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Economia e Negócios
O barato pode sair caro
Os remédios no Brasil estão entre
os mais
baratos do mundo. Mas isso não é tão bom

Paula Neiva
O Brasil está entre os primeiros colocados
no ranking dos países com os menores preços de medicamentos
do mundo. Em 2000, ocupava o nono lugar da lista. No final de 2002,
pulou para a quinta colocação, atrás apenas
de Coréia do Sul, Colômbia, Nova Zelândia e Chile.
Os dados resultam de um estudo encomendado pela Federação
Brasileira da Indústria Farmacêutica (Febrafarma) à
consultoria IMS Health, que conferiu quanto custam os 200 remédios
mais vendidos em trinta países desenvolvidos ou em desenvolvimento.
Na comparação de preços, foram excluídos
os produtos que não estão disponíveis no mercado
nacional. No Brasil, o consumidor paga, em média, 15 centavos
de dólar por cada comprimido que compra 40% menos
que o preço médio internacional. Nos Estados Unidos,
que têm os maiores preços entre os países pesquisados,
desembolsa-se em média quatro vezes mais pelos mesmos remédios.
Há motivos bem concretos para essa discrepância. O
primeiro deles é a diferença de poder aquisitivo.
Obviamente, não haveria como o consumidor brasileiro arcar
com os mesmos custos dos americanos, que têm uma renda per
capita cerca de dez vezes maior que a nacional. Mas isso está
longe de ser uma explicação que dê conta das
proporções do fenômeno.
Fabiano Accorsi
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| Linha de produção de um remédio no Brasil:
preços 40% mais baixos que a média mundial |
Desde 2000, o governo exerce um forte controle de preços
sobre os remédios vendidos em território brasileiro.
Os valores não podem ultrapassar o teto máximo estabelecido
pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos
(CMED), órgão comandado pelo Ministério da
Saúde que aprova ou rejeita os preços sugeridos pelos
laboratórios farmacêuticos. Para calcular o máximo
a ser cobrado pelos fabricantes e revendedores, a CMED pesquisa
nove mercados internacionais: Austrália, Canadá, Espanha,
Estados Unidos, França, Grécia, Itália, Nova
Zelândia e Portugal. O teto brasileiro sempre fica abaixo
daquele do país em que o remédio tem o menor preço.
"Em média, um de cada dez preços sugeridos pela indústria
precisa ser revisto", diz Luiz Milton Veloso Costa, secretário
executivo da CMED. Outro fator que contribuiu para a queda dos preços
dos medicamentos no Brasil foi a entrada dos genéricos no
mercado a partir de 2000 que custam cerca de 40% menos que
o produto original.
Remédios com preços baixos são,
evidentemente, um ótimo negócio para o consumidor.
Mas não representam uma boa perspectiva a longo prazo. Em
2000, o Brasil era o décimo maior mercado farmacêutico
mundial. No ano passado, terminou na 14ª posição.
Nesse período, o faturamento do setor no país caiu
de cerca de 6 bilhões de dólares para menos de 5 bilhões
de dólares anuais. Com essa redução, os laboratórios
redirecionaram seus investimentos para mercados em que obtêm
maior lucro. Em 1999, ano anterior ao início da política
de controle de preços, o investimento dos fabricantes de
remédios no Brasil foi de 260 milhões de dólares.
Quatro anos depois, essa soma caiu para menos da metade. O país
perdeu recursos para pesquisa e modernização das linhas
de produção das fábricas. Mais uma razão
contribuiu para anuviar o ambiente: a ameaça de quebra de
patentes que paira sobre os laboratórios, desde que o governo
tomou essa atitude em relação aos remédios
contra a aids. Os benefícios políticos e humanitários
foram grandes, mas para os fabricantes ela sinalizou um caminho
perigoso. Manter a patente de um remédio significa recompensar
quem investiu para criar um novo medicamento. Quebrá-la,
pura e simplesmente, é privar a indústria de ter um
retorno do seu investimento. Coisa de regimes autoritários.
Não é por outro motivo que a China se sente à
vontade nesse terreno. A última dos chineses foi quebrar
a patente do Viagra.
Entre as principais queixas da indústria
farmacêutica está o fato de o governo não levar
em consideração os custos de produção
dos medicamentos. Para o desenvolvimento de uma única molécula
que servirá de base para um novo medicamento, o investimento
médio gira em torno de 860 milhões de dólares.
É preciso pagar pesquisadores, maquinário, análises
e levantamentos clínicos. Trata-se, ainda, de um processo
longo, que demora, em média, 14 anos: de cada 10.000
moléculas pesquisadas, apenas uma mostra-se viável
do ponto de vista científico e comercial para virar remédio.
Como se trata de um setor extremamente competitivo, as empresas
também gastam pesado para convencer médicos e pacientes
das vantagens de seus produtos. Apenas nos Estados Unidos, os gastos
com marketing ultrapassam os 10 bilhões de dólares
anuais.
Não bastasse controlar os preços
com mão de ferro, o governo brasileiro impõe uma das
mais altas tributações do mundo aos produtos do setor.
Até 27% do que se paga por cada remédio são
impostos. Dessa porcentagem, 18%, em média, são referentes
ao ICMS, o imposto sobre circulação de mercadorias
e serviços. Na Coréia e no México, por exemplo,
não há taxação nenhuma sobre medicamentos.
Nos Estados Unidos, as maiores tributações não
chegam a 10% do valor final do medicamento. Com impostos altos e
o preço final ao consumidor tabelado, a margem de lucro dos
fabricantes reduz-se, o que deixa o negócio menos interessante.
Para fazer com que ele continue num país como o Brasil, a
indústria utiliza uma estratégia de preços
mundiais. Ou seja, cobra ainda mais nos países ricos. "Involuntariamente,
cada laboratório é obrigado a bancar o Robin Hood",
diz Felipe Ohana, professor de macroeconomia da Fundação
Getúlio Vargas de Brasília e coordenador do estudo.
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