Edição 1862 . 14 de julho de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Lya Luft
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Auto-retrato
Datas
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Especial
Mudança radical

Corrigir o nariz? Inflar o busto? Isso é ínfimo
para quem muda tudo e renasce como outra
pessoa – quase sempre mais bela e mais feliz

 
Pedro Rubens
"Nunca me arrumei tanto. Uso decotes, faço as unhas, pinto o cabelo. Sou outra mulher."


PATRÍCIA NASCIMENTO,
28 anos, 1,73 metro, 63 quilos
SOMMELIÈRE

O QUE FEZ DESDE 2001:
regime e musculação (perdeu 15 quilos), colocação de prótese nos seios, lipo nas coxas e aplicação de Botox no rosto


NESTA REPORTAGEM
Quadro: os números do exagero

EXCLUSIVO ON-LINE
Galeria de fotos

Em matéria de transformações no visual, o mundo se divide em três correntes. Existem os liberais, de mentalidade apropriadamente aberta e vaidade suficientemente ativada para esticar uma ruguinha aqui, enxugar uma gordurinha ali. Existem os conservadores, avessos a qualquer intervenção estética, em geral congregados sob a bandeira da tribo dos maridos ("Para que essa história de lipo? Gosto de você como está, querida"). E existem os revolucionários. Para eles, o céu, ou talvez nem isso, é o limite. Alguns exemplos espantosos podem ser vistos nas fotos desta reportagem.

Os revolucionários da mudança não querem apenas melhorar, consertar, disfarçar. Seu anseio publicamente assumido – enquanto em tanta gente apenas se esgueira como um desejo secreto e embaraçoso – é mudar da cabeça aos pés, virar outra pessoa, deixar para trás o invólucro de sem-gracice, gordura ou pura feiúra e, enfim, renascer, belos e amados. Para isso, contam com ferramentas nunca antes disponíveis na história da humanidade: os avanços técnicos constantes e a crescente popularização das cirurgias plásticas, propiciadoras dos "milagres" que arrancam expressões de espanto. Dispõem também de um ambiente social favorável, em que celebridades discutem as minúcias de seus adendos corporais, do retoque nas pálpebras às próteses nos seios, contribuindo para a disseminação dos procedimentos estéticos. E têm, por fim, a televisão.

 
Fotos Pedro Rubens e álbum de família
"Cada centavo foi bem empregado. Gastaria de novo o dobro, se necessário. Prefiro cicatriz a flacidez."

REGINA HELENA MINGORANCE RIBEIRO, 43 anos, 1,62 metro, 66 quilos
ADVOGADA

O QUE FEZ DESDE 1988: redução de mamas, lipoaspiração no abdômen, correção no nariz e nas pálpebras, lipo e plástica nas coxas e lifting no rosto

Captando o crescente interesse pelas operações plásticas, a rede americana ABC pôs no ar no fim de 2002 um programa sobre a radical transformação visual de duas pessoas que durante semanas haviam se submetido a cirurgias, tratamentos, dietas, ginástica, aulas de moda e cabeleireiros para apagar todo e qualquer defeito que viam em seu corpo. O público adorou. O programa, chamado Extreme Makeover, ganhou lugar semanal no horário nobre da emissora e se transformou no pioneiro de uma nova linhagem de reality shows, a das mudanças físicas flagradas em todas as suas minúcias. Entre as imagens do "antes" e do "depois" (como as vistas nestas páginas), os programas de TV acrescentaram cenas de bisturi cortando pele e carne, closes de córneas sendo corrigidas, próteses implantadas, gengivas raspadas, dores e inchaços pós-operatórios vividos às vezes em meio a lágrimas e gritos. Ao fim do calvário, o retorno triunfal do transformado a sua comunidade, radiante de felicidade, recebido com "ohs" de surpresa e encantamento.

Não é de estranhar que programas como Extreme Makeover tenham despertado também uma torrente de críticas. Médicos reclamam da disseminação de expectativas irreais, especialistas em ética denunciam a exposição dos pacientes e cultores da estética queixam-se da entronização de um modelo de beleza pasteurizado e exagerado. As pessoas submetidas a um grande número de intervenções de fato padecem de uma "plastificação" facilmente identificável nos seios e dentes grandes demais, nas maçãs do rosto excessivamente ressaltadas e nos famosos lábios hiperinflados. O público, em geral, confrontado com metamorfoses ilimitadas, sente aquele friozinho na espinha do tipo que provoca a pergunta recorrente quando os seres humanos se metem em terras incógnitas: onde isso vai parar?

 
Fotos Pedro Rubens e álbum de família

"Fiquei chocada quando vi na televisão meu lábio suspenso, sangrando. Mas fiquei muito mais linda."

TALLYTA CARDOSO, 27 anos, 1,61 metro, 52 quilos
ATRIZ

O QUE FEZ EM 2004: em plena novela Metamorphoses, da Record, colocou prótese de silicone nos seios e levantou a ponta do nariz

A resposta é: ninguém sabe. O mais longe a que se chegou até agora foi outro programa do gênero, I Want a Famous Face, criado pela MTV americana e exibido atualmente pela brasileira, que acompanha candidatos a se transformar em clones de seus ídolos, como os gêmeos narigudos e cheios de espinhas que queriam "virar Brad Pitt" ou a garota insossa que almejava "ser Kate Winslet". Não é preciso ser nenhum especialista na psique humana para constatar que não é nada saudável querer virar não só outra pessoa – mas uma pessoa que já existe, e não tem nada de você, certo? A carioca Mirian Masteesouz, dançarina de samba, 27 anos, pede licença para discordar. Mirian é um exemplo incomum de emulação literal de um ídolo, além de prova ambulante, e siliconada, de que quem dispõe de dinheiro, saúde, tempo e disposição psicológica pode realmente se transformar em outra pessoa. Desde 1997, ela pôs na cabeça que queria ficar igual a Scheila Carvalho, a bela morena que se tornou conhecida dançando no grupo É o Tchan!. "Temos quase a mesma altura, medidas e olhos verdes parecidos. Comecei a ver a Scheila como minha referência", diz. Hoje, declarados 100.000 reais gastos em cuidados estéticos, cabelo cortado, tingido e tratado como o da musa, programa de exercícios igual ao dela, guarda-roupa idem, Botox, lipoaspiração em sete lugares e duas cirurgias para colocar próteses de mama, considera que quase chegou lá. "Só falta serrar os dentes caninos."

Absurdo, insanidade, obsessão? "Não tenho medo de perder minha essência. Adoro quando vou fazer shows e o contratante me acha idêntica a Scheila Carvalho", desafia Mirian. "Sou completamente feliz de ter Scheila como uma referência em minha vida." A reação de Mirian define o estado de enorme satisfação que, na maioria esmagadora dos casos, acompanha aqueles que passam por transformações radicais em virtude de cirurgias plásticas ou, mais freqüentemente, dos obesos que emagrecem para valer. Depois de penar no gulag social reservado aos excessivamente fora dos padrões estéticos, os transformados desabrocham para uma nova vida. Maria Cláudia Gondomar, publicitária carioca de 26 anos, perdeu 57 quilos nos últimos dois anos (baixou de 120 para 63), graças a um anel de silicone implantado no estômago. Fez lipoaspiração, plástica no abdômen e nas coxas, para remover excessos de pele, e nas mamas, para colocação de próteses. Passou a fazer ginástica três horas por dia. "Fiquei sarada, linda, irreconhecível", encanta-se. A mudança foi tamanha que precisou fazer terapia para se acostumar à nova Maria Cláudia. Hoje se sente admirada "não só pela beleza física, mas também pela nova postura diante da vida. Sou muito mais segura". A ginecologista gaúcha Jussara Silberfarb, 48 anos, que baixou de 132 para 62 quilos em dois anos graças a uma dieta de proteínas, também defende ativamente o efeito transformador do bisturi. Além de reduzir mamas e abdômen e fazer duas lipos, ela mudou de especialidade: dedica-se agora à medicina estética e abriu um spa. "Não fiz isso para os outros, nem buscando compensação para nada. Pensei na minha saúde, na minha auto-estima, na minha felicidade", diz.

 
Fotos Pedro Rubens e álbum de família

"Falavam que eu parecia com a Scheila Carvalho e comecei a vê-la como referência. Ela era linda, queria ficar como ela. Agora, só falta serrar os dentes caninos."

MIRIAN MASTEESOUZ, 27 anos, 1,56 metro, 57 quilos
DANÇARINA DE SAMBA

O QUE FEZ EM CINCO ANOS: lipoaspiração de abdômen, cintura, flancos, costas, culote e coxas, duas cirurgias de mama para colocação de próteses e aplicação de Botox no rosto

Para a maioria dos médicos, a realização de diversas cirurgias de correção estética é receitada e incentivada em ex-obesos e aceita mesmo em quem não vive os resultados de uma dieta radical. "Com o aumento da segurança anestésica, a melhora dos medicamentos e dos aparelhos e o crescimento do número de profissionais bem treinados, a cirurgia plástica virou uma prestação de serviço", diz o médico Ithamar Stocchero, presidente da regional São Paulo da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. É claro que não existem garantias absolutas de segurança, o que de tempo em tempo é demonstrado em casos como o de Marcus Menna, vocalista do grupo LS Jack. No vigor de seus 27 anos, submetido a uma lipoaspiração numa clínica carioca no começo do mês, o cantor sofreu parada cardíaca e até sexta-feira passada estava em coma induzido.

Episódios desafortunados desse tipo interferem apenas incidentalmente no ânimo favorável às intervenções estéticas. O Brasil é o segundo país do mundo em número de cirurgias plásticas: 400 000 em 2003, sendo metade delas puramente estéticas (40% lipoaspiração, 30% mamas, 20% face). Pesquisa realizada em junho pelo InterScience Informação e Tecnologia Aplicada, instituto especializado em pesquisas de mercado de São Paulo, mostrou que, entre 12 477 entrevistados, 90% das mulheres e 65% dos homens sonham com mudanças no próprio corpo. Elas querem modificar principalmente abdômen (28%) e seios (20%). Eles querem ter mais cabelos (20%). Entre os 5% que já tinham feito plástica, 90% pretendem fazer outra. Entre os invictos, 30% declararam que vão criar coragem e enfrentar o bisturi. "Antigamente, beleza era questão de sorte: nascia-se bonito ou não. Agora, ela pode ser adquirida", diz Cristiana Arcangeli, empresária do ramo de cosméticos e autora do livro Beleza para a Vida Inteira.

A carioca Teresa Cristina Silva, 51 anos, dona-de-casa, ainda se lembra vivamente de como sofreu para se adaptar quando o marido foi transferido para São Paulo, há oito anos. A tristeza passou com um remédio cada vez mais universal: plástica. Teresa redescobriu o consultório do cirurgião Paulo Müller, onde já havia feito correção de nariz e redução de mamas, para um lifting de rosto e pescoço. Aproveitou para ajeitar os lábios e dar um retoque no nariz. Voltou neste ano para pôr prótese de silicone nos seios e fazer lipo em várias áreas de gordura localizada. "A plástica mexe mais com a cabeça do que com o corpo da gente", acredita. "Programo as plásticas, pago usando a economia que faço em outras coisas, busco bons médicos e bons hospitais", ensina, do alto de sua experiência. Seguindo a mesma trilha, a advogada paulista Regina Mingorance Ribeiro, 43 anos, fez a primeira plástica (redução de mamas) aos 27 anos e não parou mais: mamas de novo, lipo e depois plástica no abdômen, lipoescultura nas coxas, elevação da ponta do nariz, correção de pálpebras, próteses de silicone nos seios. Aí, fez regime ("Sei que está errado, mas detesto exercício físico"), perdeu 14 quilos e pronto: bisturi de novo, para retirar excessos de pele. "Não há com o que se preocupar quando se faz tudo direitinho. Acho que volto melhor de uma cirurgia do que de uma viagem ao exterior", garante Regina. Entusiasta, convenceu o marido, Isaías, de 57 anos, a se render ao bisturi: ele já reformou nariz, pescoço e pálpebras.

 
Claudio Rossi
Adriana Pittigliani/divulgação
LUZES, CÂMERA, BISTURI
Gravação de cirurgia plástica real para a novela Metamorphoses: glamour não elimina riscos; Menna (à direita) está em coma depois de uma lipo

Os efeitos benéficos da cirurgia estética sobre a disposição de espírito são conhecidos na prática – e na teoria também. Marcos de Arruda Alves, mestre em cirurgia plástica pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), para sua dissertação de mestrado acompanhou durante quinze meses 32 mulheres que fizeram lifting no rosto e verificou seu grau de auto-estima em três momentos. Numa escala em que o máximo era 100, as pacientes aumentaram sua auto-estima de 78 antes da cirurgia para 93, seis meses depois. "O lifting proporcionou a elas uma nova percepção corporal, elevando o apreço por si mesmas", concluiu Alves. Logo em seguida, no pódio das cirurgias mais gratificantes, vem a plástica de mamas. "Para a mulher, peito é mais importante que RG", afirma o cirurgião paulista Pedro Vital. "É o órgão que atesta seu poder de sedução."

Entrar no hospital de busto tímido e sair com seios orgulhosos é um dos efeitos transformadores mais vistosos do arsenal de "milagres" da cirurgia plástica – é tão tentador que a maioria das mulheres não resiste a pôr um pouco mais do que o recomendado em nome da elegância de proporções e da leveza estética. Não é de admirar que muitas pacientes sintam estar vivendo a realização de um sonho. O mito da transformação está entranhado nos fundamentos da cultura ocidental, desde a órfã enjeitada que vira princesa a um toque de vara de condão até a fábula recorrente do herói que vive incógnito entre os comuns antes de assumir a sua identidade de herdeiro real ou enviado divino. A mudança de aparência e o desabrochar de uma beleza anteriormente oculta muitas vezes simbolizam a real e importante transmutação, a interior. Embora, reconheça-se, participantes e público de programas como a novela Metamorphoses, o programa nacional mais próximo dos reality shows de transformação radical, não estejam exatamente interessados em evolução espiritual.

A novela, exibida na Rede Record, mistura ficção com cenas reais de cirurgias plásticas. Já foram gravadas mais de sessenta intervenções. Alguns dos operados, inclusive, ganharam cenas na obra de ficção – ou vice-versa. Tallyta Cardoso, 27 anos, atriz em busca de celebridade, foi contratada para um papel e comentou que achava seus seios pequenos. Ambos aumentaram. As cirurgias para colocação das próteses, e mais uma levantadinha no nariz, foram exibidas detalhe por detalhe na novela. Patrícia Nascimento, sommelière de 28 anos, fez o mesmo comentário quando, no restaurante em que trabalha, orientava a dona da produtora da novela, Arlette Siaretta, na escolha de um vinho. Virou personagem, contracenou com artistas do elenco e teve a cirurgia gravada. "Economizei uns 10.000 reais, quase o preço de um carro", calcula Patrícia, que também fez lipoaspiração na coxa.

Apesar dessa instigante mistura de realidade e ficção, e do tema palpitante, embora apresentado de maneira surreal, Metamorphoses é um fracasso absoluto de público. Ao contrário, profissionalíssimos e de uma precisão cirúrgica na escolha dos personagens, os programas americanos dedicados ao tema da transformação, desde roupas e cabelos até a decoração da casa, são um sucesso. Queer Eye for the Straight Guy, uma bizarra produção em que cinco gays dão um banho civilizatório num hétero brucutu, foi uma das maiores surpresas da televisão. Na mesma linha de Extreme Makeover, nasceu The Swan (O Cisne), programa da Fox que promove uma espécie de concurso de beleza artificial. As concorrentes passam por todos os recursos estéticos existentes, mas sem poder jamais se olhar no espelho. Cada episódio apresenta duas candidatas; uma é eliminada e a ganhadora finalmente pode contemplar sua nova imagem. A reação unânime é: "Essa não sou eu". Seguida de lágrimas de felicidade.

 

Do fim da fila para festa dia sim, dia não

 
Fotos álbum de família/Fabiano Accorsi
OUTRA MULHER
Lucilia em 1997, o ano em que decidiu mudar, e agora, 60 quilos mais magra e infinitamente mais feliz: livros e palestras sobre a experiência de virar uma pessoa diferente

Lucilia Diniz é a mãe de todas as transformações radicais no Brasil. Sua saga virou exemplo, livro e estilo de vida. Uma das donas do Grupo Pão de Açúcar, ela guarda só na memória a mulher que foi no passado, que chegou a pesar 120 quilos, infeliz e discriminada. Com infância e adolescência de menina gorducha ("Quando comecei a ir a boates, descobri que magras e bonitas entram direto; gordas vão para o fim da fila"), três casamentos, três filhos ("Parei de ir ao clube porque as crianças iam brincar e eu ficava sozinha num canto"), ela não ia mais ao cinema, porque a cadeira era desconfortável. "Faltava disposição para a vida sexual e para o dia-a-dia da casa. Não conseguia nem ler um jornal", relata. O regime definitivo que começou aos 40 anos mudou sua vida. Lucilia usou todos os recursos: intensificou a terapia freudiana que fazia desde sempre e buscou ajuda na espiritualidade: "Fui do candomblé ao budismo para sair do fundo do poço", relembra. De tênis, meia e camisola, começou a caminhar numa esteira. O processo de transformação durou três anos. À medida que perdia quilos, ganhava músculos e saía toda semana para comprar roupas novas, preocupava-se com o futuro. "Que Lucilia estaria lá? Tive muito medo do desconhecido", conta. Junto com os quilos, perdeu pele e gordura: fez lipoaspiração no corpo inteiro, colocou próteses de silicone nos seios duas vezes, fez plástica de nariz e removeu excesso de pele no abdômen e nas coxas. Também recapeou os dentes. Usa cremes em profusão e, para evitar rugas, pratica ginástica facial, inclusive exercícios diários com um par de halteres labiais (sim, existem). Quando, enfim, chegou aos almejados 60 quilos, sentiu-se vencedora. Hoje, aos 48 anos, enumera vitórias: quatro livros publicados, três palestras por semana, uma linha de produtos light, uma média de dezesseis festas por mês e um namorado doze anos mais novo.

 

"Cuido do que conquistei e sou
uma pessoa muito mais confiante"

 
Ed Herrera/ABC
Richard Cartwright/ABC
UM NOVO HOMEM
Drake antes e depois de Extreme Makeover: sem crise, mesmo quando a mulher achou que estava tendo caso com outro

Dono de uma floricultura na cidadezinha de Olathe, Estado do Kansas, rosto envelhecido e murcho, ar cansado, o americano John Drake, 58 anos, casado, dois filhos, pensava em dar uma levantada na região dos olhos – "a mais crítica" – e já havia consultado dois cirurgiões plásticos quando o programa Extreme Makeover entrou em sua vida. Diante da oportunidade de mudar tudo o que achava errado na aparência, resolveu se inscrever. Foi aceito e, no terceiro episódio, apareceu outro homem, literalmente. Havia se submetido, num prazo de oito semanas, a lifting no rosto e no pescoço, remoção de bolsas sob os olhos, preenchimentos, correção de orelhas de abano, três tratamentos dentários, ginástica com personal trainer, novas roupas e cabelo e até um cavanhaque supostamente sofisticado que mantém porque "a família não deixa tirar". Passado pouco mais de um ano da metamorfose, continua felicíssimo. "Levo uma vida mais saudável, faço ginástica, corro quase todos os dias. Cuido daquilo que conquistei. Sou uma pessoa muito mais confiante", disse ele a VEJA. Drake conta que a família insistiu muito para que participasse do programa: "Eles diziam que eu parecia muito mais velho do que era. Minha mulher é nove anos mais jovem. Meus filhos me chamavam de avô". Agora, enfrenta a idade com outra disposição: "Vou fazer 59 anos em outubro mas sinto como se estivesse chegando aos 40". A experiência, ressalva, exige um certo equilíbrio. "É preciso saber explicar muito bem ao médico o que se quer mudar, para não ter as expectativas frustradas. Também não se deve fazer nada por pressão da sociedade, ou para ficar parecido com outra pessoa", diz. Drake não se arrepende de nada nem jamais passou perto de alguma crise de identidade – nem quando acordou à noite e viu a seguinte cena: "Minha mulher me olhando, dizendo 'Não é possível, não é meu marido! Estou tendo um caso!'"

 

Os limites da operação casada

É cada vez mais comum que o paciente se submeta a mais de um procedimento durante a mesma cirurgia plástica. Mas as associações são limitadas por vários fatores, entre eles:

CONDIÇÃO FÍSICA: quem faz muito regime, por exemplo, não se alimenta bem e não tem saúde para grandes agressões

EXTENSÃO: mexer em muitas partes do corpo do paciente leva o organismo a reagir como se sofresse queimadura de grande extensão. Mesmo a lipoaspiração, aceitável em várias partes ao mesmo tempo, não deve ultrapassar 40% da área e 7% do volume corpóreos

DOR NA RECUPERAÇÃO: não é recomendável fazer rosto e corpo ao mesmo tempo, nem mais de uma intervenção no rosto, nem costas e barriga, áreas de recuperação sofrida

TEMPO: por causa da quantidade de anestesia necessária para sedar o paciente e do cansaço do médico, o ideal é não passar de seis horas. Oito é o limite final


Com reportagem de Ricardo Valladares, Bel Moherdaui,
Marlene Jaggi e Sandra Brasil

 
 
 
 
topo voltar