,
já que o animal tem hábitos noturnos, Sullivan acompanhou
durante um ano a rotina dos ratos num beco a dois quarteirões
da Bolsa de Valores nova-iorquina. A narrativa de suas aventuras
resultou num ensaio saboroso sobre a conturbada convivência
do homem com a mais indesejável das criaturas. O livro traz
informações que ajudam a entender o comportamento
do bicho não só em Nova York, mas também em
Tóquio ou São Paulo.
Não são poucos os distúrbios
que os ratos causam nas cidades. De acordo com estudos citados
por Sullivan, seu hábito de roer cabos causa 26% dos rompimentos
da rede elétrica, 18% dos danos em linhas telefônicas
e 25% dos incêndios de origem desconhecida. Transmissores
de doenças, eles foram responsáveis pela morte de
10 milhões de pessoas no século XX. Somente neste
ano, os hospitais paulistanos já registraram 181 casos de
leptospirose na cidade. Sullivan conta anedotas horripilantes sobre
as infestações que de tempos em tempos assolam Nova
York. Uma delas é a história de um lixão localizado
numa ilhota em frente à cidade que, entre os anos 10 e 30,
se converteu numa espécie de paraíso dos ratos
que devoraram até porcos. A mais recente infestação
deu-se nos anos 90. A aflição dos habitantes do Lower
East Side de Manhattan foi tão grande que eles protestaram
diante do gabinete do prefeito Rudolph Giuliani. "Um rato, dois
ratos, três ratos! Essa cidade só tem ratos", bradavam
os manifestantes.
A ratazana é uma conquistadora. Ao
chegar a um novo território, ela extermina outros ratos que
ali vivem e se multiplica até exaurir os recursos do ambiente.
Quando isso acontece, as mais fortes se voltam contra as mais fracas.
Segundo Sullivan, isso ajuda a entender por que é errônea
a idéia de que haja um rato por habitante nas grandes cidades
uma informação que começou a circular
no começo do século XX sem nenhuma base científica.
O estudo mais sério já realizado sobre o assunto em
Nova York que data de 1949 encontrou a proporção
de um bicho para cada 36 habitantes. Combater o Rattus norvegicus
com armas convencionais, como o veneno, é uma missão
quixotesca. O melhor modo de dar fim a eles é cortar seu
suprimento de comida o que significa, em última instância,
ter uma postura responsável em relação ao lixo
abandonado nas cidades. Por esse motivo, Sullivan enxerga uma certa
dimensão moral na luta do homem contra o rato. "Eles prosperam
graças a nosso desmazelo", diz ele.
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Inimigo íntimo
Conheça o Rattus norvegicus,
a popular ratazana de esgoto
Quando não está comendo, ele faz
sexo: mantém, em média, vinte relações
por dia
Os maiores exemplares podem atingir 50 centímetros
e pesar quase 1 quilo
Cerca de 50 000 pessoas são mordidas
por esse bicho nos Estados Unidos a cada ano
na maioria crianças
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