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Governo
Continuar é preciso
No balanço de um ano e meio, o mérito
do governo é não reinventar a roda

Leandra Peres
Em nova tentativa de rebater as críticas
de paralisia, e dar munição na guerra eleitoral que
seus candidatos vão enfrentar até outubro, o Palácio
do Planalto montou uma festa de aniversário de um ano e meio
na segunda-feira passada. Na solenidade, em que o ministro José
Dirceu falou durante uma hora e vinte minutos, o governo produziu
uma certeza a de que prestar contas é sempre bom,
mesmo que numa data inventada e deixou no ar uma dúvida:
o que há mesmo para comemorar? No terreno econômico,
com os debates diários em torno de inflação,
juros, crescimento, sabe-se com maior ou menor exatidão o
que o governo fez e os resultados favoráveis que começa
a colher. Talvez no campo social os balanços periódicos
sejam mais necessários em razão da amplitude geográfica
dos programas sociais e da natureza quase invisível de muitos
deles. Nessa área, no entanto, o governo não tinha
propriamente uma festa para dar. Pelo balanço, percebe-se
que 2003 foi um ano perdido e que agora as coisas começam
a dar sinais de que vão andar.
Como saldo de dezoito meses de trabalho, não
se trata de um resultado em torno do qual se devam lançar
rojões. Há, no entanto, um dado que o governo às
vezes tenta esconder, mas que deve, este sim, ser comemorado. É
a capacidade do governo petista de reconhecer os bons resultados
de alguns programas e mantê-los em funcionamento, mesmo que
tenham sido criados pela gestão anterior. O Bolsa-Família,
por exemplo, é o guarda-chuva de quatro projetos importantes.
Três vêm da era tucana e apenas um, o Cartão-Alimentação,
é criação petista. Não importa. O Bolsa-Família
tem sido a principal bandeira social do governo, conseguiu atingir
sua meta de beneficiar 4 milhões de famílias e está
entre os programas sociais mais bem-sucedidos da administração
petista. Vê-se aí que nem sempre a originalidade na
criação de programas, uma mania tão arraigada
na mentalidade dos políticos brasileiros, é a melhor
saída. Mantê-los, corrigindo eventuais defeitos e adicionando
melhorias aqui e ali, pode ser a forma de atingir resultados bem
mais eficazes.
O Ministério do Desenvolvimento Social
e Combate à Fome, criado especificamente para gerenciar os
programas sociais do governo, controla o andamento de doze projetos
oito deles vêm do governo anterior. O Programa de Erradicação
do Trabalho Infantil, que chegou a receber elogios de entidades
internacionais, foi criado pelo governo anterior, mantido pelo governo
petista e, agora, começa a produzir resultados da mesma magnitude
que na gestão tucana. Demorou, é verdade, mas a lentidão
não é propriamente uma novidade no governo petista.
O grande nó da área social, porém, permanece
intocado: os defeitos estruturais da política social brasileira.
Agora, como antes, as políticas sociais são mal focalizadas
e freqüentemente erram o alvo, costumam destinar mais recursos
aos velhos que aos jovens e não dispõem de mecanismos
eficazes para checar resultados.
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