Edição 1862 . 14 de julho de 2004

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Cidades
O rato que ruge

Um retrato do habitante mais abominado
de Nova York, Londres, Tóquio, São Paulo...


Marcelo Marthe

Habitantes de qualquer grande cidade do planeta conhecem o Rattus norvegicus – a popular ratazana de esgoto. Onde quer que haja uma aglomeração humana, lá estará esse bicho oportunista, espalhando germes que são uma ameaça à saúde pública. Curiosamente, os estudos sobre ele são escassos. Um livro recém-lançado nos Estados Unidos ajuda a suprir essa lacuna. Para escrever Rats, o jornalista Robert Sullivan observou os ratos de Nova York com o mesmo rigor dos naturalistas que investigam a vida selvagem. Munido de óculos infravermelhos, já que o animal tem hábitos noturnos, Sullivan acompanhou durante um ano a rotina dos ratos num beco a dois quarteirões da Bolsa de Valores nova-iorquina. A narrativa de suas aventuras resultou num ensaio saboroso sobre a conturbada convivência do homem com a mais indesejável das criaturas. O livro traz informações que ajudam a entender o comportamento do bicho não só em Nova York, mas também em Tóquio ou São Paulo.

Não são poucos os distúrbios que os ratos causam nas cidades. De acordo com estudos citados por Sullivan, seu hábito de roer cabos causa 26% dos rompimentos da rede elétrica, 18% dos danos em linhas telefônicas e 25% dos incêndios de origem desconhecida. Transmissores de doenças, eles foram responsáveis pela morte de 10 milhões de pessoas no século XX. Somente neste ano, os hospitais paulistanos já registraram 181 casos de leptospirose na cidade. Sullivan conta anedotas horripilantes sobre as infestações que de tempos em tempos assolam Nova York. Uma delas é a história de um lixão localizado numa ilhota em frente à cidade que, entre os anos 10 e 30, se converteu numa espécie de paraíso dos ratos – que devoraram até porcos. A mais recente infestação deu-se nos anos 90. A aflição dos habitantes do Lower East Side de Manhattan foi tão grande que eles protestaram diante do gabinete do prefeito Rudolph Giuliani. "Um rato, dois ratos, três ratos! Essa cidade só tem ratos", bradavam os manifestantes.

A ratazana é uma conquistadora. Ao chegar a um novo território, ela extermina outros ratos que ali vivem e se multiplica até exaurir os recursos do ambiente. Quando isso acontece, as mais fortes se voltam contra as mais fracas. Segundo Sullivan, isso ajuda a entender por que é errônea a idéia de que haja um rato por habitante nas grandes cidades – uma informação que começou a circular no começo do século XX sem nenhuma base científica. O estudo mais sério já realizado sobre o assunto em Nova York – que data de 1949 – encontrou a proporção de um bicho para cada 36 habitantes. Combater o Rattus norvegicus com armas convencionais, como o veneno, é uma missão quixotesca. O melhor modo de dar fim a eles é cortar seu suprimento de comida – o que significa, em última instância, ter uma postura responsável em relação ao lixo abandonado nas cidades. Por esse motivo, Sullivan enxerga uma certa dimensão moral na luta do homem contra o rato. "Eles prosperam graças a nosso desmazelo", diz ele.

 

Inimigo íntimo

Conheça o Rattus norvegicus,
a popular ratazana de esgoto

Quando não está comendo, ele faz sexo: mantém, em média, vinte relações por dia

Os maiores exemplares podem atingir 50 centímetros e pesar quase 1 quilo

Cerca de 50 000 pessoas são mordidas por esse bicho nos Estados Unidos a cada ano – na maioria crianças

 
 
 
 
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