Edição 1862 . 14 de julho de 2004

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Governo
Continuar é preciso

No balanço de um ano e meio, o mérito
do governo é não reinventar a roda


Leandra Peres

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Em nova tentativa de rebater as críticas de paralisia, e dar munição na guerra eleitoral que seus candidatos vão enfrentar até outubro, o Palácio do Planalto montou uma festa de aniversário de um ano e meio na segunda-feira passada. Na solenidade, em que o ministro José Dirceu falou durante uma hora e vinte minutos, o governo produziu uma certeza – a de que prestar contas é sempre bom, mesmo que numa data inventada – e deixou no ar uma dúvida: o que há mesmo para comemorar? No terreno econômico, com os debates diários em torno de inflação, juros, crescimento, sabe-se com maior ou menor exatidão o que o governo fez e os resultados favoráveis que começa a colher. Talvez no campo social os balanços periódicos sejam mais necessários em razão da amplitude geográfica dos programas sociais e da natureza quase invisível de muitos deles. Nessa área, no entanto, o governo não tinha propriamente uma festa para dar. Pelo balanço, percebe-se que 2003 foi um ano perdido e que agora as coisas começam a dar sinais de que vão andar.

Como saldo de dezoito meses de trabalho, não se trata de um resultado em torno do qual se devam lançar rojões. Há, no entanto, um dado que o governo às vezes tenta esconder, mas que deve, este sim, ser comemorado. É a capacidade do governo petista de reconhecer os bons resultados de alguns programas e mantê-los em funcionamento, mesmo que tenham sido criados pela gestão anterior. O Bolsa-Família, por exemplo, é o guarda-chuva de quatro projetos importantes. Três vêm da era tucana e apenas um, o Cartão-Alimentação, é criação petista. Não importa. O Bolsa-Família tem sido a principal bandeira social do governo, conseguiu atingir sua meta de beneficiar 4 milhões de famílias e está entre os programas sociais mais bem-sucedidos da administração petista. Vê-se aí que nem sempre a originalidade na criação de programas, uma mania tão arraigada na mentalidade dos políticos brasileiros, é a melhor saída. Mantê-los, corrigindo eventuais defeitos e adicionando melhorias aqui e ali, pode ser a forma de atingir resultados bem mais eficazes.

O Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, criado especificamente para gerenciar os programas sociais do governo, controla o andamento de doze projetos – oito deles vêm do governo anterior. O Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, que chegou a receber elogios de entidades internacionais, foi criado pelo governo anterior, mantido pelo governo petista e, agora, começa a produzir resultados da mesma magnitude que na gestão tucana. Demorou, é verdade, mas a lentidão não é propriamente uma novidade no governo petista. O grande nó da área social, porém, permanece intocado: os defeitos estruturais da política social brasileira. Agora, como antes, as políticas sociais são mal focalizadas e freqüentemente erram o alvo, costumam destinar mais recursos aos velhos que aos jovens e não dispõem de mecanismos eficazes para checar resultados.

 
Celso Junior/AE


 
 
 
 
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